15 de abril de 1874: um grupo de jovens pintores vê o Salão de Paris, particularmente utilizado pela Academia Real de Pintura e Escultura, fechar-lhes as portas à exposição do seu trabalho. Entre eles estavam Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Edgar Degas, Camille Pissarro, Berthe Morisot e Paul Cézanne. Decididos a contrariar aquilo que definiam como um elitismo primário, os pintores juntam-se nos antigos estúdios do fotógrafo Félix Nadar, na Boulevard des Capucines. Nasce aí uma exposição das suas obras de arte.

Da mesma forma que, quase 100 anos depois, o astrónomo Fred Hoyle, ao tentar contrariar a teoria da expansão do Universo (ele defendia a teoria do estado estacionário) utilizou na TV o termo “Big Bang” para o contrariar, também nasceu do desdém o termo “impressionista”: um crítico, ao ver o quadro Impression, soleil levant (Impressão, nascer o Sol, 1872), de Monet, ridicularizou-o com esse nome. Essa alcunha depreciativa acabaria por batizar uma das maiores revoluções da história da arte.
É esse momento fundador que o documentário-ficção 1874 – O Despertar do Impressionismo, de Julien Johan e Hugues Nancy, recria com rigor histórico. Produzido pela ARTE em parceria com o Museu d’Orsay, o filme acompanha a aventura artística e humana de nove pintores que ousaram desafiar o academismo e reinventar a forma de ver e representar o mundo.
“O mais difícil foi dar vida a nove protagonistas em apenas 90 minutos. No cinema, raramente há tantas figuras centrais. Tivemos de mergulhar nas cartas trocadas entre eles, preservadas no Museu d’Orsay, que são documentos preciosíssimos. Foi aí que encontrámos o lado mais humano da história”“, explicaram Julien Johan e Hugues Nancy ao C7nema, numa entrevista em Paris no início do ano. “O impressionismo, felizmente, não caberia todo num formato de 90 ou 52 minutos — era impossível. O nosso foco foi sobretudo o período que antecede o movimento, entre 1860 e 1874. Isso limitou bastante o campo de pesquisa.“

A narrativa alterna cenas de ficção com materiais de arquivo e textos dos próprios artistas, permitindo entrar no ambiente vibrante dos ateliers, nas conversas íntimas entre amigos e na energia de um tempo de mudança. Para Johan e Nancy, não se tratava apenas de filmar quadros: era essencial mostrar a pintura como matéria viva, em processo. “Quando recriámos a Olympia de Manet, filmámos a tela ainda em branco, com o corpo apenas esboçado. Queríamos que o público tivesse a sensação de estar presente, no instante da criação.”
A história do impressionismo, como tantos outros movimentos na arte, é uma história de combate e resiliência. Durante anos, estes artistas foram recusados e ignorados. Manet quase não vendeu quadros em vida; Monet só encontrou verdadeiro reconhecimento já sexagenário. “O impressionismo é muitas vezes visto como um movimento solar e feliz, mas atrás dele está uma luta de jovens que tiveram a coragem de dizer não ao sistema”, sublinham os autores. “O que nos fascinava era mostrar esse grupo de jovens que decidiu enfrentar o sistema. Na época, só havia um caminho oficial para ser reconhecido: o Salão de Paris. Eles recusaram esse modelo e criaram a sua própria exposição. Não foi uma grande vitória, mas foi um gesto de coragem que mudou tudo”.

Com 1h35 de duração, o documentário foi rodado como uma verdadeira viagem ao século XIX: casas, roupas, pincéis, luz – tudo foi reconstruído com fidelidade. A fotografia explora a relação com a luz, evocando o olhar dos pintores diante dos céus da Normandia ou dos ateliers banhados pelo sol. “Queríamos que os espectadores sentissem a pintura na pele, que vivessem a textura, a cor, a atmosfera (…) Naquele período, eles ainda não se chamavam impressionistas. Chamavam-se realistas, porque queriam pintar a sociedade tal como ela era, sem idealizar nem sublimar batalhas ou mitos clássicos. Só depois evoluíram para a ideia de pintar a sensação que o mundo exterior lhes provocava. Monet, por exemplo, começou a trabalhar sobretudo com cores e luz, a pintar as impressões que tinha diante do real“.
Além de uma enorme lição de História da Arte, 1874 – O Despertar do Impressionismo oferece uma experiência de imersão numa época em que a arte começava a soltar-se das convenções. “Fizemos o filme que queríamos fazer”, diz a dupla. “E a resposta do público confirmou isso: recebemos comentários de pessoas que sentiram emoção, que aprenderam coisas novas. Conseguimos mostrar não só pintura, mas também humanidade”.
Quanto ao futuro, Hugues Nancy está a desenvolver um filme sobre o massacre da noite de São Bartolomeu, em 1572, quando milhares de protestantes foram mortos em Paris. Já Julien Johan está a trabalhar num documentário sobre uma missão de espionagem falhada em 1985.
1874 – O Despertar do Impressionismo foi exibido em Portugal na RTP e no Canal Arte. No canal francês pode ser visto on demand.

