Sete anos depois da consagração de “Fuocoammare”, cinco anos depois do cruzamento entre realismo, performance e fabulação de “Touch Me Not”, a Berlinale volta a dar o Urso de Ouro a uma narrativa documental: “Sur L’Adamant”. O realizador é o cineasta Nicolas Philibert, um artesão de narrativas de não ficção, hoje com 72 anos, conhecido por filmes como “Être et Avoir” (2002). O seu foco nesta nova aventura documental é acompanhar como pacientes de um centro de atendimento fluvial, voltado ao estudo de distúrbios psiquiátricos, são tratados, num esforço de reinserção. É um estudo comportamental que custou ao cineasta cerca de quatro anos de trabalho.
“É uma alegria sem tamanho quando o trabalho por trás de uma narrativa documental de acompanhamento é reconhecido como cinema”, disse Philibert ao C7nema, no Hotel Hyatt, comemorando o Urso de Ouro e a menção honrosa no Júri Ecuménico.
Existe uma láurea paralela na Berlinale só para documentários. Este ano, ela foi entregue a uma das longas-metragens mais elogiadas de todo o festival, exibido na mostra paralela Encontros, “El Eco”, da mexicana Tatiana Huezo. Ela recebeu ainda a láurea de Melhor Realização desta seção, onde o grande vencedor foi “Here” de Bas Devos. A narrativa de Huezo se passa num vilarejo mexicano que parece parado no tempo, castigado pelo frio e por secas, no qual jovens cuidam das avós, assim como tomam conta de rebanhos carentes de melhores condições. É uma metáfora entre a natureza humana e a vida animal. Mas o facto de haver uma competição restrita ao real não intimidou o júri oficial da Berlinale. Já o filme de Bas Devos mostra a relação que se estabelece entre duas personagens com vidas bem diferentes, Stefan Gota e Liyo Gong, enquanto eles se descobrem no meio de invisibilidades do quotidiano. “Esta história veio de diferentes lugares e influências. Desde a minha intenção em trabalhar com Stefan, que é um ser humano lindo, a filmar em determinadas locações que conheço, como o edifício que vemos no início ou o restaurante e o parque. E depois também captar as relações sensoriais das pessoas com esses locais“, disse o cineasta ao C7nema durante a Berlinale.

Desafiar tabus foi a meta desse júri, que não teve tato algum em ignorar duas brilhantes animações asiáticas – a japonesa “Suzume”, que pode facialmente ser encarado como obra-prima, e a chinesa “Art Gallery 1994” – sem se importar com o facto de a presença delas em concurso era um caminho para o evento germânico agregar novas e fiéis plateias. Enfim… parece que o fascínio sociológico inerente aos documentários falou mais alto.
Philibert recebeu a bênção da atriz americana Kristen Stewart (de “Personal Shopper”, “Spencer”), que presidiu o júri oficial. As confabulações sobre quem deveria vencer foram feitas numa troca com as cineastas Valeska Grisebach (alemã) e Carla Simón (catalã); da diretora de elenco, atriz e produtora Francine Maisler (também dos EUA); da superestrela iraniana Golshifteh Farahani; e dos realizadores Radu Jude (Roménia) e Johnnie To (Hong Kong). A primeira láurea anunciada por este grupo foi a de Melhor Contribuição Artística, atribuída à fotógrafa francesa Hélène Louvart pelo seu trabalho em “Disco Boy”, um explosivo olhar sobre o universo da Legião Estrangeira e dos fluxos migratórios na europa. Ao escolher o Melhor Argumento, as juradas e os jurados foram fisgados pela releitura daalemã Angela Schanelec fez do mito de Édipo Rei em “Music”, uma trama que vai da Grécia a terras germânicas falando de maternidade.
Para Portugal, as escolhas de Kristen & cia. foram um presente, afinal o audiovisual luso deixa Berlim com o Prémio do Júri, entregue a “Mal Viver”, drama português de João Canijo, centrado num grupo de mulheres que se esforçam para manter um hotel aberto, domando as angústias do dia a dia. O filme forma uma espécie de díptico com “Viver Mal”, também centrado no hotel, mas centrado na ótica dos hóspedes.

Depois do êxito (merecido) de Canijo, “Afire”, de Christian Petzold, recebeu o Grande Prémio do Júri. Quando a pátria de Werner Herzog e Wim Wenders se empenha para brilhar nos ecrãs, não tem quem a segure. Três anos após a consagração de “Undine”, o realizador alemão extrai mais uma atuação magnífica da atriz Paula Beer, dando à disputa pelo Urso de Ouro de 2023 o guião mais engenhoso – e com mais camadas de toda a competição. Ela é a misteriosa hóspede de uma casa no litoral onde um aspirante a escritor anseia por uma avaliação do seu editor. Mas há incêndios ao redor, na mata. Haverá um incêndio dentro dele também.
Ao avaliar quem deveria ganhar a láurea de Melhor Realização, Kristen Stewart e companhia se desmancharam pelo impecável trabalho de Philippe Garrel, por “Le Grand Chariot”, definido no Berlinale Palast como sendo “o coração mais jovem” da competição. O realizador põe as filhas e filho a atuarem, na história de uma família de marionetistas. No palco, ele dedicou a vitória a Jean-Luc Godard, falecido em 2022, num suicídio assistido. “Os meus filmes são confecionados quase que artesanalmente. Eu “fabrico” narrativas. E não tenho produtor. Eu me produzo”, disse Garrel ao C7nema.
Nos últimos dois anos, não foram consideradas distinções de género entre melhor ator e melhor atriz na maneira como a Berlinale avalia o elenco dos seus filmes. O festival optou por duas categorias diferentes: Melhor Interpretação de um protagonista e Melhor Secundário. Kristen embarcou na ideia. A primeira láurea foi dada a Sofia Otero, pela produção espanhola “20.000 Espécies de Abelhas”, no qual vive uma criança em transição de identidade. A segunda coube a Thea Ehre, pela estonteante atuação em “Till The End Of The Night”, sobre uma mulher trans envolvida com o submundo das drogas.
A única produção da América Latina entre as 19 longas-metragens na disputa pelo prémio principal do festival, “Tótem”, de Lila Avilés, cineasta do México, rendeu ao continente o prémio do Júri Ecumênico, uma láurea atribuída por entidades cristãs em reação às representações da fé e da solidariedade nas telas. Lila narra o processo de amadurecimento de uma menina de 7 anos no meio de uma festa que antecipa uma morte na sua família.
Sem longas-metragens na competição oficial, o Brasil conquistou o prémio especial do júri da mostra Generation 14Plus com a curta-metragem “Infantaria”, de Laís Santos Araújo.
Terminada a Berlinale começam as especulações acerca do 76ª edição Festival de Cannes, agendado de 16 a 27 de maio para o qual estão previstos os novos filmes de Ken Loach, Maïwenn, Wes Anderson, Abderrahmane Sissako e Ryusûke Hamaguchi.

