Terroristas, “pervertidos”, incómodos: 50 anos de Forum Berlinale

Os 50 anos de Forum Berlinale serão celebrados no IndieLisboa numa retrospetiva

(Fotos: Divulgação)

A mais experimental das quatro principais seções que compõem o Festival de Berlim (que incluem Competição, Panorama e Generations), a Forum completa 50 anos de existência. Desenvolvida por uma instituição à parte, a Arsenal, a seção começou com uma programação que ainda hoje surpreende pelas imensas ousadias que trazia para a época – incluindo obras que apoiavam “terroristas” (como o FBI considerava membros dos Panteras Negras) ou que marcavam os primórdios do cinema “queer“. Para homenagear este cinquentenário a Berlinale deste ano resolveu exibir os filmes selecionadas para a sua primeira edição e o IndieLisboa, por seu lado, escolheu algumas destas obras para a sua própria programação.

Dos projetos que chegam a Portugal, uma parte deles corresponde a agendas contemporâneas ainda muito vincadas, como questões de género (“A Bonus for Irene”, “The Woman’s Film”, “WR – Os Mistérios  do Organismo”), de raça (“Eldrige Cleaver, Black Panther”, “End of Dialogue”, “Angela – Portrait of a Revolutionary”), de imigração e/ou descolonização (“Monangambee”, “Mes Voisins”, “Soleil O”) e LGBT (“It’s Not the Homosexual Who Is Perverse, but the Society in Which He Lives”)…

Conforme explica a coprogramadora e codiretora do IndieLisboa, Mafalda Melo, ao C7nema, “à medida que a programação do festival ia se desenhando percebemos que seria importante colocar esses trabalhos em diálogo com o restante dos filmes selecionados. Eles têm uma pertinência ainda maior nos dias de hoje e esperamos que possam ajudar à uma reflexão urgente sobre as desigualdades sociais, os sistemas opressivos e sobre a necessidade de descolonizar o pensamento”.

Para Mafalda Melo, não é relevante que essas agendas, revolucionárias na altura, tenham hoje sido assumidas pelo “marketing” de grandes empresas e pelos veículos de comunicação pertencentes ao Grande Capital. “Todos esses problemas tratados nos filmes aqui apresentados persistem e estão hoje agravados perante uma cada vez mais opressiva lógica capitalista de exploração de determinadas faixas da população. Muito embora nestes 50 anos tenham sido conquistados direitos fundamentais para algumas comunidades – pelo menos em alguns países – chegamos a 2020 com um enorme caminho por fazer”, acredita.

Existiria uma contradição inerente a esse processo? “Não será tanto uma contradição, pois vem de uma lógica de apropriação que é absolutamente consequente com a estratégia capitalista. As imagens são por isso importantíssimas – estes filmes de todo o mundo falam uma linguagem universal, a das imagens em movimento, e são fundamentais para o debate sobre a condição humana. Nos filmes apresentados este ano encontramos diálogo, esperança, soluções, clarificações, formas de reparação”.

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