Muito longe de qualquer personagem que já tenha interpretado na tv ou no cinema, Bruno Gagliasso brilha ao lado de Seu Jorge no filme “Marighella“, o qual estreia finalmente em Portugal, mas continua inédito no Brasil.
Homem do regime ao serviço da ditadura militar, “um racista, oportunista, a escória da História” como Gagliasso o define, Lúcio é o principal agente na caça ao guerrilheiro Carlos Marighella (Seu Jorge), assassinado pela ditadura militar e que deixou um legado que se estendeu por diversas gerações.
Foi em Lisboa, no Cinema Nimas, onde vai estar nas próximas noites a apresentar sessões especiais do filme, que falamos com este ator que atualmente anda por Espanha a filmar uma produção para a Netflix.
Falámos com ele sobre a construção da sua personagem, inesquecível e marcante, de como foi incorporar o tipo de homem que ele afirma “combater” no dia a dia, da situação do Brasil, entregue a centenas de milhares de mortos pela pandemia, mas também sobre o seu estatuto de estrela das redes sociais, onde só no Instagram acumula perto de 20 milhões de seguidores.

Antes de entrar no cinema e no “Marighella” propriamente dito, uma pergunta diferente. Como é ter 20 milhões de seguidores no Instagram?
Uma responsabilidade, principalmente porque se não soubermos usá-lo, ele vira-se contra nós.
Acha que agora com a “cultura do cancelamento” está mais complicado gerir isso? Tem muito cuidado em tudo o que publica?
Sempre tive a preocupação do que falar, mas não no que falar com a preocupação em ser cancelado. Mais em que tipo de filme vou indicar, o que quero que as pessoas vejam e saibam de mim por mim. A minha preocupação não é ser cancelado, mas sim falar o que realmente sou. Quando trabalhamos com a verdade e com a nossa essência, tudo é possível.
Por exemplo, este “Marighella” é um filme que divide as pessoas no Brasil, da mesma maneira que o país está muito dividido politicamente. Isso não lhe trouxe nas redes sociais críticas e ataques?
Essas pessoas não me seguem. E não faço questão que me sigam (risos). Não podes deixar de ser quem és por conta do que as pessoas querem que sejas.
Mas há muitas personalidades que fogem das questões políticas, no seu caso é o contrário. Ainda agora em janeiro disse que o Bolsonaro era um merdas”. Diz isso com um à vontade porque acha que temos de ser políticos na vida?
Para mim, ser ator é um ato político. Fazer um filme como o “Marighella“ também é. Você não se posicionar, em cima do muro, é posicionar-se.
Sim, dizer que não faz ou não se interessa por política é um ato político em si…
Óbvio. Você não ser nada é ser algo. Para mim é muito claro. Eu não saberia conviver, existir ou ser se não expusesse o meu ponto de vista. Isto já não tem a ver com a política, tem a ver com humanidade. Já extrapolou [esses limites] e este filme mostra o quão é atual. Mostra tudo o que estamos a viver.

Sim, aliás, quando passou pelo Festival de Berlim em 2019 ficou muito emocionado com a forma como teve de lidar com a sua personagem. Como foi esse momento em Berlim, a primeira vez que o filme é exibido, e aquela reação?
Foi muito emocionante. Não estavamos a concorrer ao festival porque o filme não estava 100% pronto. Foi uma emoção muito grande, todos nos emocionamos. Desde o público à equipa, ao pessoal do festival, é um filme muito forte.
Foi a primeira coletiva (conferência) de imprensa e a primeira vez que pude falar que esse filme e essa personagem teve um peso muito forte na minha vida. A minha filha tinha acabado de chegar e eu interpreto alguém extremamente racista, oportunista, o que chamo a escória da História.
Há uma fala do filme que é muito forte para mim: “se eu mato preto, eu mato vermelho”. Tirar de mim esse sentimento, tendo uma filha negra, foi muito forte.
E estar a contracenar com o Seu Jorge, pessoa que a minha filha adora, foi muito impactante. Fiquei muito emocionado. Nesse dia chorei para caramba (risos)….
Este é um filme que tenho a certeza que os meus filhos vão ter muito orgulho em saber que fiz.
E como é que trabalhou essa personagem, para além do que estava no roteiro? Houve algum tipo de investigação, por exemplo junto das pessoas que estiveram do outro lado da tortura?
Não foi preciso, a História está aí para isso. É muito claro: há documentos, filmagens, fotos, mesmo que tenham tentado esconder ou apagar [isso]. E mesmo que o nosso governo e os atuais governantes tentem endeusar esses torturadores, a mim isso só causa nojo e angústia. O maior estudo foi aprofundar-me nesses sentimentos. Não precisei conversar, está tudo nos livros. É tudo muito claro e é impressionante ver todo esse negacionismo.
Mas não surpreendente, já que hoje em dia até vemos terraplanistas… (risos)
Exatamente (risos). É impressionante. A melhor forma foi mesmo aprofundar-me desses sentimentos. Como a minha personagem existem várias pessoas. em Brasília, no Rio de Janeiro, etc…
Emocionalmente, foi o papel mais difícil que teve até hoje?
Foi! Sem sombra de dúvidas! Muito doloroso, desgastante, mas muito importante pois sabia a responsabilidade que estava a assumir. É uma personagem completamente diferente e oposta do que prego e do que sou. Combato esse tipo de gente.
Incorporar e interpretar um causou-me muita dor, mas ao mesmo tempo era necessário. Tanto que fiquei longe da minha família por três meses. Não levei-os para São Paulo para poder mergulhar [nessa personagem/filme]. Foi um trabalho profundo.

E como foi a colaboração com o Wagner Moura? Chegou mesmo a dizer numa entrevista que ele é melhor como realizador que ator.
Sim [risos]. Ele riu muito. Foi lá em Berlim. Acho que ele tem toda a sensibilidade de um ator. E não sou só eu que acho isso, mas todo o elenco. Surpreendeu-nos a todos e a melhor prova disso é ver as pessoas quando assistem ao filme.
Está satisfeito com o resultado final?
Acho que vou ficar satisfeito quando o filme for visto por tanta gente. É um filme necessário. É preciso ser visto. Vai ser visto em novembro no Brasil. Foi adiado por causa da pandemia. Os cinemas estão todos fechados.
Assustam muito as notícias que vamos tendo do Brasil…
E é real.
E isso tem afetado também a vossa produção local, para além dos problemas que já estavam a ter com a Ancine…
Sim, sem dúvida, mas o cinema é muito unido e faz história também. Uns dão força aos outros, já que o governo não dá. Essa pandemia não podia ser assim no Brasil. 450 mil mortos. porquê? Por conta do negacionismo, do investir dinheiro da maneira errada. Não é que não haja dinheiro para comprar as vacinas, mas sim que esse dinheiro foi gasto comprando remédios cientificamente comprovados que não funcionam. É por isso que a situação está desgovernada.
O Bruno trabalha para a tv brasileira, para cinema e agora também para o streaming, onde prepara a série “Santo”. Existe uma grande diferença em trabalhar para um streamer, em termos de ritmo de trabalho, meios de produção?
Essa série é o meu primeiro trabalho para a Netflix. E é uma produção espanhola. Estou a achar muito parecido ao que foi feito no “Marighella“. É um trabalho bem artístico, bem pensado e programado. Não dá para generalizar, pois sinto que cada produção tem o seu mecanismo. Percebo isso vendo os meus colegas.
Há alguma característica especial, quando lhe oferecem um papel, algo que o atraia mais a um projeto? Neste caso do “Marighella“é óbvio. Ainda há pouco disse que era um papel que tinha de fazer e que se orgulha que os seus filhos vejam. Mas em geral, o que o move?
Acho que hoje em dia escolho [os projetos] muito a dedo. Tem que me tocar. Quero que as pessoas se emocionem. Quero que a discussão seja parte de um movimento. Quero que as pessoas saiam ou desliguem a televisão a discutirem o assunto. Esse é o legado que posso deixar através da arte para os meus filhos. Esse filme é por eles. Penso no futuro deles e por isso passas a fazer coisas que te enriquecem como ser humano.
E por falar em ser humano, voltando ao filme, como se filma aquela cena de tortura final, em que ouvimos alguém dizer: vocês estão a matar um brasileiro, um patriota…
Até estou a arrepiar-me de me lembrar dessa cena.
Emocionalmente, como se gere a criação dessa cena?
Ali foi muito díficil, em que ele tortura e mata e diz “menos um patriota”. “Menos um patriota” debochando… A minha personagem achava que era patriota, ele diz isso ao embaixador americano.
É igual ao que vivemos hoje. O patriota que acha que é patriota, mas que de humano não tem nada. E depois temos os que de facto queriam algo para o futuro, para o país. É difícil, este é um filme que vai fazer muita gente pensar.
E que ainda o arrepia só de pensar nele…
Sim e já fiz o filme há três anos.
Além dessa série para a Netflix, tem algo mais agendado para o futuro?
Estreia agora no Brasil, na semana que vem, o “Loop”, que também passou por cá no Fantasporto. Em novembro estreia no Brasil o “Marighella” e, no ano que vem, no primeiro semestre, deve estrear a série “Santo”. Tenho um outro projeto como produtor executivo que não posso falar já.
E como disse aquilo do Wagner como realizador, tem essa ambição de passar para a direção?
Tenho muita vontade. Eu produzo e gosto, mas quero esperar mais um pouquinho.

