Algoritmos não parecem assustadores o suficiente para um dos maiores baluartes da crítica cinematográfica francesa, Jean-Michel Frodon, que hoje é professor na Sciences Po Paris e na Universidade de Saint Andrews, na Escócia. É necessário saber jogar com eles na análise do que entra em circuito – e do que não entra – nestes tempos mediados pelo streaming. Sites como Slate.fr e AOC hoje acolhem as ideias de Frodon e a sua escrita, que já esteve a serviço das páginas de cultura do Le Monde e hoje forma leitores nos posts do seu blog: https://projection-publique.com/. Ex-diretor da Cahiers du Cinéma, ele tem circulado por importantes maratonas audiovisuais do planeta não só a pesquisar tendências, mas a refletir sobre elas em colóquios ou masterclasses quase sempre cheias. Autor de cerca de 30 livros, como “La Cinéma à L’Épreuve Du Divers” e “Le Monde de Jia Zhang-Ke”, ele vai estar no Brasil, para uma série de palestras no 15° Festival Varilux, que arranca nesta quinta-feira, em várias cidades (simultaneamente) com 19 títulos inéditos em circuito (como “Jeanne Du Barry”, de Maïween, e “Daaaaaali!”, de Quentin Dupieux) e o clássico “Plein Soleil” (1960).Num dos seus debates, o pesquisador vai debater com a atriz e cineasta Gabriela Carneiro da Cunha (correalizadora de “A Queda do Céu”) o avanço da participação feminina por trás das câmaras. No Rio de Janeiro, ele se apresenta nos dias 7 e 8.
Na conversa a seguir, Frodon faz as suas considerações sobre as fórmulas hollywoodescas e fala das técnicas de França para resistir no culto à autoralidade.

Como os críticos de cinema podem enfrentar a cultura algorítmica dos estúdios americanos? Observando o cenário americano dos blockbusters, lembra-se de algum filme bom de Hollywood que tenha visto nos últimos anos?
Os críticos de cinema precisam continuar o seu trabalho, inclusive usando ferramentas contemporâneas. A “cultura algorítmica de estúdio” é uma nova forma de marketing, tem as suas particularidades, mas não é tão nova assim. Nem tão invencível. Sim, há filmes de Hollywood de que gosto, como a primeira parte de “Duna”; os dois “Jokers” (mesmo que o segundo, de que gosto muito, seja de facto anti-Hollywood, assim como o maravilhoso “Megalopolis”); “Killers of the Flower Moon”; “Us”, de Jordan Peele; “Oppenheimer”; a maioria dos filmes de Shyamalan, inclusive os recentes; “Fury Road”…
Existe algum@ cineast@ american@ atual, independente ou de estúdio, que atraia a sua atenção e respeito?
Existem muitos realizadores americanos cujo trabalho admiro. Entre as/os cineastas americanas/os contemporâneas/os, o nome mais importante para mim é Kelly Reichardt, mas também gosto do trabalho de Christopher Nolan (que é inglês), Kathryn Bigelow, Jordan Peele, Coppola, Laura Poitras, David Cronenberg (que também não é americano), Sean Price Williams, Jim Jarmusch, Fred Wiseman, Merawi Gerima, Chloé Zhao (quando ela se afasta dos super-heróis), Shyamalan, Woody Allen, Laurie Anderson…
Que cineastas franceses têm maior probabilidade de trazer novas ideias paro ecrã? Quais os cineastas franceses, com uma longa carreira, que são os mais atualizados com as questões do presente?
Antes de tudo, gostaria que nos questionássemos sobre a necessidade de ter ideias novas como algo natural. Então, entre as pessoas que estão a explora direções inventivas, mencionaria Alain Guiraudie, Bertrand Bonello, Alice Diop, Damien Manivel, Lea Glob, Marie Voigner, Clément Cogitore e Lucie Borleteau. Com base no seu primeiro filme, tenho esperança em Eléonore Saintagnan, Louise Courvoisier, Jonathan Millet e Anaïs Tellenne, e, claro, Paul B. Preciado, se fizer outro filme. Sei que a maioria deles não é conhecida fora da França, e muitos também não são conhecidos lá, mas eles representam uma imensa gama de possibilidades. Para mim, Alain Cavalier é perfeitamente contemporâneo, assim como Claire Denis, Leos Carax, Claire Simon e Mathieu Amalric, para citar apenas alguns cineastas que há muito tempo estão no meu radar.
Que filme você considera essencial para alguém que quer aprender sobre o cinema francês – o do passado e o do presente – e não sabe nada sobre ele?
“Les 400 Coups” e “A Bout de Souffle”; “L’Atalante” e “La Grande Illusion”; “Beau travail” e “Rois et Reine”; “Cléo de 5 à 7” e “Loulou”; “Rester Vertical” e “Saint Omer”.
Que imagem a França imortalizou nas salas nos últimos anos, especialmente desde o advento das câmaras digitais? Ainda se surpreende com os filmes do seu país?
Não tenho certeza de que a “França” imortaliza alguma coisa, mas desse país saem propostas quase ininterruptas de cinema extremamente diferentes umas das outras, que juntas (e mesmo odiando muitas delas) exaltam a própria ideia de cinema e o mantém vivo, ativo e importante. Sim, claro, fico surpreso com o novo filme de Guiraudie, como fiquei com o último Godard ou com “Wasp Network”, de Olivier Assayas, fico impressionado com um primeiro filme como “Vingt Dieux”, como fiquei com “L’Evénement”, e com os documentários de Yolande Zauberman, Mariana Otero e Claire Simon.

