Daniel Vidal Toche e a bestialidade do capitalismo em “La anatomía de los caballos”

(Fotos: Divulgação)

Colonialismo e neocolonialismo chocam com a violência do embate de um meteorito em “La anatomía de los caballos” (The Anatomy of the Horses), longa-metragem estreia de Daniel Vidal Toche, cineasta peruano com base em Madrid que, através de dois tempos, o século XVIII e a atualidade, fala dos mecanismos de opressão e exploração no seu Peru natal, país que define como envolvido num ciclo ininterrupto de corrupção.

As coisas no Peru estão cada vez mais complexas. Já nem é uma questão de falar de esquerda ou direita política, mas sim de uma máfia que se meteu na pele de toda uma estrutura”, disse Daniel ao C7nema em Karlovy Vary, onde o seu filme concorre na secção Próxima. “Passei muito tempo na região em que filmei, Puno (ou Punu em Quechua), e passa-se algo de muito importante lá no nosso contexto político. Tivemos uma ditadura durante muitos anos do Alberto Fujimori (1938-2024), que gerou metástases a partir do cancro da fundação deste país. Puno tem sido a região travão para os partidários de Fujimori não regressarem ao poder. É uma região que sabe bem onde não ir, num país que selvaticamente se alinha com as linhas capitalistas, brutalmente segregadoras e desperançosas para qualquer ideia de país. Se existe um lugar onde se pode pensar ainda numa possibilidade de país é na região onde fiz este filme”.

La anatomía de los caballos

Em “La anatomía de los caballos”, o espectador é confrontado inicialmente com o revolucionário do século XVIII, Ángel Pumacahua, que, derrotado em batalha, foge para a sua aldeia. Com um meteorito no horizonte, percebemos que o revolucionário está agora nos Andes peruanos do século XXI, assistindo à luta do seu povo contra a exploração mineira que os atormenta e cuja poluição destrói plantações e faz nascer animais com as mais diversas mutações. O desaparecimento de uma jovem ativista é outro dos motores desta película, que o cineasta afirma só ter sido possível executar com a colaboração de dois amigos, Juan Quispe e Edith Ramos, com um “coração político” muito similar ao de Daniel: “Tinha de introduzir a personagem dos políticos corruptos, enfiados nos tentáculos de um capitalismo que tem a particularidade de negar todas as alternativas a si. Estes políticos são uns inúteis, incapazes de qualquer ação política como aquelas que as povoações camponesas praticam. O pensamento político nestas comunidades é enorme, ativo e comunitário, ao contrário de uma elite da capital que diz que lhes falta educação. Tudo isto serviu de argamassa, tal como a língua quéchua, para imaginar este filme (…) que apela a certos elementos mitológicos que encontrei e pude trabalhar com os atores. Quis desterrar os elementos católicos da espiritualidade do filme. Tentamos ritualizar elementos que foram suprimidos ao longo dos tempos. Sob muitas igrejas católicas estão Huacas, templos incas. Creio que temos de refundar o nosso passado. O grande problema é a bestialidade do capitalismo em certos lugares próximos da mineração. E todos sabemos que a mineração contaminou os rios. E com isso, quem está no leito desses rios tem problemas com a agricultura e a pastorícia. E quem protesta contra as minas tem de ter cuidado. Estamos a falar de gente com fortunas de muitos milhões e fortes ligações ao poder. O que fazer? Denunciar esta gente? Não funciona! Temos de problematizar a questão para que a discussão seja possível. Tem de haver uma possibilidade de ir contra estas estruturas”.

Já a preparar um novo projeto que define como mais abstrato “sobre o que torna algo nosso“, ou seja, vai lidar com a propriedade privada, Daniel acredita que o cinema “tem de ser político“, mas não crê que tão cedo poderá filmar no Peru, devido às leis ligadas ao cinema que a direita peruana aprovou.

La anatomía de los caballos

E quando questionado sobre as grandes dificuldades que encontrou para executar este “La anatomía de los caballos”, o cineasta falou-nos em inúmeros desafios físicos, mas principalmente éticos: “Estou genuinamente preocupado com as pessoas que vão ver o filme e que não vão precisar de legendas [as que falam quéchua]. E quero saber o que pensam pela desconfiança inicial quando chegou até eles um branco a querer fazer um filme sobre eles. Uma desconfiança que é perfeitamente normal. Quero saber o que pensam do meu entendimento, de como li o espírito revolucionário que foi permanecendo naquele local, que também é meu, pois a região faz parte do meu país. Quero saber se realmente podemos nos conciliar como país. (…) Podem acontecer duas interpretações complexas sobre o meu trabalho. Quando nos aproximamos das coisas com um olhar etnográfico, que não me interessa, podem facilmente categorizar o meu filme como um aproveitamento da questão, além de me acusarem de paternalismo. Estes são dois lugares onde podemos cair facilmente. Quando filmas em quéchua, tens automaticamente a certeza que o teu filme vai entrar em certos circuitos de festivais. Eu posso cair nessa rede, daí ter levantado em mim diversas questões éticas. Além disso, ao me apropriar de um espaço que não é meu para filmar, quiçá não estou também a fazer uma espécie de colonialismo. Essa foi uma das grandes minhas lutas”.

O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

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