Num sinal explícito de renovação, a fim de espanar a poeira de deceção de suas edições mal curadas de anos recentes, a Berlinale abriu as suas portas para medalhões e promessas classe AA na sua seleção para 2020.

Todos os Mortos l Foto.: Héléne Louvart
Agendada de 20 de fevereiro a 1 de março, o festival terá direito a autores do quilate de Philippe Garrel e Tsai Ming-Liang.
Jurada na edição de Cannes de 2019, Kelly Reichardt, atual estrela da cena indie dos Estados Unidos, é um dos destaques da disputa pelo Urso de Ouro neste momento em que o evento celebra seus 70 anos. E entrou um concorrente que fala português: Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. No enredo, estamos em São Paulo de 1899, onde os fantasmas do passado ainda caminham por entre os vivos, quizilando as mulheres da família Soares. Elas são antigas proprietárias de terra que tentam agarrar-se ao que resta dos seus privilégios. Para Iná Nascimento, que viveu muito tempo escravizada, a luta para reunir os seus entes queridos num mundo hostil condu-la a questionar as suas próprias vontades. Entre o passado conturbado do Brasil e o seu presente fraturado, cheio de intolerância, estas mulheres tentam construir um futuro próprio.
Trata-se da mais exuberante seleção que o evento tem em anos, com direito a um título inédito do maior realizador germânico do momento: Christian Petzold. E não houve espaço para títulos da Netflix, deixando uma evidente ofensiva da indústria do audiovisual ao boom do streaming, que já havia encontrado um terreno fértil pra si na capital alemã.

Le Sel des larmes de Philippe Garrel
O anúncio foi feito na manhã desta quarta-feira pelo novo comando do festival: em 2019, saiu Dieter Kosslick e entraram Mariette Rissenbeek, como diretora executiva, e Carlo Chatrian, no posto de diretor artístico. Eles selecionaram My Salinger Year, produção canadiana com a atriz Sigourney Weaver, dirigida por Philippe Falardeau, para abrir a programação, tendo Helen Mirren como a homenageada do ano, pronta a receber um Urso de Ouro honorário. Já o troféu tributo Berlinale Camera será entregue à cineasta e artista visual Ulrike Ottinger. Um dos destaques é o número de filmes indicados a láureas que são dirigidos em dupla: cinco dos 18 competidores. E é uma surpresa encontrar um “queridinho” de Cannes, como Abel Ferrara, na competição, apoiado mais uma vez pelo carisma de Willem Dafoe.
Aliás, há estrelas como Javier Bardem, Salma Hayek, Elio Germano e Ceclia Roth entre os filmes que vão entrar na luta pelos holofotes da Berlinale. Ainda no terreno do português, o evento vai exibir as séries brasileiras Desalma, de Ana Paula Maia, e Onde está meu coração, de George Moura e Sergio Goldenberg.
Competição
“First Cow”, de Kelly Reichardt (EUA)
“Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani (Alemanha)
“Schwesterlein” (“My Little Sister”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond (Suíça)
“Siberia”, de Abel Ferrara (EUA)
“Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel (França)
“The roads not taken”, de Sally Potter (Reino Unido)
“Undine”, de Christian Petzold (Alemanha)
“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
“El prófugo”, de Natalia Meta (Argentina)
“Favolacce (Bad Tales)”, de Damiano & Fabio D’Innocenzo (Itália)
“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
“Todos os mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil)
“DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Ucrânia)
“Sheytan vojud nadarad” (“There Is No Evil”), de Mohammad Rasoulof (Irão)
“Irradiés” (“Irridiated”), de Rithy Pahn (Camboja)
“Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman (EUA)
“Rizi (Days)”, de Tsai Ming-liang (Taiwan)
“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)
Berlinale Special
“Dois Irmãos: Uma jornada fantástica” (“Onward”), de Don Scanlon (EUA)
“Curveball”, de Johannes Naber (Holanda)
“DAU. Degeneratsia”, de Ilya Khrzhanovskiy e Ilya Permyakov (Ucrânia)
“Speer Goes to Hollywood”, de Vanessa Lapa (Israel)

