Como filmar a ansiedade? Philippe Falardeau mostra-o em “Lovely Day”

(Fotos: Divulgação)

Vinte e cinco anos depois de conquistar no Festival Internacional de Cinema de Toronto o prémio de Melhor Primeira Obra Canadiana, com The Left-Hand Side of the Fridge (La Moitié gauche du frigo), Philippe Falardeau regressou ao certame com Lovely Day (Mille secrets, mille dangers).

Baseado no livro autoficcional de Alain Farah, que explora o seu sofrimento com ansiedade crónica, o filme parte do dia do seu casamento em Montreal para contar a história da sua vida, a difícil relação com os pais e a sua própria fragilidade emocional. Entre memórias de infância, adolescência, insónias e dependências, o canadiano de origem libanesa Alain tenta sobreviver a “mais um dia” na sua vida, mas o casamento desperta nele toda uma viagem ao passado e à sua condição.

Philippe Falardeau

Em conversa com o C7nema após a estreia do filme, o realizador – famoso por filmes como Monsieur Lazhar (2011), The Good Lie (2014) e My Salinger Year (2020) – fala da receção calorosa em Toronto de Lovely Day, dos desafios de transformar um livro de 500 páginas em cinema e da forma como quis filmar a ansiedade. E confidenciou-nos também como este projeto o obrigou a revisitar os lugares sombrios da sua própria juventude.

O filme teve a sua primeira exibição em Toronto. Como foi essa estreia e como sentiu a reação do público a ele?

Quando terminamos um filme, já o vimos umas 80 vezes e começamos a odiá-lo. Mas uma exibição com o público é diferente — redescobrimos a obra. O público de Toronto sempre foi muito bom comigo: riram bastante e foi ótimo estar na presença do elenco e da equipa e rever o filme através dos olhos de uma audiência.

Já faz 25 anos que lançou The Left-Hand Side of the Fridge (La Moitié gauche du frigo, 2000). Ao longo da sua carreira, como foi escolhendo os filmes que realizou?

Tentei fazer uma lista de filmes que gostaria de realizar, mas nunca volto a essa lista. É sempre uma lista que fica ali, mas nunca resulta. Termino um filme, olho para a lista e digo: “não quero fazer isto, isto é impossível”. Acabo por esquecer a lista e começo a ler livros, até que de repente algo me atinge de surpresa. Comparo sempre encontrar o tema do próximo filme a encontrar a namorada ou a esposa: se procuramos, não encontramos. Se deixamos de procurar, de repente acontece.

E como surgiu a adaptação do livro de Alain Farah?

Quando li o livro, uma autoficção, reconheci-me naquele nível de ansiedade retratado com muito humor. O Alain tinha essa capacidade de se rir de si próprio, o que tornava tudo digerível, porque de outra forma teria sido demasiado sombrio. Eu próprio sofri bastante de ansiedade crónica nos meus 20 anos — não é a ansiedade de ter um trabalho para entregar e estar atrasado, mas algo mais profundo, que vem de outro lugar. Relacionei-me com isso no livro. Como havia humor, pensei: “acho que consigo fazer isto”. Depois começou o processo: adaptar 500 páginas a um filme — complicado, mas divertido. Demorou dois anos e meio, em colaboração com o próprio autor.

E qual foi a principal dificuldade em adaptar o livro?

O problema é que cada leitor cria o seu próprio “filme” na cabeça. Visualizamos coisas — é assim que lemos. Não fica abstrato. E, como realizador, competes com a visão de cada leitor. Numa estreia numa pequena cidade do Québec, uma espectadora perguntou-me porque tinha retirado a parte sobre uma personagem — que para ela era essencial. Essa é a dificuldade. Acho que quanto mais nos afastamos do livro, mantendo a essência e o espírito, melhor.

Quando fui falar com Alain e o editor dele, disse: “isto pode soar irónico porque é autoficção, baseada na tua vida, mas quero fazer algo muito pessoal”. Ele respondeu com enorme generosidade: “é a única forma de o fazer, porque não quero que ponhas simplesmente as minhas páginas no ecrã. Eu dou-te o meu trabalho, tu dás-me outro. É uma obra de arte por outra obra de arte”. No fim, temos duas coisas diferentes. Eu diria que tudo o que surgiu e que não está no livro é uma extensão do que o livro dizia. O Alain sonhava fazer cinema desde criança. (…) E para ele, escrever o livro foi uma forma de se rir de si próprio, de lidar com a ansiedade com humor, de maneira terapêutica. Tornou-se digerível, porque de outra forma teria sido demasiado sombrio.

Chegou a considerar fazer uma série?

Sim, após alguns meses de reflexão, disse ao Alain: “acho que devíamos fazer uma série, porque há tantas personagens, e agora as séries estão tão populares”. Ele respondeu: “só por cima do meu cadáver. Sonhei fazer cinema toda a vida”. Ele ama o filme, defende-o e trabalhou comigo no guião, algo essencial porque ele é da comunidade libanesa e eu não. Queria ter alguém a quem recorrer para garantir autenticidade.

Lovely Day

Foi difícil encontrar financiamento para este filme?

Hoje em dia, cada filme é um milagre, sobretudo se não for um filme de super-heróis. O maior desafio foi: como filmar a ansiedade? Claro, podemos filmar um ator ansioso, ou alguém em frente ao espelho a tomar comprimidos, mas isso esgota-se. Queria ir mais longe.

Por isso, a estrutura do filme faz o espectador reviver o mesmo dia duas vezes, tal como o Alain, que é ansioso e não entende porquê. O público também não sabe porque ele age daquela forma — ele parece desagradável, difícil de aturar. Mas na segunda parte do filme começamos a compreender, a montar o puzzle. Assim, a estrutura transmite a sensação de ansiedade.

Formalmente, usámos o formato 4:3 no presente, para criar claustrofobia. O público não pensa nisso intelectualmente, mas sente-o.

E houve outros desafios?

Outra dificuldade foi quando estourou a guerra no Médio Oriente durante a rodagem. Estávamos reunidos com 50 pessoas e atores libaneses, e de repente ninguém dormia. Senti que devia era estar a fazer um filme político, mas não era esse o projeto. Senti-me desorientado, um idiota. Mas os libaneses disseram-me: “Philip, percebemos o que sentes, mas a melhor coisa que nos pode acontecer é fazer um filme sobre casamento, sobre vida, mostrar os libaneses de outras formas”. Ter muçulmanos e cristãos juntos todos os dias no plateau deu-me um grande alento.

Como encontra o tom certo entre drama e humor?

Depende do tom do filme. No nosso caso, teria sido um erro fazer algo demasiado sombrio. Cheguei a considerar terminar com a amizade entre Alain e o primo, mas percebi que não era o filme certo. O tom era mais leve, com humor.

Mas não é uma comédia tradicional: não há piadas, mas sim momentos burlescos, como quando perdem o anel no casamento. Era importante que o humor acontecesse lado a lado com o drama, como na vida. À distância, até momentos dolorosos podem tornar-se engraçados.

Voltando à questão da ansiedade que queria mostrar em cena. Como foi o seu diálogo com o Neil Elias Abdelwahab, o ator protagonista?

Depois de o escolher, trabalhei com ele o equilíbrio entre a dureza e a vulnerabilidade. Curiosamente, ele imitava-me sem eu pedir — quando agarrava o estômago, fazia-o como eu, que sofro disso.

Não gosto de ser um ditador, nem com os atores nem com o montador. Na montagem, deixo-o trabalhar sozinho no início, para me surpreender. Peço-lhe que escolha o que acha interessante e coloque onde achar melhor. Se quiser voltar à estrutura original, posso fazê-lo depois. Mas é aí que surgem poesia e ritmo, como quando usámos olhares para a câmara como se fossem pontuação poética.

Lovely Day

E a ansiedade que sofreu na juventude melhorou com a idade?

Não, mas diria que com a idade vem a experiência, como em tudo. E passas a saber que não vais morrer disso, o que já é muito. Mas não se torna mais fácil viver com isso.

Isto vem de um lugar que tens de alimentar, que não está necessariamente no teu ambiente imediato, mas mais fundo. Saber isso não torna tudo mais fácil, mas aprendes a viver com isso, como qualquer pessoa.

Mas estou muito melhor a lidar com pressão agora, com muitos técnicos no plateau e menos dias de rodagem. Sou melhor do que há 25 anos. Mas isso não torna o filme mais fácil.

O livro funcionou como terapia para o Alain. Terá o filme sido terapêutico para si?

Tenho de ter cuidado com o que digo. Acho que não tive escolha, mas levou-me a lugares escuros, porque, mesmo sendo uma comédia, a ansiedade profunda e de onde vem na juventude não é uma coisa bonita. Foi difícil.

Se tivesse escolha, faria este filme outra vez? Bem, como disse no início da entrevista, acho que o tema escolhe-me, não o contrário. Por isso, nesse sentido, não temos escolha. Mas podemos aprender, ter algum controlo sobre isso.

Gostava que tivesse sido catártico. Gostava de dizer: “estou curado”. Mas não funciona assim.

E o que se segue?

Tenho um projeto que vamos tentar financiar no próximo mês, mas não foi escrito por mim. Chama-se Happiness e conta a história de uma mãe que faz uma viagem forçada de carro com as três filhas, fugindo de um marido violento. São quatro mulheres no carro, família, mas com tensões internas. É um filme mais político, socialmente engajado e provavelmente mais sombrio. Será filmado no Canadá.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/g2u1

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