Apesar de um papel de embrulho com as cores da boa intenção e de um laço melodramático de nó mal dado, “My Salinger Year” é um presente para cinéfilos afoitos pela leveza na medida certa, num timbre de “sessão da tarde” capaz de aliviar, e bem, o tom aguerridamente político da maratona germânica.
Premiado pelo mundo com “Monsieur Lazhar” (2011), o cineasta canadiano Philippe Falardeau assina aqui uma carta de amor à literatura, que escreveu e realizou baseado nas memórias da escritora Joanna Smith Rakoff. E apoiado no carisma singular de Sigourney Weaver, ele atinge uma fervura que não queima a boca, mas que não arrefece rapidamente.
Nos últimos três anos, os filmes inaugurais do Festival de Berlim apostaram em sentimentos caridosos, como se viu em “Django“ (2017), do francês Etienne Comar; em “A Ilha dos Cães” do americano Wes Anderson; e em “The Kindness of Strangers”, da dinamarquesa Lone Scherfig. Cada um tem o seu valor, sendo a longa-metragem de Lone o mais desmedido na distribuição da sacarose. Nesse ponto, Falardeau representa um maduro investimento na sobriedade, estabelecendo um diálogo recto com a força analgésica da palavra literária.
Joanna teve, na sua história pessoal, uma experiência numa agência de autores famosos, na qual estabeleceu um corpo a corpo com uma lenda: J. D. Salinger (1919-2010), autor do celebre “The Catcher in the Rye” (Uma agulha no palheiropt/O Apanhador no Campo de Centeiobr,1951). A sua fama foi potencializada pelo seu comportamento recluso, avesso a entrevistas e contatos com leitores. É papel da personagem de Joanna (vivida por Margaret Qualley com uma retidão invejável) protege-lo das suas fascinações literárias, a mando da sua temida chefe. A jovem trabalha sobre os auspícios da agente Margaret, que Sigourney constrói sem resvalar na caricatura. Não se trata de O Diabo veste Prada em versão reloaded. Tampouco estamos diante de uma releitura daquilo que Sigourney fez em “Uma Mulher de Sucesso”, entre Melanie Griffith e Harrison Ford. A sua Margareth é uma executiva dura, ressecada pelas exigências do negócio, mas aberta a tragédias.
Como o enredo se ambienta nos anos ’90, Salinger ainda está vivo e conversa com Joanna através de ligações telefónicas repletas de conselhos sobre a arte da escrita, coisa que ele só fazia com eleitos. Nesse ponto, temos uma dimensão de aprendizagem que areja a narrativa. O maior arejamento, contudo, vem da aversão quase patológica de Margaret por computadores, sendo fiel à datilografia em máquinas de escrever. Mas esses pontos são apenas perfumes num corpo de pernas sólidas cuja andança é guiada por uma relação de convivência. O eixo do filme está no jogo de armar que se estabelece entre duas mulheres, de gerações distintas, unidas pelo amor à literatura.
Apesar da reverência ao verbo, My Salinger Year não é palavroso. A fotografia de Sara Mishara, atenta sobretudo às cores quentes, garante à obra requinte plástico na sua observação pelo mundo que nasce envolto de Joanna. Um mundo vivo, onde o risco é rabisco num papel em branco. Ou num ecrã…

