No meio de um temporal, um jovem num carro saca uma arma. Bem perto, Txato (José Ramón Soroiz), empresário do ramo dos transportes de uma pequena cidade de Guipúzcoa, toma o café e despede-se de Bittori (Elena Irureta), a sua esposa. A câmara fica com ela e, alguns segundos depois, fora do campo, são ouvidos três tiros. A mulher vai até a janela e vê o corpo do marido caído na calçada, saindo tresloucada porta afora…
Esta primeira cena de “Pátria“, primeira série produzida pela HBO Espanha, remete-nos a uma situação no passado, até porque a série tem o seu presente no momento em que a ETA abandonou o conflito armado após 52 anos de existência. Nesse período de atividade, contam-se 864 assassinatos e 709 detidos em prisões, mas é a morte de Txato em particular que funciona como o detonador do enredo deste projeto, já que após ter abandonado a pequena localidade depois da morte do marido, Bittori regressa novamente ao local “em tempos de paz” para descobrir quem foi efetivamente o assassino do marido.
Baseado no livro de Fernando Aramburu, que além de ser adaptado a série também teve direito a uma versão em banda-desenhada, a chegada de “Pátria” é um evento maior no País Basco e em toda a Espanha. Por toda a cidade de San Sebastián, durante a realização do seu festival de cinema, onde a série teve a sua estreia mundial, todos falavam dela: “Fomos espreitar na zona velha da cidade o que podíamos durante as filmagens de ‘Pátria’. No fundo, fomos rever coisas que assistimos em crianças e nos marcaram“, explicou-nos Jone, habitante de Donostia, nome da cidade em basco/euskera.
Adaptar a novela
“Não vou dizer que era uma novela fácil de adaptar, mas tinha muitos elementos que facilitam a sua adaptação a uma série de TV. O mais complicado era manter os saltos temporais, que para mim eram também essenciais de manter na versão televisiva. Creio que o tempo vai esculpindo as personagens à medida que passa, vai modificando-os. Era muito importante essa transcrição da força do tempo.”, explicou ao C7nema o argumentista e showrunner de “Pátria”, Aitor Gabilondo, que comprou os direitos de adaptação do livro de Fernando Aramburu, ainda antes dele ser lançado. “A princípio nem sabia se o livro ia ser sucedido, nem se conseguiria convencer alguém a adaptá-lo. Progressivamente transformou-se num fenómeno de vendas, depois num fenómeno social e depois em algo que já nem sei como chamá-lo. (…) Emocionalmente, esta história é reconhecível para todos. Não apenas a história, mas os lugares, as personagens, as vozes. Todos conhecemos Mirens, Gorkas, Joxe Mari e Bittoris.”
Sensibilidade e bom senso…
“Tudo é reconhecível, mas tínhamos a responsabilidade de ter o tacto e sensibilidade para contar a história com precisão”, explica-nos Aitor Gabilongo, que ao lado das duas protagonistas da série, Elena Irureta e Ane Gabarain, frisam que depois de tantos anos ainda há muitas feridas que continuam abertas: “Ainda estamos todos a digerir esses tempos. Estamos no século XXI, está tudo muito mais rápido, mas quem sabe ainda não passou o tempo suficiente. Espero que esta seja uma boa forma artística para ajudar nessa passagem.”
Reconhecendo o poder do tema e o diálogo que a série pode gerar, o showrunner espera que o seu projeto possa ter “um efeito catártico” e até “terapêutico” no País Basco: “São personagens de ficção reconhecíveis que te fazem questões incómodas. Eu acho um milagre que nesta altura da vida uma simples série de televisão gere este burburinho e questionamento. […] há muitas histórias ainda por contar, de um lado e outro do conflito”.

