De Billy Joel a Aronofsky, Tribeca celebra Nova Iorque

(Fotos: Divulgação)

Embalada pela garganta que emplacou baladas como “Just The Way You Are”, a edição de 23 anos do Festival de Tribeca vai dar sua largada nesta quarta-feira, com Billy Joel: And So It Goes, de Susan Lacy e Jessica Levin, numa fidelidade a uma tradição recente de fazer zarpar a sua programação por veredas documentais. A produção de 147 minutos é exibida no Beacon Theatre, sala já tradicional de Nova Iorque, que ganhou essa maratona cinéfila a partir de um dos seus mais ilustres filhos: Robert De Niro. Quando o trauma do 11 de Setembro assombrava a cidade, a estrela de Taxi Driver (1976) encabeçou um movimento para levantar o moral da área. Em parceria com a produtora Jane Rosenthal e o investidor Craig Hatkoff, conseguiu fundar o evento em 2002, e segue desde então a promover competições de ficção e de documentário americanas e internacionais. A equipa de jurados deste ano inclui Jennifer Beals, Matthew Broderick, Ilana Glazer, Art Linson, Kyle MacLachlan, Mira Sorvino, Nia DaCosta, Colson Whitehead e Ahmed Ahmed.

Portugal, que terá novamente Tribeca em Lisboa em outubro, não tem títulos a concurso na edição nova-iorquina, mas é cenário de uma das estreias da seção Spotlight: All We Cannot See, drama queer do venezuelano Alberto Arvelo. na trama, Aroa (María Valverde) vive na periferia de uma pequena cidade em Navarra, trabalhando em tempo integral e suportando uma vida familiar abusiva. Ao conhecer Miquela (Bruna Cusí), ela se encanta pela moça e viaja com ela pela Espanha até chegar a terras lusas, redefinindo passos e desejos. Ainda no âmbito da língua portuguesa, Tribeca recebe o Brasil no sábado, ao projetar Pavilhão, de Victoria Fiore. No Rio de Janeiro, a jovem Aleksia faz uma viagem no tempo, revelando as origens do samba numa conexão com a ancestralidade africana. Há brasilidades também no filme de encerramento do festival, agendado para o dia 14: Yanuni, de Richard Ladkani. A protagonista é a cacique paraense Juma Xipaia em luta para proteger as terras indígenas dos seus parentes Takumãs.

Há onze longas-metragens na competição internacional, entre os quais uma das sensações da Berlinale: “Little Trouble Girls” (“Kaj ti je deklica”), de Urška Djukić, da Eslovénia. É um estudo sobre desejo e o que ele pode trazer no despertar da primavera da vida. Foi laureado em solo germânico com o Prémio da Crítica, pela excelência da montagem. Na trama, montada com elegância, Lucia, uma jovem introvertida de 16 anos, entra para o grupo coral feminino da sua escola católica, onde faz amizade com Ana-Maria, uma aluna popular e sedutora do terceiro ano. Durante um retiro de fim de semana em um convento remoto no campo, para ensaios intensivos, o crescente fascínio de Lucia por um homem das obras começa a prejudicar o vínculo com Ana-Maria e restantes colegas. Em meio a um ambiente desconhecido e ao despertar da sua sexualidade nascente, Lucia questiona as crenças e valores.

Na sua corrida por prémios dedicados a produções de língua não inglesa, Tribeca finca a sua bandeira em França com A Second Life, de Laurent Slama. No enredo, Elisabeth (Agathe Rousselle) é uma mulher deprimida que trabalha para uma empresa de hotelaria em Paris, levando turistas, muitas vezes rudes, aos seus apartamentos alugados para os jogos olímpicos – um trabalho stressante que a faz viajar pela cidade. O único alívio que ela tem é desconectar o seu aparelho auditivo e observar os “Nenúfares” de Monet. No entanto, tudo muda quando ela conhece um jovem viajante de espírito livre (Alex Lawther) que traz a alegria e a aventura necessárias para a sua vida, enquanto a cidade ao redor deles fervilha de energia.

“Best You Can”

Entre os doze escolhidos às láureas da U.S. Narrative Competition, o título mais esperado (em função de um boca a boca prévio) é Rosemead, de Eric Lin, com Lucy Liu. Situado no coração do San Gabriel Valley, com base numa história real, o filme é a saga de uma imigrante chinesa com uma doença terminal que descobre a perturbadora fixação do filho adolescente por tiroteios em massa. À medida que a sua saúde se deteriora, ela toma medidas cada vez mais desesperadas – e moralmente complexas – para protegê-lo e enfrentar as trevas que o atraem.  

A presença da atriz Christine Lahti, estrela na TV dos EUA (vide Chicago Hope), vencedora do Oscar de melhor curta-metragem por Lieberman in Love, torna a comédia dramática Bird In Hand, da estreante Melody C. Roscher, o maior rival potencial de Rosemead. No guião, Bird Rowe (Alisha Wainwright) faz uma viagem para visitar a sua mãe hippie, Carlotta (Christine Lahti), na sua exuberante casa rural, com a empolgante notícia de que estão prestes a se casar. Ansiosas para encontrar um local para festejar as núpcias, as duas vasculham a área em busca de um possível salão para o casamento, mas nem tudo são flores, pois a jovem noiva está, na verdade, em busca de algo completamente diferente. Eis que os novos vizinhos de Carlotta entram em cena: o sedutor casal Dennis (James Le Gros) e Leigh (Annabelle Dexter-Jones). Quando Bird e Dennis deixam suas intenções à mostra, a viagem leva a travessuras e muita luxúria.

Neste sábado, na Spotlight hors-concours, Tribeca acolhe a estreia do que pode ser seu maior êxito: a comédia romântica The Best You Can, de Michael J. Weithorn, com o casal Kyra Sedgwick e Kevin Bacon. Ele vive Stan Olszewski, um segurança que frustra uma tentativa de roubo na residência da urologista Cynthia Rand (Kyra). Uma amizade intensa desenvolve-se entre eles a partir de mensagens de texto bem-humoradas, enviadas tarde durante a noite. O aprofundamento do vínculo entre eles abala a vida de ambos… para o bem.

Na semana que vem, no seu Spotlight documental, Tribeca recebe também da Berlinale Holding Liat, de Brandon Kramer, que saiu do maior festival da Alemanha com o Prémio de Melhor Documentário. O seu realizador faz uma eletrizante análise observacional do paiol de pólvora que o Médio Oriente pode ser. O foco é o sofrimento de uma família com quem tinham uma conexão prévia. Depois que a guia de turismo Liat Beinin Atzili foi raptada, em Kibbutz Nir Oz, em 7 de outubro de 2023, os seus parentes – os israelitas e americanos – enfrentam uma fase de horror, com medo de que ela seja assassinada. Os seus entes queridos unem-se para lutar pela sua libertação e pelo futuro de um projeto político de nação.

Na sua seleção de filmes de culto e clássicos, Tribeca festeja os 30 anos de Casino (1995) e o 25° aniversário de Requiem For A Dream, de Darren Aronofsky, com direito a debate com o realizador e com Ellen Burstyn.

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