No dia em que Cannes divulgou a escolha de Spike Lee como presidente do júri da sua 73ª edição (12 a 23 de maio), a Berlinale antecipa mais uma parte do seu cardápio para 2020, com Jia Zhangke, Agnieszka Holland e Johnny Depp, mas ainda “escondendo o jogo” com os concorrentes ao Urso de Ouro: nenhum foi divulgado, mas fala-se em inéditos de Philippe Garrel, Naomi Kawase e Sally Potter.
Agendado de 20 de fevereiro a 1 de março, o festival alemão vai abrir suas portas – e os olhos do mundo – para o novo trabalho do artesão chinês vindo de Fenyiang: Swimming Out Till The Sea Turns Blue é um mergulho documental de Jia num encontro literário em Shanxi. É uma investigação do realizador de Se Montanhas Se Separam (2015) sobre os escritores da sua pátria, na sua relação com palavras e imagens. Já Agnieszka, “queridinha” de Berlim há décadas, volta a terras alemãs com Charlatan, um drama sobre os abusos morais nos bastidores da Guerra Fria. É uma produção feita em sua Polónia natal, que entra no Berlinale Palast fora de concurso, como os demais títulos da longa metragem hoje anunciados pela nova direção artística do evento. A chefia despediu-se de Dieter Kosslick, e, no lugar dele, entraram Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian. A dupla parece ter herdado de Dieter o respeito por Agniszka e a paixão por Jia.
“Existe uma dimensão de impunidade nos governos totalitários do passado, assim como nos de agora, que precisa ser revelada e escancarada. Eu regi numa Europa que institucionalizou o silêncio como legado de um sonho. É hora de falarmos“, disse a realizadora ao C7nema em lá em Berlim mesmo, há um ano, ao exibir Mr. Jones, que chegou há pouco tempo ao circuito português. “Eu aposto numa montagem que gere dialéticas e combatas retóricas tolas“.
Numa fase de “vacas magras” em Hollywood, Depp, o eterno Jack Sparrow, vai passar pelo Festival de Berlim numa seção de longas-metragens fora da luta pelo Urso de Ouro com Minamata, de Andrew Levitas. Ele dá vida ao fotógrafo W. Eugene Smith (1918-1978), famoso pela natureza ensaística do seu trabalho, sobretudo na documentação de guerras. O filme aborda a sua incursão ao Japão, onde registou vítimas de envenenamento por mercúrio. A presença de Depp deve elevar a temperatura da Berlinale, que divulgou parte das suas mostras no final de 2019. Já se sabe que vai ter Brasil em dose tripla nessa Berlinale: Matias Mariani entra com Cidade Pássaro na Panorama; Caru Alves de Souza, com Meu Nome é Bagdá na Generation; e Ana Vaz, com Apiyemiyekî no Forum Expanded. Falando da nossa língua… Portugal conseguiu emplacar Quantum Creole, de Filipa César, no Forum Expanded. Do que fora anunciado em dezembro, a atração mais luminosa é Pinocchio, de Matteo Garrone, com Roberto Benigni, que também não compete.
Já a lista publicada nesta terça no site do festival promove a exibição (fora de concurso) da série documental Hillary, de Nanette Burstein, e de Last and First Men, documentário islandês de Jóhann Jóhannsson, narrado por Tilda Swinton. Foi também divulgada a lista de curtas metragens em concurso, que não traz produções ibéricas, mas inclui uma representatividade sul-americana, em língua espanhola, com o filme argentino Playback. Ensayo de una despedida, de Agustina Comedi.
Aposta-se, entre os possíveis concorrentes ao Urso, ainda na escolha da brasileira Laís Bodaznky e o seu Pedro, com Cauã Reymond de D. Pedro I; no romeno Cristi Puiu, com Malmkrog; e no dinamarquês Thomas Vinterberg, de volta com Druk, no qual Mads Mikkelsen encarna um professor alcoólatra.

