“A maior vitória é fazer um festival que junta as pessoas”: arranca hoje (25/08) o IndieLisboa

(Fotos: Divulgação)

O IndieLisboa é um dos primeiros festivais a retornar depois das restrições da pandemia. Normalmente a realizar-se entre abril e maio, mas este ano o certame decorre entre 25/08 e 05/09 – tendo como espaços principais o cinema São Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o cinema Ideal e o Capitólio – este último reforçando o intento de oferecer mais sessões ao ar livre.

Conforme observa a coprodutora e coprogramadora Mafalda Melo ao C7nema, certamente este não é um ano para grandes expetativas e o importante é manter a agilidade e a capacidade de adaptação. “Mas quanto a isso todos os artistas e coletivos culturais, votados ao abandono por um governo que não considera o acesso à cultura um bem essencial, já estão mais ou menos habituados. Desde já a maior vitória foi ter conseguido levar um cabo um festival físico e não digital, que junta as pessoas e não as afasta das salas de cinema”. Neste sentido, como “o festival se realiza pela primeira vez em agosto e ainda sob enormes restrições, achamos interessante ter também uma oferta diária ao ar livre”.

Depois de “Love & Friendship”, de Whit Stillman, em 2016, o IndieLisboa volta a abrir com uma comédia – desta feita “La Femme de Mon Frère”, obra de estreia na realização de Monia Chokri, atriz conhecida de filmes de Xavier Dolan.

Já ao brasileiro Felipe Bragança, que esteve no ano passado na Competição Nacional com um filme corealizado com Catarina Wallenstein, cabe as honras de encerramento com “O Animal Amarelo”. Coproduzido pela portuguesa Som e Fúria, promete o estilo alegórico de Bragança, que narra as desventuras de um cineasta brasileiro falido por Moçambique.

PORTUGUESES

Para efeitos de seções competitivas e mostras paralelas o cinema português chega incólume aos efeitos da pandemia. A Competição Nacional exibe uma variedade de temas e paisagens: das memórias documentais de “Ana e Maurízio” (Catarina Mourão) e “A Metamorfose dos Pássaros” (Catarina Vasconcelos”), paisagens rurais (“Entre Leiras”, de Cláudia Ribeiro), ficções urbanas (Basil da Cunha, que retorna com “O Fim do Mundo” depois de “Até Ver a Luz”) e dilemas românticos inspirados no escritor Mário de Carvalho em “A Arte de Morrer Longe” (Júlio Alves).

Para Mafalda Melo, a Competição deixa perceber duas marcas fundamentais do cinema português – as de que “que os cineastas portugueses não têm medo da experimentação nem conhecem limites à mesma e que são capazes de produzir obras magníficas ainda que isso não seja refletido nos orçamentos dos seus filmes, tantas vezes sub-financiados”.

AS VOZES DOS MORTOS

Uma das buscas da arte contemporânea é dar voz àqueles que foram esquecidos pela História. No IndieLisboa, a história dos povos negros vem das mais diversas proveniências e lhes é assegurada a maior presença de sempre. Emblemático destas intenções talvez seja “Todos os Mortos”, obra assinada em conjunta pelos brasileiros Marco Dutra (de “As Boas Maneiras”) e Caetano Gotardo (que esteve no ano passado no Indie com “Seus Ossos e seus Olhos”).

Com um enredo passado nos anos que se seguem ao fim da escravatura no Brasil, no final do século XIX – o filme traz uma temática que de alguma forma resume alguns dos pretensões do festival. Conforme a codiretora do IndieLisboa, “os mortos que o título evoca regressam na sua busca por reparação e o filme mostra uma de muitas formas de olhar o passado, neste caso sobre a ‘branquitude’ do país nesta altura – com uma óbvia relação com Portugal. São as vozes desses mortos que ouvimos em 2020”.

No mesmo sentido, o continente africano marca presença em diversos filmes e seções, com destaque para as retrospetivas dedicadas a Ousmane Sembéne e Mati Diop, que deu nas vistas no ano passado com a estreia no Festival de Cannes de “Atlantique”. Ambos beneficiarão de respetivas integrais. Ousmane Sembéne é considerado o pai do cinema africano e suas obras mostram um cinema fortemente político, onde se anteviam já muitas das agendas que têm pautado as reividincações contemporâneas.

Essa evocação completa-se ainda com a retrospetiva da Forum Berlinale.

A vasta programação do festival inclui ainda seções como a Boca do Inferno (com destaque para o clássico de terror checo “The Cremator”, exibido em versão restaurada, e “Vivarium”, antestreia nacional de uma obra com Imogen Poots e Jesse Eisenberg), IndieMusic (entre os quais os 50 anos de “Gimme Shelter”, que acompanha os Rolling Stones até o trágico episódio de Altamont) e Cinema e Literatura, que exibe, entre outros, “Les Enfant Sauvage”, obra de François Truffaut de 1970.

A programação completa do festival pode ser encontrada em  www.indielisboa.com

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