Nascido em Bobbio, no norte da Itália, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Marco Bellocchio afastou-se do neorrealismo logo na sua primeira longa-metragem, “Fists in the Pocket” (I pugni in tasca, 1965), assinando posteriormente filmes como “A Leap in the Dark” (Salto no Vazio, 1980), “Henrique IV” (Enrico IV, 1984), “The Prince of Hombourg” (Il principe di Homburg, 1997); “The Nanny” (La Balia, 1999), e “L’ora di religione – Il sorriso di mia madre, 2000”
Cineasta político, comprometido e antifascista, o italiano questiona constantemente a violência das instituições, particularmente a família no seu primeiro filme e em “China Is Near” (“La Cina è vicina“, 1967); o exército com “Victory March” (Marcia trionfale, 1976); a saúde no documentário “Fit to Be Untied” (Matti da slegare, 1974): e a igreja em “In the Name of the Father” (“Nel nome del padre“, 1971) e “My Mother’s Smile” (“L’ora di religione: il sorriso di mia madre“, 2002).
No seu mais recente filme, “Rapito” (“Kidnapped“), o realizador volta a colocar o foco na igreja, ao contar a história de Edgardo Mortara, um menino judeu que no século XIX é sequestrado para ser criado como cristão, o que desencadeia uma batalha política e protestos generalizados, quer em Itália como noutros países.
“O meu interesse neste filme era contar a história deste rapaz que foi raptado pela Igreja, na figura do papa Pio IX, através do batismo”, disse Marco Bellocchio ao C7nema em Cannes. “Este género de raptos eram muito comuns na época. Começaram no século XVI e duraram até 1858 (século XIX), quando aconteceu o caso do Edgardo. Tudo se baseia num princípio associado ao batismo, ou seja: quando és batizado, pertences à igreja e tens de ser educado conforme os seus ensinamentos católicos. O poder da igreja era enorme. As pessoas protestavam, mas era impossível haver uma reversão, pelo menos até ao caso do Edgardo. A razão pela qual o caso do Edgardo trouxe um enorme escândalo foi porque coincidiu com o fim do pontificado e da ligação da igreja ao estado. Os protestos foram generalizados e, até Napoleão III, um tradicional protetor do Vaticano, criticou o sequestro da criança e pediu a devolução da criança aos seus pais. Porém, nesta altura, o papa disse que não podia fazer isso pois era inconcebível para a igreja católica negar o princípio da irreversibilidade, A criança foi batizada, logo os laços familiares eram menores perante o desígnio da igreja”.

Mesmo com o escândalo, o Papa em questão, Pio IX, chegou a ser beatificado pela Igreja Católica, algo que para Bellocchio foi um absurdo. “Isso não foi só considerado um insulto, mas um crime, para a comunidade judia.”, explicou o cineasta. “Duvido que alguma vez seja transformado em santo, pois o papa atual é muito mais cauteloso com estes temas. Além disso, para serem considerados santos pela igreja é preciso provar que o milagre. E não basta uma situação, são precisas duas ou três”, completou o realizador entre risos. “As entidades católicas já pediram perdão aos judeus pela forma que lidam com eles ao longo de vários séculos, mas nunca pediram por este caso em particular”.
Recordamos que Steven Spielberg chegou a ter na agenda um filme sobre o caso Edgardo Mortara, mas o projeto foi cancelado devido ao facto do norte-americano não ter encontrado um ator jovem que achasse que preencheria bem o papel principal. Foi após este abandono que Bellocchio decidiu avançar com o filme, contando com a ajuda de Susanna Nicchiarelli – responsável por “Nico, 1988“, “Miss Marx” e “Santa Chiara”. “A Susana ficou muito impressionada com a história do Edgardo. Creio que ela é como eu, ou seja, não é ateia e tem uma abordagem secular com as coisas. Ela trouxe uma paixão enorme e entusiasmo para esta produção”, disse Bellocchio, que se inspirou muito na pintura italiana para trabalhar a estética do seu filme.
“Rapito” está na corrida à Palma de Ouro no Festival de Cannes e poderá dar a Bellocchio a primeira premiação no certame.

