Em O Imperador de Paris seguimos a história de Eugène-François Vidocq, o criminoso que se transformou em criminalista
Com uma carreira intensa desde os anos 90, Jean-François Richet deu primeiro nas vistas em Gangs da Minha Cidade (1997), assinado posteriormente trabalhos como o remake de Assalto à 13ª Esquadra (2005) e o díptico Mesrine (Instinto Assassino; Inimigo Público Nº 1).
Agora surge nos cinemas com O Imperador de Paris, filme onde volta a colaborar com Vincent Cassel, ator que para além de ter dado vida a Mesrine nas duas obras que Richet trabalhou em 2008, surgiria também noutro filme seu: Um Momento de Perdição (2015).
O cineasta passou por Portugal durante a Festa do Cinema Francês e tivemos a oportunidade de falar com ele sobre esta nova obra, a qual ele caracteriza como um filme histórico que ressoa nos tempos atuais, em especial pela perda da “meritocracia” como elemento vital conquistado com a Revolução Francesa. Mas falamos igualmente de determinismo social, rebeldia, pragmatismo e novas tecnologias.
Disse há uns tempos numa entrevista, que criar um projeto diferente na indústria hoje em dia é um “ato de resistência”. Acredita que o tipo de filmes que faz são um ato de resistência?
Sim, porque é difícil fazer filmes históricos. Não são comédias, falamos um pouco da França, da sua política e ressoam nos dias de hoje. Lembro-me do [Jean] Renoir, que falava da sua época, como por exemplo no A Marselhesa. Esta é a minha maneira de falar da França e da sua época, de tudo o que perdemos, nomeadamente a meritocracia. Mas é um filme que se passa na época de Napoleão. E sim é um ato de resistência. Há muitos filmes históricos. ambiciosos, populares. Muitos deles em modo comédia, pois fazem muito dinheiro. A via mais fácil seria essa, fazer uma comédia. A via mais difícil era fazer o Imperador de Paris.
No seu cinema gosta sempre de personagens rebeldes. Mesrine, Vidocq…
O De Gaulle dizia – creio que é ele – que a “liberdade é poder dizer não”. Por exemplo, a personagem do Mesrine, moralmente, não é boa. O Vidocq é alguém que diz não à sua situação social. Que diz não ao Determinismo social. Detesto o determinismo social.
E gosta bastante do Vincent Cassel…
Sim, fiz dois Mesrine com ele, Um Momento de Perdição e agora O Imperador de Paris. Já são quatro filmes, não é por acaso. Se contarmos pelo número de filmes pode-se dizer que é um ator fetiche, mas na verdade em França não existem muitos atores de 45-50 anos populares, credíveis numa cena de amor ou de violência como ele. O Cassel faz tudo isso.
E viu os outros filmes mais antigos sobre o Vidocq, como por exemplo o do Pitof?
Não vi, mas sei que é um filme do género fantástico. E só por isso já não tem nada a ver com o verdadeiro Vidocq.
E como é trabalhar e gerir um elenco com nomes como o Cassel, a Olga Kurylenko, Denis Menochet e Fabrice Luchini?
Foi formidável. Como trabalho com essa gente toda? Todos temos personalidades diferentes e aquilo que nos une é que vamos todos fazer o mesmo filme. Tenho de lhes contar a minha visão e esperar que todos se juntem para que ela surja em cena. (…) Raramente improvisam, mas leem o texto de uma forma que lhes apela. Claro, se há um silêncio, ou um tom cómico que acrescenta algo a cena, aproveito. É isso que gosto nos atores..
As cenas têm um início, um meio e um fim. Podem mudar uma outra palavra, mas no final a cena tem de ter a força que desejo. Não sou uma pessoa que se chateia por mudarem frases, mas que vê globalmente as coisas.
Há um diálogo entre o Cassel e o Luchini que reflete muito o sentimento da luta dos Coletes Amarelos hoje em França. E, curiosamente, o filme foi feito antes desse movimento surgir…
Falar de uma problemática de 1810 não me interessa muito. O que me interessa é contar essa mesma problemática e o seu reflexo hoje. O que me motivou muito no filme foi que na época do Napoleão e da Revolução Francesa em geral, tudo era possível com mérito, com a meritocracia. Podiamos ser filhos de camponeses e ser Marechais de guerra. Podíamos ser bandidos e tornarmo-nos chefes da polícia. E quase todos os Marechais de França eram de classe baixa. A Revolução Francesa proporcionou isso. A nação da Liberdade e Igualdade. Foi o povo que o escolheu Napoleão, após a Primeira Campanha dele em Itália. Tudo era possível nessa época.
Agora, em 2019, falamos em República e não em mérito. Uma república francesa sem meritocracia, não o é realmente. Não é só em França que isto acontece, é em todo o lado. É a mundialização…
Trabalhou em vários filmes em inglês, como o Blood Father e o Assalto à 13ª Esquadra (remake). É diferente trabalhar em França dos outros países?
O meu trabalho é o mesmo: a mise-en-scène, como um ator se posiciona e movimenta. Onde coloco a câmara, também é igual. Mas a relação com as pessoas – tirando os atores – é diferente. Quando fazes um filme nos EUA sentes a presença do produtor. Sempre tive a sorte de fazer os filmes que quis, e até ter o final cut, mas sinto que algumas coisas escapam-me. Gosto sempre de ter uma cloaca organizada (risos). Somos latinos, eles anglo-saxónicos (risos).
Em 1997 teve sucesso com o Gangs da Minha Cidade. Qual a principal diferença do Richet dessa época para o de agora, mais de 20 anos depois?
Algumas diferenças, para começar tenho uma filha pequena. Ganhei em técnica, perdi em energia.
E o espírito, o combate?
Tornei-me pragmático. É triste… Bem, na verdade, toda a gente tornou-se assim. Menos naif. É triste. Naquele tempo acreditamos que somos capazes de tudo, mas não é assim…
Estou aqui a ver e tem um novo projeto. Twice?
Sim, mas não. O Twice ia fazer, mas a atriz engravidou e o filme não avançou. Por isso, não filmarei esse. Tenho é um filme de guerra, que se passa na Segunda Guerra Mundial, que me propuseram. É um filme americano. Para além disso, escrevi um filme policial contemporâneo, que é qualquer coisa entre o Gangs da Minha Cidade e o Mesrine.
E se lhe propusessem fazer uma série, por exemplo para a Netflix. Faria?
Se me propusessem, sim. Sempre quis fazer uma série histórica, mas ainda não escolhi o tema certo.
E o que acha desta discussão entre cinema e novas plataformas. Acha que o streaming vai matar o Cinema ou surge para ajudar os cineastas a fazerem os filmes que já não conseguem na indústria de cinema?
É cedo para dizer. Talvez daqui a 3 anos possamos falar disso. É extraordinário o que a Netflix fez com o Scorsese. A Netflix veio ter comigo, por causa de um filme. Disseram: faz o que quiseres, damos-te 15 milhões de euros. Isto não existe em lado nenhum, só a Netflix pode fazer isso. É uma carta branca que esta plataforma te dá.
Se eu tiver um projeto com um ADN Netflix, que é algo bastante vasto, penso que trabalharemos em conjunto. Mas agora ainda coloco a questão: se posso fazer no cinema, porque não o faço? Veremos daqui a um ou dois anos.
Quanto à morte do cinema, não sei. Há duas semanas liguei a TV na Netflix e o filme que me era aconselhado era o Mesrine. Foi um enorme sucesso em França e no final está no catálogo do serviço de streaming. Todas as gerações mais jovens vão vê-lo na Netflix e não no cinema.
Sim, mas o que pensas de as pessoas verem o Mesrine, por exemplo, num smartphone?
Eu não o faria, mas já vi muita gente nos transportes a ver. Entristece-me, aliás, já o digital deixa-me assim. As redes sociais o mesmo. Tenho uma filha e ela nunca viu isso ainda. Não tem televisão, nada. São coisas que estupidificam as crianças, que atrofiam a sua imaginação.
Mas são coisas contra as quais não conseguimos lutar. Eu, por exemplo, já nem vejos filmes em TV LED.
Voltando ao Imperador de Paris, senti no filme qualquer coisa dos Intocáveis do Brian De Palma…
Mas isso é fabuloso! É o meu cineasta preferido. Adoro o Perseguido Pelo Passado (1993), é um filme incrível. Adoro a temática de ser sempre perseguido pelo passado. É sinistro. A temática, a mise-en-scène, a montagem. Vou contar-lhe uma coisa, o montador desse filme é o Bill Pankow, que contratei depois para o Mesrine por causa desse filme.
Não sei se em todas as eras é assim, mas li uma entrevista do Martin Scorsese onde ele dizia que sem a Netflix não conseguiria fazer o seu filme (O Irlandês). Nós crescemos e fazemos cinema a amar Scorsese, o De Palma. Como é possível que isto lhe aconteça a ele? Pensei e refleti sobre o assunto e na verdade, antigamente existiam amantes de cinema, cinéfilos, mas agora existem comedores de filmes. Pessoas que se alimentam de filmes em série. No metro, vi uma criança que assistia uma série no telemóvel e ao mesmo tempo ia trocando mensagens que apareciam em pop up. Incrível.
Já que falou do Scorsese, uma pergunta. Ele disse recentemente que os filmes da Marvel não eram cinema. Concorda?
Não sou grande fã [dos filmes da Marvel], pois aborreço-me facilmente, mas é cinema, pois está no grande ecrã. E não podemos dizer que são filmes mal feitos. Por exemplo, o Capitão América: O Soldado do Inverno é um filme de 150 milhões de dólares e tem escolhas na mise-en-scène que diria da Nouvelle Vague…
Ele fala mais no sentimento que os filmes transportam, na falta de risco e da alienação da realidade…
Nesse aspeto sim. Estamos numa de divertimento [como fim] e nisso tem razão. Para mim, o cinema é simples: é num grande ecrã. Não importa a qualidade do filme. Não é Pasolini, mas são filmes bem feitos. É a época que vivemos.

