Surto de Covid-19 deve levar ao cancelamento da edição 2020

É assim que o Le Point entende ser o destino do Festival de Cannes em 2020, adiantando que “oficialmente, a decisão não será tomada até 15 de abril numa reunião entre os organizadores, a cidade e os serviços estatais” – que antecipará a conferência de imprensa marcada para o dia 16 de abril onde “seria” revelada a programação.
Sob a mesa de discussão dos organizadores do Festival de Cannes estão vários elementos, mas todos eles apontam para um cancelamento, havendo igualmente sinais de restrutração do certame no futuro. Primeiro, existem as datas do certame, maio (12 a 23), que chocam tendencialmente com as previsões de evolução do Covid-19. O problema não é só França, e a publicação cita um membro do conselho de administração que avisa: “Será muito difícil, para não dizer impossível, selecionar filmes vindos da China, Coreia, Irão, Itália e, sem dúvida, de cinquenta países, sabendo que os atores e realizadores não poderão visitar o certame. A exibição de filmes num auditório de 2.000 lugares [o grande auditório Louis-Lumière tem 2.300 lugares, nota] não será autorizada e o sinal de menor alerta preocupará os frequentadores do festival. E quanto a Spike Lee, presidente do júri? Conhecemos a hipersensibilidade de Hollywood em questões de higiene. Não o vejo a passar quinze dias no meio de uma multidão, cujo estado de saúde não é controlado.“
Há ainda a questão das empresas norte-americanas terem travado as viagens (decisão de Donald Trump de declarar estado de emergência), que afetariam em muito o Marché do Film, onde – citando o jornal – “passaram 12.527 participantes de 121 países e representantes de 5.528 empresas que percorreram os corredores do Palais des Festivals” em 2019. Outro vetor citado é a questão dos patrocinadores (Chopard, L’Oréal, Renault, etc), que alegadamente “preferem um ‘ano em branco’ a participar de um evento festivo sob supervisão médica e que provavelmente seria interrompido a qualquer momento“.
O adiamento do certame esteve e está também em cima da mesa, mas as datas disponíveis tornam difícil o evento manter o “selo de qualidade“. Em setembro, Cannes chocaria com Veneza e Toronto, e como exige a estreia mundial dos filmes, a situação complica-se, especialmente com os filmes norte-americanos, que usam Toronto como base privilegiada para o mercado dos EUA. Existem ainda os festivais de Nova York, Londres, Telluride e San Sebastián no último quadrimestre do ano, e outros eventos fora do panorama cinema que ocupam as slots de atenção e o próprio espaço onde decorre o evento (MIPIM, Mipcom, CannesSeries).
O Le Point aponta assim para o cancelamento da edição 2020, falando ainda em divergências dentro da estrutura do festival. Citando outro membro do conselho de administração (são 28, no total), este defende que o evento tem de ser mais curto, menos pomposo, mais simples e abrir a porta para os novos gigantes da produção. “Vamos aproveitar este golpe para nos reinventar. Se não o fizermos, seremos vencidos por outro festival “.
Quem já respondeu a este artigo, classificando-o de sensacionalista, foi o Palais des Festivals de Cannes, onde decorre o certame, publicando no Facebook a seguinte nota: “Apesar de alguns títulos sensacionalistas, não há novidades do Festival de Cannes. O evento, que será realizado de 12 a 23 de maio, estuda o desenvolvimento da situação nacional e internacional com atenção e lucidez, em concertação com a cidade de Cannes e o CNC. Quando chegar a hora, eles tomarão uma decisão juntos em meados de abril.“
Recordamos que o delegado-geral do festival, Thierry Frémaux, afirmou numa entrevista recente ao Le Monde que só em abril seria tomada uma decisão definitiva sobre a realização ou não do evento. “O festival é daqui a dois meses e, até lá, esperamos que a situação seja diferente e que a epidemia tenha diminuído!“.

