Gianfranco Rosi, a popstar do real

(Fotos: Divulgação)

Famoso por ter no currículo um Urso de Ouro e um Leão dourado, o documentarista Gianfranco Rosi, de 54 anos, prepara uma longa metragem sobre a vida noturna no  Médio Oriente e dispara como aposta para Berlim

Aberto na noite de sexta com uma projeção de Knives out: Todos são suspeitos, de Rian Johnson, o 18º Festival de Marraquexe foi palco de uma ladainha, nos seus bastidores, com conversas de corredor acerca do futuro de um outro evento: a Berlinale. No meio à festança de abertura da maratona cinéfila marroquina, com kaftas, crepes de mel e iguarias diversas, produtores, jornalistas e críticos, das mais diversas línguas, abriam rodas de conversa para especular sobre o que virá na busca pelo Urso de Ouro de 2020, agora sob nova direção artística – saiu Dieter Kosslick; entraram Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian.

Naomi Kawase, e seu Asa ga Kuru, sobre uma mulher às voltas com a adoção de um bebé, foi o primeiro título cogitado. Alguns falavam na animação Izzy Got the Frizzies, a estreia do coreano Kim Ki-Duk em desenhos; outros apostaram no novo filme de François Ozon (Eté 84); uns lembraram de Sean Durkin e o seu The Nest (com Jude Law); houve quem levantasse a bola da espanhola Isabel Coixet, que está a desenvolver It snows in Benidorm. Porém, o nome mais citado foi o de Gianfranco Rosi. O seu Notturno é tratado como atração garantida para aos ecrãs alemães.

Ninguém sabe ao certo o que Rosi, cineasta italiano nascido na Eritreia há 55 anos, quer dizer com a expressão “vida noturna” ao associá-la à intolerância que rege o Oriente Médio, mas é já certo que a região será cenário e tema do seu novo filme, já em filmagens, previsto para estrear no primeiro trimestre de 2019. Pelas poucas descrições de Notturno oferecidas pelo aclamado cineasta – em 2013, ele saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro por Sacro GRA“; três anos depois, ganhou o Urso de Ouro da Berlinale, com Fogo no mar, nomeado aos Oscars em 2017 -, sabe-se que será um ensaio sobre “fronteiras”. “Muros deixam de ser apenas demarcações simbólicas no momento em que eles mudam destinos“, disse Rosi numa entrevista num festival no Qatar.

Lá, ele foi tratado como uma popstar. Aliás, é assim que ele é visto mundo afora: nem Michael Moore (Bowling for Columbine) hoje tem tanto prestígio quanto ele. Há quem diga que Notturno já é barbada para a seleção do próximo Festival de Berlim (7 a 17 de fevereiro). Mas há quem fale no interesse de Cannes por ele: quem sabe, ele possa ter uma Palma de Ouro no seu rol de prémios. Fala-se  que o seu objetivo agora é ter um grupo de jovens árabes como guias da sua narrativa, focada no seu assunto mais recorrente: a invisibilidade. E sobre ela que ele falou ao C7NEMA, numa recente entrevista em França.

O senhor mantém Notturno a sete chaves, em segredo total. Mas há curiosidade em saber o quanto a badalação em torno de Fuocoammare ajudou esse novo projeto?

Não sou uma estrela: a luz dos meus filmes precisa cair sobre as pessoas que não tiveram as mesmas chances de estudo que eu tive. Por respeito àquilo que pude estudar, assumi a responsabilidade de fazer um tipo de cinema que defende causas: no caso, dar visibilidade a pessoas de que a imprensa desdenha. O sucesso dos filmes recentes que fiz deixa-me feliz, não por questões de vaidade pessoal, mas por dar ao cinema documental uma chance de alcance popular maior.

O que te fascina no cinema documental?

A possibilidade de usar dispositivos de observação de material vivo não fabular para questionar o claustro de “filme político” e produzir uma narrativa dos afetos. Não sei o quanto você vê isso, mas o documentário, pela sua natureza de orçamento mirrado, em comparação com a ficção, parece necessitar um sentido político para existir. Discordo. Os documentários podem ter bandeira, mas são exercícios de linguagem antes de tudo. A instância poética da narrativa documental é a liberdade de se ver diante de um mundo palpável, belo, mas com cicatrizes.

Como o senhor desenvolveu a sua estética de observação?

Venho da tradição de Rossellini. Tenho identidade italiana. A Itália tem uma tradição muito forte de documentaristas e também de realizadores que misturaram a realidade com a ficção, criando, entre outras coisas, o movimento chamado de Neorrealismo. Foi um movimento que revolucionou o cinema nos anos 40, buscando a veracidade como cerne estético. Não é desta linhagem que eu venho, embora a respeite muito. Estudei nos EUA e formei-me no mundo. Referências deste ou daquele cineasta são úteis só até o momento em que você liga a câmara pela primeira vez: dali para diante, só estás tu. E esse “eu lírico”, que eu sou com a câmara, é alguém que tenta entender o que existe de verdadeiro e de falso por trás de cada gesto e de cada palavra que registo. O que me deixa compreender isso: o ambiente à minha volta. Os meus “protagonistas” são os lugares que filmo. Em Fuocoammare, por exemplo, no qual falo sobre os refugiados políticos, cada ação é determinada pela maneira como aquele local, com sua paisagem, influencia a vida dos seus habitantes. Inclua entre essas influências a tragédia externa.

Qual é o dispositivo narrativo que injeta poesia num documentário?

Sutileza é um deles. A câmara tem que ver sem ser vista. A câmara tem que fluir sem arroubos de estilo. Mas, acima de tudo, um documentário necessita de uma relação de confiança entre o realizador e o documentado. Sem confiar, ninguém se revela nem se desvela diante da câmara. E a câmara documental existe para desvelar aquilo que se olha, mas não se vê na inteireza.

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