O Curtas Vila do Conde abre amanhã com Dupieux e Lynch

(Fotos: Divulgação)

O Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema começa amanhã, 16 de julho, e decorrerá ao longo da próxima semana até 25 de julho, data em que serão anunciados os vários prémios do certame. A abrir o festival estão o novo filme de Quentin Dupieux, “Mandibules”, seguido do clássico de culto “Mulholland Drive”, de David Lynch.

Miguel Dias, codiretor da Agência da Curta Metragem, entidade responsável pelo Curtas Vila do Conde, contou ao C7nema que o filme de Lynch, que faz agora 20 anos desde o seu lançamento, serve como mote para a secção paralela intitulada Cinema Revisitado. “Entre as várias abordagens possíveis escolhemos a do retrato de Hollywood, cidade e símbolo da indústria do cinema, enquanto ‘fábrica de sonhos’, mas sobretudo da sua capacidade simultaneamente potenciadora e destrutiva do talento e da ambição artística, temas tão antigos na história do cinema quanto os próprios estúdios. Existe, por isso, um número grande de filmes, sobretudo americanos, que poderiam ter lugar neste programa, mas as obras de Vincent Minnelli, Billy Wilder, Gene Kelly e Stanley Donen estão sem dúvida entre as mais significativas, não só desta temática em particular como da própria história do cinema”, explica.

Outro grande foco do festival este ano, na secção InFocus, é a obra da realizadora escocesa Lynne Ramsay, que, como muitos dos realizadores que passam pelo festival, começou a sua carreira nas curtas metragens, também elas incluídas no programa especial que o Curtas lhe dedica. “O programa InFocus vai dando a conhecer, ano após ano, alguns dos cineastas mais relevantes do cinema contemporâneo, e quando, como no caso de Lynne Ramsay, existe também uma obra importante no campo da curta-metragem, essa escolha ainda faz mais sentido”, comenta o organizador. “Desde as suas primeiras curtas, as duas primeiras premiadas em Cannes e a terceira em Clermont-Ferrand, assistimos à definição de um estilo muito próprio, confirmado ao longo dos anos. Os seus filmes mais recentes, ‘We Need To Talk About Kevin’ e ‘You Were Never Really Here’, estão entre as obras fundamentais da última década no contexto do cinema europeu.” Para não falar de “Ratcatcher” (1999) e de “Morvern Callar” (2002), as duas primeiras longas da cineasta, que, embora sejam hoje menos faladas, são tão ou mais inovadoras que os seus esforços mais recentes.

Mas é no âmbito da Competição Nacional e Internacional que todos os olhos se viram para Vila do Conde. Com uma seleção de 31 curtas-metragens, às quais acrescem 17 portuguesas, são 48 os filmes que lutam pelo reconhecimento de melhor filme. Ainda que haja uma competição separada para as produções nacionais, todas elas concorrem também na Competição Internacional, e para as obras portuguesas há ainda melhores notícias.

É que a partir desta edição de 2021, o Curtas faz parte de um grupo restrito de festivais de cinema da OSCAR® Qualifying Film Festival List. Isto significa que o Grande Prémio da Competição Internacional e o prémio para melhor filme da Competição Nacional são automaticamente elegíveis para consideração nas categorias de Melhor Curta-Metragem dos Academy Awards®, dispensando a necessidade de serem apresentados em circuito comercial nos EUA, desde que cumpram os regulamentos do concurso. Miguel Dias destaca que, por um lado, isto implica “um reconhecimento da importância do festival – que também já está há muitos anos na lista dos festivais elegíveis para os prémios da European Film Academy –, sobretudo aos olhos do público, para quem os prémios da Academia são a principal referência.” Por outro lado, esta constitui “mais uma razão, para além de todas as outras, para que os realizadores e produtores tenham vontade e interesse em escolher o Curtas para a apresentação em estreia dos seus filmes, quer na competição internacional, quer na nacional. Sobretudo, é interessante para o cinema português ter a cada ano a possibilidade de ter um filme elegível.

Quanto à situação pandémica atual, as dificuldades acrescidas para os eventos culturais são conhecidas de todos: limitação de público, de horários, das viagens dos convidados, dos encontros entre as pessoas. Nas palavras do organizador, uma “limitação de tudo aquilo que distingue um festival de cinema”. O maior desafio é mesmo a variabilidade das regras, o que obriga a organização a ter de preparar vários cenários diferentes. “As regras mudam a cada dia e ninguém sabe muito bem com o que pode contar. Veja-se a mais recente medida relacionada com os restaurantes e hotéis, em que de repente é necessário voltar a contactar todos os realizadores e restantes convidados a informar sobre as novas regras… que até à sua chegada poderão ser novamente alteradas…”, desabafa.

Uma das medidas que o Curtas tomou, já desde o ano passo, é apostar num formato híbrido que combina as projeções em sala em vários locais do país e exibições online VoD, permitindo assim alargar o seu público a nível nacional e internacional. Mas Miguel Dias não considera que esta dinâmica seja para manter. “Para muitos filmes, os festivais são quase a única forma de serem projetados num grande ecrã, nas melhores condições de som e imagem, numa partilha e diálogo direto com o público. Os festivais apresentam obras inéditas, em estreia absoluta, num percurso cuidadosamente delineado por realizadores e distribuidores, que se segue a meses de trabalho intenso de preparação, rodagem e pós-produção. Esse trabalho não foi seguramente pensado para ser visto num telefone. Para nós, o online é neste momento uma forma de compensar as limitações de público na sala, e de chegar a todos aqueles que não terão possibilidade de participar fisicamente por causa da pandemia. Mas esperamos que não tenha vindo para ficar, há espaços e plataformas próprias para essa opção, e não são com certeza os festivais de cinema.”

Entre 16 e 25 de julho todos os filmes serão exibidos no Teatro e Auditório Municipais de Vila do Conde, sendo que as curtas da Competição Nacional também serão projetadas no Porto, no Cinema Trindade, e em Lisboa, no Cinema Ideal.

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