“Little Trouble Girls“, cujo título se inspira numa música dos Sonic Youth, começa com uma respiração intensa diante de uma tela negra. Depois disso, somos conduzidos a uma pintura cuja forma oval pode ser interpretada como uma vulva. Este início absorvente e cativante dá logo o mote para o que temos pela frente na estreia nas longas-metragens da eslovena Urška Djukić, presente na secção Perspetivas, mas que se estivesse em competição ao Urso de Ouro não chocaria, pois é, até agora, um dos filmes mais marcantes e conseguidos da edição 2025 do Festival de Berlim.
Passado num mosteiro num fim de semana de verão, o filme acompanha a história do um despertar de Lucija (Jara Sofija Ostan), uma jovem de 16 anos que está inserida num grupo coral e que sente todas as borboletas do mundo ao conhecer a sua nova colega, Ana-Marija (Mina Švajger). Conversas entre as raparigas, repletas de curiosidade e movidas a hormonas nas graçolas que fazem em relação aos homens das obras que deambulam pelo local, contrastam com a santidade do mesmo, servindo as próprias freiras como um refúgio para algumas questões que seriam impossíveis de fazer na própria casa de Lucija. “A inspiração para o filme surgiu ao ver um coro feminino de uma escola católica”, explicou-nos a realizadora numa conversa em Berlim “Estava perante um conjunto de raparigas jovens, com 16 ou 17 anos, mas as vozes delas eram muito poderosas e belas que me tocaram profundamente. Foi um momento muito impactante para mim, não entendi o porquê. Comecei a investigar sobre as vozes femininas reprimidas no passado e procurei também perceber mais sobre a minha própria voz. Lembro-me de em pequena sentir que os rapazes eram mais encorajados a seguir os seus sonhos, enquanto nós, as mulheres, éramos mais encorajadas a manter-nos recatadas e a agradar.” Confessando que isso criou um conflito nela, Urška partiu para uma análise à relação com o corpo. “Será que o escuto? Será que o reprimo? O nosso corpo tem uma inteligência que pode até suplantar a mente, mas a sociedade insiste em privilegiar a razão. O nosso corpo fala connosco e leva-nos a imensas coisas. Devemos ouvi-lo mais”.

Afirmando que a opção de dar primazia a um cinema fortemente sensorial, Urška não tem dúvidas que os sentidos são a chave para o corpo entender o mundo. ”Por isso mesmo, dedico muito tempo a todas as pequenas coisas que vemos no filme, seja no som, seja nas imagens. Queria sempre acompanhar a protagonista de muito de perto, como se a câmara se colasse a ela e partilhasse as suas experiências, a sua sensualidade e candura. Faz toda a diferença filmar um projeto com foco no sensorial e não no texto”.
Já a desenvolver um novo filme, de maior orçamento, a cineasta prepara-se agora para visitar o século XV, no seu país, num episódio que envolveu o primeiro julgamento por bruxaria. O filme conta a história real de um amor proibido entre Verónica de Desenice e um conde: “Como ela se meteu no caminho da política, quiseram se ver livres dela”, diz-nos a cineasta. “O filme também se desenrola num mosteiro, mas masculino, pois foi aí que ela se refugiou das pessoas que a perseguiam e derradeiramente enforcaram. Nós, mulheres, quando éramos pequenas tínhamos de ler obras que narram essas histórias, mas todas elas eram escritas por homens. Ela foi sempre descrita como alguém frágil e passivo que esperava que um homem fizesse o que ela tinha de fazer. Fizeram uma má representação dela, pois foi uma das pessoas mais influentes e que desafiou o estabelecido. Creio que esta é uma história importante para contar sob o ponto de vista feminino”.
O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

