Delphine et Carole, insoumuses é um documentário vibrante e fascinante em torno da mítica atriz Delphine Seyrig e da videasta Carole Roussopoulos. As duas, individualmente e conjuntamente, abalaram o sistema com as suas reivindicações feministas, em particular nos anos 70. Ellen Burstyn, Maria Schneider, Chantal Akerman, Marguerite Duras e Jane Fonda são apenas alguns dos grandes nomes do cinema que surgem neste trabalho a falar sobre a sociedade patriarcal e a forma como esta influia nas suas carreiras cinematográficas.
Um documentário sentido, divertido e urgente, até porque, como a realizadora Callisto McNulty nos explicou em San Sebastián, a luta pelo feminismo é um processo constante. Vale a pena descobrir este trabalho, até porque este é “um filme que fala de duas mulheres num contexto muito específico, mas ao mesmo tempo diz respeito a todas as mulheres. E aos homens, inclusivamente.“
O que a levou a fazer este Delphine et Carole, insoumuses?
Tudo começou em 2009, quando a minha avó, a Carole Roussopoulos, começou um projeto de filme sobre a Delphine Seyrig, um filme de arquivo. Ela tinha uma maquete do que queria fazer, onde mostrava que queria celebrar o compromisso feminista da Delphine, que não era muito conhecida em França. Ela era conhecida pela sua participação em filmes como atriz, mas não pela luta feminista. E depois de 2009, com os filhos da Carole, encontramo-nos no Centro Simone Beauvoir e eles queria fazer alguma coisa a partir dessa maquete. Inicialmente pensamos em terminar o trabalho que ela tinha começado, mas isso não tinha muito sentido. Como tinha descoberto várias entrevistas da Carole a falar em diferentes épocas e do seu compromisso com o feminismo, decidi integrar a sua voz e contar a trajetória das duas. Havia qualquer coisa no seu trabalho, uma energia, que impelia a colaboração. E assim decidi partilhar isso neste documentário.
Muitas das imagens que temos de mulheres a falar no documentário, são imagens delas do passado. Porque optou por isso e não, por exemplo, colocá-las a falar agora, como a Jane Fonda, por exemplo?
Eu queria que elas contassem a sua experiência pela sua própria voz naqueles tempos. No filme, a Carole diz mesmo que devemos dar a palavra às pessoas que têm os problemas. Eu dei voz a essas pessoas, sem voz off. Como a Carole e a Delphine estão mortas, queria que fossem elas mesmo (nesses tempos) a falarem por elas. E não queria de todo ter gente agora a falar. As chamadas “Talking Heads”. O material era demasiado rico, por isso optei por isso.

Carole Roussopoulos
E como foi a investigação e a reunião de material para o documentário?
Descobri entrevistas, uma delas de duas horas onde a Carole fala. Muitas entrevistas de TV e extratos dos seus próprios vídeos onde aparece. E tinha o Centre audiovisuel Simone de Beauvoir, em Paris, que tem tudo em formato digital. Aí vi tudo o que podia ver sobre elas. Quanto aos extratos dos filmes da Delphine Seyrig, tentei criar uma bela confrontação entre as bonitas imagens de cinema com as imagens em vídeo. A ideia era perceber porque não eram estas imagens consideradas valiosas e preciosas, pois também contam a história da Mulher.
Depois disso foi um trabalho de junção, de tricotar uma história a partir deste material. Felizmente tive comigo uma super editora, a Josiane Zardoya, que montou o filme. Nós focamos-nos nos anos 60.
Uma das coisas que adorei foi o início sarcástico, com a aquele “Chef” a descrever que as mulheres não cozinham “verdadeiramente”… Acha que hoje em dia é fundamental existir um documentário como este? Existe uma urgência em falar do feminismo, ainda?
Existe! Penso que existe uma urgência em falar das coisas como se fazia na época. Nos 60 e 70 os movimentos foram intensos, nos 80 não e nos 90 também não. Depois voltou-se à carga, e se está na moda o discurso feminista ainda bem. (…) Houve muita coisa que mudou de lá para cá, mas muitas outras coisas não mudaram. Algumas coisas até regrediram. Veja-se nos EUA, temos uma Lei contra o aborto que ressurgiu em cena….
E na Argentina esse é também um tema em debate….
Sim e em mais países. Apresentei o filme na Coreia do Sul, e pensava que estava num país muito liberal, onde o aborto era permitido. Não é! O feminismo precisa sempre de ser vigilante.
O feminismo não é uma moda como dizem, mas uma luta que tem de ser permanente, certo…
Sim, tenho acho que terá de ser assim. Mas voltando atrás, creio que as ações delas nos anos 60, os seus filmes, o seu tom – que transmitia algum radicalismo – passa melhor nos dias de hoje se formos criativos na forma de o mostrar.
E em algum momento considerou fazer uma ficção em torno delas duas? Convenhamos que são duas pessoas fascinantes que poderiam leva-la a pensar em fazer um filme sobre elas…
Acho que sou ainda muito nova para fazer uma ficção sobre elas. Talvez um dia, mas neste momento isso nunca se colocou.
E aquela ministra, que vemos no filme, a Françoise Giroud, é “qualquer coisa”. A discussão dela com o estilista misógino é surreal. O seu discurso são sinais de outros tempos?
Não creio. Veja, hoje temos uma ministra, a Marlène Schiappa, que até tem sido interessante [como Secretária de Estado para a Igualdade entre homens e mulheres), mas que defendeu um escritor francês, o Yann Moix, após este ter dito numa entrevista que depois dos cinquenta anos as mulheres já não são desejáveis. Ela defendeu-o, dizendo que cada um deve ter o direito de dizer o que quer. Não quero vir aqui atacar a Marlène Schiappa, ou até a Giroud, até pela posição impossível em que elas se encontravam/encontram, numa sociedade patriarcal. A Carole e a Delphine criticam-na, mas sabem que ela está nessa posição impossível, onde às vezes é misógina e masoquista.

Delphine Seyrig em India Song
E pegando agora no #MeToo, o que acha da posição de Catherine Deneuve e a sua “liberdade de importunar“?
É genial [risos]. Agora a sério, é chocante. Ela [Catherine] bateu-se na época pelo aborto [foi uma das signatárias do famoso Manifesto das 343] e agora rendeu-se. Não sei porquê ela deixou a luta feminista. E quando fala da “liberdade de importunar“, percebemos que é só uma frase para os homens importunarem as mulheres. (…) Creio que ela confunde as coisas, a liberdade, o consentimento, etc….
Como tem sido a receção nos festivais que tem visitado, como em Berlim? Sei que o seu filme vai estar em Lisboa [Doclisboa]…
Sim, vai, mas ainda não fui convidada para ir lá [risos]. Eu adoro Lisboa e adoro Portugal e estou muito contente do filme estar presente no festival. A fita tem viajado muito, até o mostrei na Argélia onde o aborto não é permitido. Foi muito interessante apresentá-lo lá, gerou uma bela discussão. Na Coreia do Sul, igual.
Sinto que é um filme que fala de duas mulheres num contexto muito específico, mas ao mesmo tempo diz respeito a todas as mulheres. E aos homens, inclusivamente.
E tem novos projetos? Um novo documentário?
Sim, um híbrido. Um documentário com elementos de ficção que vou correalizar com Anne Destival, com quem já tinha trabalhado no meu primeiro filme [Éric’s Tape (2017)]. Na verdade vamos, num palco, testar o feminismo de um grupo de homens brancos heterossexuais, “o grupo dominante”. Tudo a partir do manifesto S.C.U.M. da Valerie Solanas. É um texto muito bom, muito provocador. Muitas vezes, na filosofia e psicologia é a mulher que é incompleta, que é passiva e o homem completo e ativo. A Solanas reverte tudo isso. É um texto feito no final dos anos 60 bastante engraçado e radical. Nós vamos colocar os homens a reagir a certas frases do texto.
Quando pensa filmar?
Já começamos as filmagens, mas estamos ainda no início. Não sei quando vamos terminar.

