A alemã Miriam Bliese esteve em Lisboa na Kino-Mostra de Cinema Alemão para apresentar o seu As Componentes do Amor (Die Einzelteile der Liebe)
A história não é nova e ainda no ano passado fomos presenteados com Marriage Story: um casal, uma separação e um filho pelo meio. É um tema que o cinema continua a apresentar, com mais ou menos intensidade, unicidade e paixão. Tudo isto não falta nesta primeira obra da cineasta alemã, que nos confessou em entrevista que adora colocar elementos estranhos a abanar convenções. Por isso mesmo, ouvimos baladas doces e sentimentais, com melodia cativante (música Schlager), que funcionam nos antípodas com o tom duro do afastamento e do sofrimento de um casal em guerra pela custódia do filho.
“Todos nós temos esta visão romântica do amor, como ele é, como devia ser, apaixonante e eterno, e depois o que experienciamos na vida, especialmente quando temos crianças, não é nada como isso“, explicou-nos Miriam, acrescentando que “existem contradições que não conseguimos resolver” e que isso era uma das coisas que queria deixar bem explícito no seu filme.
Outra curiosidade da obra é que, tal como a sua curta At The Door (2012), passa-se quase exclusivamente à porta do prédio onde a protagonista vive, dando à fita uma aura teatral: “Comecei no teatro e sou muito influenciada pelo teatro. Uma das coisas que gosto muito no storytelling do teatro é que podemos nos concentrar nos principais aspectos [sem pensar no espaço]. Eu queria isso para a minha história, que tudo se concentrasse mais nos diálogos, nas mudanças dos gestos, nos visuais“.
Por outro lado, a realizadora diz que essa opção funciona também para escapar à intimidade desse casal: “Eu queria mostrá-los neste espaço intermédio, este ‘meio’ entre eles, quando não estão na cama ou na mesa da cozinha. Sendo em público, eles têm de se relacionar de maneira diferente“. Outra opção curiosa é a forma anacrónica como que é apresentado o início da sua relação e o depois do final, com a luta pela custódia. O que aconteceu pelo meio, que os levou ao afastamento, isso fica para cada um de nós imaginar.
“Queria deixar isso para o espectador preencher, criar a sua própria linha temporal“, diz a realizadora, afirmando que nunca desejou uma linearidade para o seu filme: “A verdade de uma história de amor e da separação é diferente para cada um dos envolvidos“, que relembram as coisas que aconteceram cada um à sua maneira.
No meio deles está sim o filho, refém de uma guerra, mas que nunca foi opção de ser os olhos que seguimos ou o ponto de vista por aqui. “É mais interessante seguir o olhar dos adultos“, explica Miriam, adicionando que o que pretendia era apresentar a forma como os adultos tentam fazer o “correto”, mas erram muitas vezes: “Como vives uma separação como adulto é muito mais complexo e complicado do que pensas quando és criança“.
Sobre a sua maneira de lidar com os atores – Birte Schnöink e Ole Lagerpusch -, Miram confessa que não deu muito espaço de manobra para eles fugirem ou alterarem o texto. “Houve um casting, ambos são conhecidos no teatro, mas não no cinema. Eu sabia que tinha de trabalhar com atores de teatro, pois as minhas cenas foram escritas de forma teatral, assentando muito nos diálogos. (…) Havia algo especial neles, que não tinha a ver com a sensualidade, mas mais a nível do humor e bagagem intelectual. (…) o guião foi escrito exaustivamente e dou muita importância aos diálogos. Claro, ensaiamos sempre e se as coisas não funcionarem, mudamos, mas apenas pequenas coisas, uma linha ou duas que pulamos”.
O futuro
Apesar de estar a escrever um novo guião, Miriam acha que é demasiado cedo para falar dele, preferindo assim manter-se em silêncio e não dando detalhes. O que podemos adiantar é que a ideia é para cinema, embora a cineasta não ponha de lado a hipótese de trabalhar para qualquer plataforma de streaming ou TV.
Sobre a importância e pressão para o seu segundo filme, que muitos cineastas consideram fundamental para as suas carreira, Miram mostra-se tranquila e diz que a pressão existe “constantemente” e que já no primeiro filme vivenciou-a. “Toda a gente falava disso no primeiro filme e agora ainda dizem mais no segundo. E haverá certamente num terceiro. Há sempre novas expetativas e em algum ponto vou falhar (…) tento me distanciar dessa pressão“.
Reconhecendo que é mais fácil financiar os filmes na Alemanha, em comparação a outros países, Miriam explica que para se fazer cinema no território é quase sempre necessário ter também apoio da TV: “Nem sempre é complicado, mas defender as tuas ideias pode ser mais complexo se quiseres o financiamento da televisão“.
Sobre ambições, a realizadora confessa que na sua mente está um filme policial, até porque é uma grande fã de nomes como Georges Simenon, o famoso criador do Inspetor Maigret. “Gostava de fazer um policial, mas de uma forma diferente”, conclui.

