A Colômbia vive um dos momentos mais expressivos do seu Cinema contemporâneo. Desde 1980, o país apresentou 33 candidatos ao Óscar, chegando perto da estatueta com O Abraço da Serpente (2015), de Ciro Guerra, e conquistando visibilidade internacional com La Vendedora de Rosas (1998), de Víctor Gaviria. Em 2025, é Un Poeta, de Simón Mesa Soto, que lidera a nova vaga de reconhecimento.
A longa-metragem soma já dez prémios desde a estreia em maio no Festival de Cannes, onde venceu o Prémio do Júri na secção Un Certain Regard. No último fim de semana, o ator Ubeimar Rios foi distinguido no Festival de Biarritz, e no sábado o filme arrecadou o Prémio Horizontes Latinos no Festival de San Sebastián. O percurso confirma a força do título como candidato natural da Colômbia a uma vaga nos Óscares.
Filmado em Super 16mm pelo realizador premiado em Cannes com a curta Leidi (2014), o enredo centra-se em Oscar (Ubeimar Rios), poeta quarentão que, apesar de ter publicado dois livros e lecionado em universidades, não consegue transformar o talento em reconhecimento. Marcado pelo alcoolismo e pela impulsividade verbal, vive ainda na casa da mãe e enfrenta a rejeição de familiares e colegas.
A narrativa apresenta a literatura como via de transcendência e resistência. Oscar debate-se com a sua frustração pessoal, mas encontra em Yurlady (Rebeca Andrade), jovem com talento nato para a escrita, um reflexo da persistência da poesia em Medellín, cidade filmada por Mesa Soto numa fronteira ténue entre naturalismo e lirismo.
Com direção de fotografia de Juan Sarmiento G., Un Poeta articula estética granulada e intimista para refletir as contradições da América Latina: a dureza das condições sociais em confronto com a força criativa que resiste. O argumento constrói uma relação entre mestre e aprendiz que explora como a paixão literária pode gerar transformação, apesar do peso do determinismo económico.
O filme soma-se a outros destaques sul-americanos de 2025. No Festival de Cannes, foram premiados também La Misteriosa Mirada del Flamenco, do Chile, e O Agente Secreto, do Brasil. Já El Mensaje, do argentino Iván Fund, arrebatou o Prémio do Júri na Berlinale, enquanto o brasileiro O Último Azul conquistou o Urso de Prata. Todos eles integram a programação do Festival do Rio, que começa esta quinta-feira, reforçando a vitalidade do Cinema latino-americano.
A Colômbia, em particular, tem registado um ciclo de sucesso. Em 2022, Los Reyes del Mundo, de Laura Mora, venceu a Concha de Ouro em San Sebastián. Em anos seguintes, títulos como Un Varón (2022), de Fabian Hernández, e La Suprema (2023), de Felipe Holguín, confirmaram a vitalidade da produção local. Paralelamente, o país ganha visibilidade global com a adaptação televisiva de Cem Anos de Solidão, da Netflix.
No centro de Un Poeta está o dilema do seu protagonista: a crença inabalável de que a poesia pode conduzir à transcendência, tanto para quem escreve como para quem lê. Para Oscar, esse ideal é ao mesmo tempo combustível e condenação, num retrato que funde crítica social e celebração do poder transformador da arte.
Com a sua crescente lista de distinções, a obra de Simón Mesa Soto coloca a Colômbia novamente em destaque no panorama internacional e alimenta a expectativa de um desfecho histórico na corrida aos prémios da Academia de Hollywood.

