Quando dizer a verdade vale um bilhete: a nova provocação do Festival de Gotemburgo envolve um polígrafo

(Fotos: Divulgação)

O Festival de Cinema de Gotemburgo ( 23 de janeiro a 1 de fevereiro), na Suécia, anunciou uma das iniciativas mais invulgares da sua história: a introdução de testes de detetor de mentiras como forma de acesso ao festival. Sob o título Truth Tickets, o projeto propõe uma pergunta direta e desconfortável: que valor tem hoje a verdade?

No centro da iniciativa está um teste de polígrafo real, conduzido pelo especialista Ørjan Hesjedal. Numa sala de interrogatório construída para o efeito — com câmaras, iluminação intensa e monitorização fisiológica — as participantes são submetidas a um exame inspirado em ambientes de investigação criminal. Quem enfrentar a verdade e tiver a honestidade verificada recebe um Truth Ticket, um bilhete para o festival conquistado através da sinceridade.

Integrada no tema deste ano, Focus: Truth, a ação pretende levar o público a refletir não apenas sobre a verdade no cinema, mas sobre a sua fragilidade no espaço público contemporâneo, marcado por retórica política e desinformação digital.

Habituado a surpreender os espectadores, o Festival de Gotemburgo tem já um histórico relevante de iniciativas “fora da caixa”. Em 2021, em plena pandemia, levou uma cinéfila a assistir a toda a programação do festival em isolamento absoluto num farol da remota ilha de Pater Noster, rodeada apenas pelo mar e pelos filmes, transformando o distanciamento social em gesto cinematográfico literal. No mesmo ano, promoveu sessões individuais para uma única pessoa de cada vez em espaços emblemáticos como a arena Scandinavium e o Cinema Draken, refletindo sobre a solidão, a ausência e o silêncio.

No ano seguinte, o festival inovou sobre o tema “Cinema Hipnótico” — submetendo o público a sessões de hipnose coletiva antes da exibição de Memoria, de Apichatpong Weerasethakul; Land of Dreams, de Shirin Neshat e Shoja Azari; e Speak No Evil, de Christian Tafdrup.

Com 266 filmes de todo o mundo, incluindo estreias mundiais e internacionais, o certame volta a dar forte destaque ao cinema escandinavo. Portugal marca presença com Terra Vil, de Luís Campos, na competição da secção Ingmar Bergman, dedicada a primeiras obras. Na mesma secção, o Brasil está representado por Little Creatures, de Anne Pinheiro Guimarães.

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