Estreado na Berlinale de 2025, On vous croit (Acreditamos em Ti) gerou várias discussões no certame, impondo-se como uma das revelações mais contundentes do novo cinema belga, revelando no processo dois cineastas que iremos acompanhar com atenção no futuro: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys.
Seguindo uma audiência judicial decisiva entre dois pais em conflito pela guarda dos filhos, e com uma acusação de abuso sexual infantil pelo meio, o filme desenrola-se praticamente na sua totalidade no gabinete de uma juíza, acompanhando o espectador o desenrolar do processo.
Com Myriem Akheddiou no centro deste dispositivo de enorme tensão, a obra confronta frequentemente o espectador sobre os limites da justiça, a fragilidade das palavras das crianças e a obstinação de uma mãe.
No Palast do Festival de Berlim, conversámos com a dupla de cineastas sobre a origem real do projeto, o seu trabalho de documentação junto de vítimas e magistrados, além das escolhas formais que tomaram para construir um filme que nos transmite a sensação de desenrolar-se em tempo real.

Como começou o processo de escrita deste filme, construído a partir de feridas tão íntimas e de uma realidade tão difícil de encarar?
Arnaud Dufeys: A Charlotte e eu já estávamos a escrever e a desenvolver uma primeira longa-metragem juntos, sobre outro tema, que partia do facto de a Charlotte ser enfermeira num Centro de Saúde Sexual, que é também especializado no acompanhamento de vítimas de violência sexual. .
Enquanto escrevíamos esse filme, conversávamos muito sobre outras questões, nomeadamente sobre a justiça em casos de agressões sexuais, porque é algo que surge frequentemente no trabalho dela e porque estávamos em contacto com associações de vítimas, através das quais recebíamos muitos testemunhos semelhantes.
Documentámo-nos bastante sobre o assunto, junto de associações, vendo muitos filmes e encontrando-nos com pessoas ligadas ao sistema judicial — juízes, advogados, etc.
Como o primeiro filme estava a demorar mais tempo a financiar-se e a desenvolver-se, este, sendo uma produção de baixo orçamento, avançou muito mais depressa em termos de financiamento e concretização.
Esta história nasceu de uma experiência específica ou resulta da acumulação de vários testemunhos e situações reais?
Charlotte Devillers: Esta história é muito próxima da minha própria história, mas também de situações que encontro todos os dias no meu trabalho.Todos os dias há uma ou duas revelações.
Como o Arnaud disse, foi através dos encontros com vítimas, juízes e outros profissionais que percebemos que estas histórias acabavam por ser sempre muito semelhantes.
Por isso construímos uma narrativa que reunisse elementos de todas elas.
Mesmo agora, depois de terminado, recebemos muitas mensagens de mães protetoras a agradecer-nos por representarmos as dificuldades da justiça a partir do momento em que se decide falar. É algo tão comum, tão disseminado.
Porque era importante transformar “acreditamos em ti” não apenas no título, mas numa declaração central do filme?
Charlotte Devillers: Para nós, é também uma forma de homenagear as vítimas e dizer-lhes: “Acreditamos em si.” Mas acreditamos que “acreditar” tem de ser um verbo de ação.Depois de dizer “acreditamos em si”, é preciso fazer alguma coisa.
A questão do filme é precisamente essa: como podemos ouvir e proteger a palavra das crianças?
Percebemos que, para proteger adequadamente as crianças, era necessário primeiro proteger as mães, para que elas próprias possam proteger os filhos.

Como trabalharam a estética e a encenação de um filme passado praticamente num único espaço? Era uma decisão tomada desde o início?
Arnaud Dufeys: Sim. Desde o início sabíamos que queríamos fazer um filme num espaço fechado, baseado numa audiência em tempo real, acompanhada do princípio ao fim.
Na verdade, trata-se mais de uma entrevista judicial do que de um julgamento. É uma audiência preliminar com a juíza. Interessava-nos esse momento porque é aí que as personagens estão fisicamente próximas, num espaço muito pequeno, sob enorme tensão e confronto direto.
E era precisamente esse momento que surgia repetidamente nos testemunhos que recolhíamos.
Também queríamos fazer um filme sobre uma mulher que, através dessa audiência, recupera progressivamente a sua própria história e o seu lugar enquanto mãe.
Como a nossa empatia estava sempre centrada na personagem de Alice, era evidente que haveria muitos planos de escuta. Muitos planos sobre alguém que, antes de poder falar, tem primeiro de ouvir todos os outros.Para nós, isso permitia acumular tensão e criar uma espécie de libertação quando a sua voz finalmente emerge e ocupa espaço durante um longo período.
Havia também uma questão sensorial. Falamos do corpo, da agressão ao corpo, da forma como ela sente fisicamente a presença do ex-companheiro. Queríamos estar muito próximos dela para transmitir essa sensação.
Mas ele também passa grande parte do tempo à espera para falar.
Arnaud Dufeys: Claro. Mas, por exemplo, em filmes como o Jusqu’à la garde (Custódia Partilhada), a tensão constrói-se através de vários espaços e movimentos. Nós optámos por um único espaço.
Também havia condicionantes de produção. Sabíamos desde o início que seria um filme com poucos meios. Tínhamos de encontrar uma forma simples de colocar a palavra no centro do filme. Filmámos em apenas treze dias. Foi muito rápido.
Toda a preparação aconteceu previamente no local para podermos estudar todos os ângulos possíveis. Além disso, houve três dias filmados com três câmaras em simultâneo para cobrir os cinquenta e cinco minutos da audiência.
Essa rapidez acabou por trazer algo muito importante: uma sensação de urgência. A urgência do tema, a urgência de estar o mais próximo possível da realidade.
As limitações eram evidentes, mas acabaram por se tornar criativas.
Partimos das restrições para encontrar ideias de encenação. Preferíamos fazer um filme assim, com poucos recursos, do que simplesmente sofrer com a falta de dinheiro.
Como foi o trabalho com Myriem Akheddiou? O argumento parece muito preciso, mas ao mesmo tempo há uma enorme intensidade emocional.
Charlotte Devillers: Pensámos nela desde muito cedo para o papel de Alice. Ela aprendeu o texto ao detalhe.
Tivemos muitas conversas para lhe transmitir sensações muito concretas sobre aquilo que estas mães vivem. Depois ela fez a sua própria síntese.
Tem as suas ferramentas, a sua forma de trabalhar, e nós estávamos completamente confortáveis com isso desde o início.Teve tempo para compreender profundamente a experiência destas mulheres.
A certa altura trabalhámos muito a ideia da sensação física e foi ela própria que trouxe a imagem de uma loba, muito corporal, muito animal. Aceitámos imediatamente. Uma loba protetora dos filhos.
Havia indicações muito concretas ligadas a essa dimensão animal nas cenas antes e depois da audiência. Já durante a audiência, o texto era absolutamente fixo, palavra por palavra.
E isso entrava em confronto com o facto de os advogados serem advogados verdadeiros. Eles prepararam a audiência como preparariam uma audiência real e improvisavam. Criou-se uma espécie de choque entre duas formas diferentes de representação.
Penso que a Myriem, tal como o Laurent e a Nathalie, podia ser surpreendida pelas intervenções dos advogados. E os advogados, por sua vez, eram surpreendidos pela intensidade dos atores.

Os advogados reais foram escolhidos através de um casting?
Arnaud Dufeys: Sim. E ficaram imediatamente muito entusiasmados com a proposta.
São pessoas já muito envolvidas em questões de violência sexual contra mulheres, crianças e também homens. Recebemos muitas candidaturas e isso surpreendeu-nos.
Percebemos rapidamente que existem algumas semelhanças entre a profissão de advogado e a de ator. Ambas implicam representação. Falar em público. Ser observado.
Isso ajudou bastante.
Têm um outro projeto em marcha, chamado Plaisir. Do que trata?
Charlotte Devillers: Passa-se num Centro de Saúde Sexual e está ligado ao meu trabalho enquanto enfermeira.
Conta a história de uma mulher confrontada com a realidade da sexualidade contemporânea através dos encontros que tem diariamente com os seus pacientes.
O filme aborda também a questão do HIV.
São temas particularmente duros. Sente que é precisamente aí, nesses lugares de desconforto, que o seu cinema quer estar?
Charlotte Devillers: Sim. Acho que as questões sociais são importantes e devem ser tratadas pelo cinema. Interessa-me perceber o mundo contemporâneo. O que está a acontecer hoje? Como observamos o mundo?
Enquanto realizadores, também temos a responsabilidade de testemunhar o nosso tempo.
E o mundo atual é complexo. Muito complexo.
É fácil encontrar financiamento para filmes que abordam temas tão incómodos?
Arnaud Dufeys: Não. O que constatamos é que existe cada vez mais pressão para financiar filmes que possam atrair o maior número possível de espectadores. Mesmo no cinema de autor. Mesmo quando falamos de financiamento público.
O consenso tornou-se um fator importante. Quando todos acreditam que um filme pode funcionar, é mais fácil financiá-lo.
No caso de On vous croit, isso funcionou porque a escrita corresponde muito fielmente ao filme que acabou por existir. Era difícil contestar aquilo que queríamos dizer. As pessoas que o liam tendiam a concordar connosco.
Mas com o Plaisir é diferente.
Falar frontalmente sobre sexualidade, infeções sexualmente transmissíveis ou HIV através da perspetiva de uma mulher de quarenta anos continua a provocar reações muito divididas. Há quem adore o projeto. Há quem o rejeite.
E esses são sempre os filmes mais difíceis de financiar.
Acredita que fazer cinema é, inevitavelmente, um ato político?
Charlotte Devillers: O cinema é político.
E o vosso cinema continuará a ser social e político?
Arnaud Dufeys: Espero que sim. Mas também temos abordagens diferentes.
Este foi um filme feito em conjunto. Eu adoro o processo de fabrico dos filmes, a encenação.Tenho projetos com a Charlotte, mas também projetos meus. E não quero fazer apenas cinema social ou político.
Haverá sempre uma consciência social e política nos meus filmes, mas também estou a escrever um thriller. Interesso-me por várias formas de cinema.
Um thriller como o Jusqu’à la garde, que nos entrega um tema social numa forma de suspense?
Arnaud Dufeys: Sim, exatamente. Tentámos trazer um pouco dessa tensão para On vous croit.






