“Veneza sempre me tratou bem. A vida sempre me tratou bem. Sou um homem muito abençoado e afortunado”, afirmou esta noite o realizador alemão Werner Herzog, logo após receber das mãos de Francis Ford Coppola o Leão de Ouro pela carreira. “Sempre procurei alcançar algo que vá além do que normalmente se vê nas salas de cinema. Sempre quis ser um bom soldado do cinema, com perseverança e um sentido de dever”.
Coube a Coppola, numa cerimónia na Sala Grande, conduzida pela atriz italiana Emanuela Fanelli, o discurso laudatório em relação ao alemão. O norte-americano não mediu as palavras: “Louvar Werner Herzog não basta. (…) Werner surgiu como um fenómeno ilimitado, trabalhando em todos os cantos do cinema. O seu trabalho explodiu na minha vida com O Enigma de Kaspar Hauser (1974), Aguirre, a Ira de Deus (1972), Stroszek (1977) e Fitzcarraldo (1982). Nunca tinha visto filmes assim: todos únicos e muito diferentes entre si, todos magníficos”.
Coppola acrescentou ainda que a trajetória de Herzog poderia preencher uma enciclopédia inteira, já que o próprio realizador é, em si, uma verdadeira enciclopédia — pela vastidão da sua obra, pela vida que construiu e pela sua “criatividade transbordante”. Em tom bem-humorado, rematou: “Se existir outro como ele, estou disposto a comer o meu sapato.” — referência a um dos episódios mais curiosos do percurso de Herzog, transformado na curta-metragem Werner Herzog Eats His Shoe. Nesse trabalho documental, realizado por Les Blank, em 1980, Herzog cumpre uma suposta promessa de comer o seu sapato se Errol Morris terminasse o filme Gates of Heaven.
Visivelmente emocionado, Herzog contou que ele e Coppola chegaram a estar “quase” a realizar um projeto em conjunto: um filme “sobre a conquista do México, narrada do ponto de vista dos Astecas”. O plano acabou por não avançar, mas permaneceu a lembrança de “um tempo extraordinário” em que imaginaram esse trabalho. Com uma nota mais pessoal, acrescentou ainda: “Sem o Francis, não teria conhecido a minha querida esposa, a Lena.”
Além de celebrar a carreira de Werner Herzog e de ter marcado presença na exibição da nova versão melhorada de Queen Kelly, Coppola regressa a Veneza com Megadoc, documentário de Mike Figgis sobre os bastidores de Megalopolis.
Já Herzog exibe o documentário Ghost Elephants, filmado em Angola e dedicado à procura de uma misteriosa manada de elefantes. O realizador alemão dará também uma masterclass no festival, reforçando o vínculo de longa data com o certame.
O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

