Biarritz festeja a latinidade das Américas

(Fotos: Divulgação)

Se você é do tipo sem sentido de direção que chora quando se perde, anota aí a dica do santo Google Maps: existem 49,8 km de distância entre San Sebastián – que encerrou a sua competição no sábado, com a vitória de “Beginning”, da Geórgia – e Biarritz, na França, onde começa esta segunda-feira uma nova maratona audiovisual.

É cerca de uma hora de autocarro entre a capital espanhola dos pintxos e da Concha de Ouro e a região francesa que, desde 1991, abriga o mais emblemático festival de cinema latino-americano da Europa. Este ano, a seleção, para seguir até 4 de outubro, vai explorar maioritariamente os problemas decorrentes de imigração, exílio e desenraizamento. Há, entre os concorrentes, uma das longas-metragens de ficção de língua portuguesa de maior badalação internacional de janeiro até agora: “Um Animal Amarelo”, de Felipe Bragança. Os seus adversários na caça a prémios são: “Chico Ventana también quisiera tener un submarino”, de Alex Piperno (Uruguai / Argentina / Brasil / Holanda / Filipinas); “La Fortaleza”, de Jorge Thielen Armand (Venezuela /Colômbia / França / Holanda); “La Verónica”, de Leonardo Medel (Chile); “Lina de Lima”, de María Paz González (Chile / Peru/ Argentina); “Los Fantasmas”, de Sebastián Lojo (Guatemala / Argentina); “Ofrenda”, de Juan Monaco Cagni (Argentina); “Selva trágica”, de Yulene Olaizola (México / França / Colômbia); e “Se escuchan aullidos”, de Julio Hernández Cordón (México).

A lista dos trabalhos documentais latinos em concurso em Biarritz é: • “A media voz”, de Heidi Hassan, Patricia Pérez Fernández (78′) Cuba / Espanha / França / Suíça •”Cosas que no hacemos”, de Bruno Santamaría (71’) México •”El Campeón del mundo”, de Federico Borgia, Guillermo Madeiro (79’) Uruguai •”El Outro”, de Francisco Bermejo (75’) Chile •“La Niebla de la paz”, de Joel Stängle (85’) Colômbia •”Las Razones del lobo”, de Marta Hincapié Uribe (70’) Colômbia •“Mirador”, de Antón Terni (70’) Uruguai •“O Indio cor de rosa contra a fera invisível: a peleja de Noel Nutels”, de Tiago Carvalho (71’) Brasil •”Responsabilidad empresarial”, de Jonathan Perel (67’) Argentina •“Suspensión”, de Simón Uribe (72’) Colômbia.  

Em entrevista ao C7nema, Antoine Sebire, o diretor do certame em Biarritz fala das tendências da sua maratona

O que hoje existe de fascinante no cinema latino-americano, mesmo nestes tempos de incerteza para o continente? De que forma as novas narrativas geradas pelo boom do streaming afetam a produção cinematográfica?

Os cinemas da América Latina estão constantemente a se reinventar. Há sempre algo novo a acontecer algures: alguns países a desenvolver a sua produção, novos movimentos nas nações com cinematografias estabelecidas, muitos filmes de estreantes, assinados por cineastas e produtores emergentes. Estes cineastas não parecem estar limitados pelo peso de uma tradição, como pode ser o caso dos cineastas europeus, por exemplo. As suas inspirações vêm dos próprios cinemas latino-americanos, mas também da Ásia ou da Europa. De certa forma, os cinemas da América Latina têm sido o lugar, ou um dos lugares, da modernidade no panorama do cinema internacional de hoje. A partir da influência do boom do streaming, talvez seja demasiado cedo para emitir declarações – a maioria dos filmes que recebemos este ano tinham sido produzidos antes da crise do coronavírus – mas confiamos na resiliência dos cinemas latino-americanos. A incrível criatividade do cinema brasileiro neste momento, sob os brutais ataques de Bolsonaro, é prova disso.

Quais são os objetivos estéticos e políticos de um festival europeu que se tem dedicado a trazer o melhor da América Latina para outros lados do Atlântico?

Penso que, como um festival de cinema especializado no cinema latino-americano há quase 30 anos, a nossa responsabilidade é mostrar o que realmente está a acontecer agora, o que há de novo. Não é para mostrar o que um público europeu esperaria, ou está habituado a ver, da América Latina: filmes naturalistas, políticos e sociais. Eles fazem parte da produção, mas são apenas uma parte dela. Estamos a tentar aproximar a América Latina da Europa, para mostrar que o audiovisual daquele continente está muito mais perto de nós do que alguém possa pensar. O exotismo é nosso inimigo.

Que temas se destacam na seleção deste ano e como é que essas questões sofrem o impacto das recentes crises económicas e políticas no continente latino?

Não é fácil reduzir uma seleção a alguns temas, mas, quando olhamos para os filmes que escolhemos, muitos deles se destacam por uma abordagem lúdica, por uma pesquisa estética. E muitos deles foram feitos em esquemas de produção muito independentes, o que é, talvez, uma das razões pelas quais foram mais resistentes à crise do que os filmes que se encontram num modelo de produção clássico.

O que exigiu a covid-19 das mudanças do festival? Que protocolos irão seguir e como irão mudar a rotina do festival?

Mudou profundamente toda a nossa organização, desde o início: recebemos menos filmes do que num ano “normal” e alguns dos filmes que recebemos não puderam finalmente estar prontos a tempo. Além disso, tivemos de renunciar a uma retrospectiva que tínhamos planeado durante um mês por não termos a certeza de que o cineasta poderia estar presente no festival. E, no geral, mudou toda a organização do festival: menos cineastas presentes, capacidades reduzidas nos nossos cinemas, um fórum híbrido de coprodução, muitos protocolos de segurança…

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