“Exausta, mas muito feliz: a estreia de Ariane Labed nas longas-metragens

(Fotos: Divulgação)

Estou exausta, mas muito feliz”. Assim disse a atriz, transformada em realizadora, Ariane Labed, quando lhe perguntamos como foi a aventura de filmar uma longa-metragem. “Não é muito diferente de filmar uma curta-metragem, com exceção da duração”, disse-nos, confirmando que há muito que queria realizar uma longa metragem e que não encarou o trabalho em “September Says” como algo de novo. “Já faço cinema há tantos anos, quase 15, por isso é uma continuidade natural do meu trabalho”. 

Protagonista de muitos filmes de Yorgos Lanthimos (Alps; Lobster), com quem é casada, Labed afirma que é impossível viver com alguém e não ser influenciada por ele (e vice-versa), mas quando lhe falamos de inspirações para o seu trabalho na realização, todos os nomes que cita são de pessoas com quem nunca trabalhou. “Sou uma grande fã da Chantal Akerman. Influenciou-me em tudo na minha vida. Não quero soar pretensiosa, mas os movimentos da câmara do Jonathan Glazer no “Birth”, os filmes de Ulrich Seidl, na sua mistura de humor e negritude, e a Kelly Reinhart, nos diálogos, inspiraram-me para “September Says.

September Says

Presente na Semana da Crítica do Festival do Cairo, o filme adapta o romance “Sisters”, de Daisy Johnson, explorando a dinâmica entre uma mãe solteira e as suas duas filhas, que criaram o seu próprio mundo, o qual entre as regras e os jogos impostos tomam um rumo sinistro à medida que uma delas começa a afirmar a sua independência, quebrando o vínculo da dupla. “Usei o livro dela como se estivesse num diálogo comigo, por isso agora já não sei se uma cena veio do livro ou foi criada por mim”, explica Labed, acrescentando que as grandes mudanças que operou na adaptação têm a ver com a estrutura da narrativa.

Abordando a questão da identidade, que também já se manifestava na curta-metragem, “Olla”, Labed diz que esse tema não lhe é particularmente importante, mesmo sendo originária da Grécia, trabalhando muito em França ou vivendo no Reino Unido. “Considero-me europeia. Não creio ser importante pertencer a um local, mas tenho a noção que nos meus filmes, inclusivamente nas curtas, é algo a que me dedico a estudar. As pessoas estão sem à procura de algo, seja um local, o amor, o reconhecimento e até conhecimento. Creio que isso são coisas humanas e frequentemente fazemos isso, em particular na adolescência“.

Abordando a dinâmica que impôs à dupla de protagonistas do seu filme, Labed fala em “toxicidade”, embora reconheça que esse termo pode ser um pouco estranho de utilizar. “Quando existe a dinâmica do amor incondicional em família, isso pode ser muito poderoso, mas também perigoso. Pode destruir-te. Por isso, acho importante ver até onde estão os limites entre as pessoas. Existem sempre jogos de poder entre casais, familiares, etc. Era um tópico que me atraia.

Foi também importante a escolha das atrizes a partir de diversos critérios, pois apesar de ser necessária uma grande química entre elas, Labed pretendia vários contrastes para criar uma força muito própria. “A personagem da September tem a violência nela. As suas reações são muito violentas. Queria atrizes capazes de criar contrastes. A Pascale Kann tem uma voz e presença muito doce, que contrasta com a violência que há em si. Preocupei-me em criar uma química entre elas, não as queria muito parecidas. Era também uma questão de presença e elas tiveram atuações muito generosas.

Questionada sobre a importância de contar uma história de mulheres, tendo em atenção o papel da 7ª arte na forma como representa o sexo feminino, Labed dispara: “Creio que não se vê bem o impacto da imagem que se cria das mulheres no cinema e as consequências que isso traz a elas, até no ponto da saúde mental. Um realizador tem de ter consciência da sua forma de representar as mulheres. Por exemplo, mesmo que eu fale de ser adolescente e das primeiras sensações sexuais, nunca iria criar imagens pedocriminais dos jovens. Nos anos 90, em França, isso era moda, o sexualizar as adolescentes Creio que cada vez mais os realizadores entendem o impacto que têm na sociedade”. 

O Festival do Cairo prossegue até dia 22 de novembro.

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