Assim se pode descrever de forma minimalista a experiência que é assistir a The Broken Circle Breakdown, um filme que demorou a ganhar projeção apesar de ter passado pelo Festival de Berlim. Triunfos no Festival de Tribeca (Atriz e Argumento) abriram caminho a uma maior reconhecimento, tendo o filme meses depois vencido o Golfinho de Ouro no Festroia.
Na véspera dos Prémios de Cinema Europeu, nos quais Veerle Baetens seria consagrada com a estatueta de Melhor Atriz, Felix Van Groeningen – o realizador – falou com o c7nema diretamente de Los Angeles, cidade onde de certa maneira já promove a sua obra de forma a conseguir a nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Antes disso, o filme ainda poderá ganhar o Prémio Lux, atribulado pelo Parlamento Europeu.
O tempo o dirá. Até lá, aqui ficam as palavras de um realizador que conseguiu lidar com temas tão sensíveis e dramáticos e criar uma das boas surpresas de 2013.
Como é que esta história, que se baseia numa peça, chegou até si e em que momento disse: «Tenho de fazer isto»?
Eu vi a peça porque o Johan Heldenbergh é um amigo meu e porque gosto de ir ao teatro de vez em quando. Estava bastante entusiasmado, pois a encenação que o Johan trabalhou antes desta era muito bela. Estava mesmo muito feliz em vê-la e até já tinha ouvido maravilhas, apesar de não saber nada do que se tratava. Depois de a ver fiquei tão impressionado que pensei logo, “será que é possível transformar isto num filme?». Depois fui vê-la outra vez, mas esqueci-a porque achava que não era possível levá-la ao cinema. Ela era demasiado boa e não a queria transformar num filme mau. Porém, fiquei a remoer-me e seis meses depois reli o texto, sem rever a peça, sem ter uma imagem dela e sem ouvir a musica. Senti-me tão comovido que pensei, tenho mesmo que tentar. Ela é mesmo muito boa. Aquilo que evoca, os textos do Johan. Por isso avancei.

Foi difícil transformar a peça num filme?
É sempre difícil fazer um filme As adaptações são difíceis por outras razões em relação aos argumentos originais. O que é bom numa adaptação é que viste ou leste o original e é por isso que o adoras e a queres levar ao cinema. Isto porque numa primeira fase estás tão envolvido na história que consegues, pelo menos eu consigo, apontar as razões porque queres adaptá-la. É difícil explicar esse sentimento. É uma sensação. É algo que acontece Parece que tudo se junta e tu despertas: “isto é mesmo bom e tenho de trabalhar nela”.
Por outro lado, é frustrante quando adaptas algo. É bom porque sabes o que queres fazer, mas é igualmente frustrante porque é preciso muito tempo para, pelo menos, transformar o novo material em algo tão bom como o original. Ou que pelo menos em algo que se aproxime da sua qualidade. A parte difícil é que tens de encontrar uma nova lógica. Não podes seguir a mesma lógica, os caminhos, do original. Estamos a falar de outro meio que não o cinema. Trabalhando no duro e nunca desistindo chegas lá e isso é realmente recompensador.
A Veerle Baetens e o Johan Heldenbergh estão extraordinários. Sei que o Johan escreveu a peça e que era uma escolha natural para o papel, para além de já ter trabalhado consigo no Steve + Sky e no The Misfortunates. Como foi escolhida a Veerle?
Nós fizemos audições e foi bastante louco o que ela conseguiu mostrar-nos. De certa maneira até nos assustou. Ela cantava lindamente, ela interpretou as cenas de forma emocional, mas o que ela conseguiu principalmente foi algo que nem eu tinha captado no guião, que na verdade ainda estava a escrever na altura. Ela adicionou um tom negro e louco à sua personagem que eu não tinha ainda pensado, e fê-lo de uma forma credível que me fez acreditar naquele casal, especialmente no ponto de ela e o Johan virem a ser tão bons. Eles são um casal apaixonante e não num único sentido. Eles têm de se equiparar muito bem em todas as situações possíveis e imagináveis. Aquilo que a Veerle (Elize) quer faz todo o sentido, até pela forma como o Johan é. Por outro lado, isto tinha de funcionar também noutra direção. Ele teria a certo ponto de ter medo dela, de a perder e de estar tão apaixonado que teria de ceder. Não sei, eu senti isso quando vi a Veerle atuar. Vi-a enlouquecer e também vi o Johan a ter medo dela. Por isso pensei, se a escolher tudo vai ser apaixonante
E como é que você e o Johan ajudaram a Veerle a moldar a sua personagem?
Nós não ajudámos apenas a Veerle. Nós ajudámos-nos uns aos outros. Foi algo que fizemos juntos. Falámos muito e ouvimos-nos muito. Eles começaram a ensaiar a musica e a ter grandes opiniões sobre isso, especialmente na forma como esta iria entrar no filme. Assim, fomos lentamente definindo as personagens e por vezes fizemos improvisações e entramos no campo das emoções. Acho que foi óptimo pois houve uma grande abertura e realmente confiámos uns nos outros. Acho que isso foi muito bom porque depois, quando estávamos já no set, ligámo-nos sempre a esses momentos. Quando te abres emocionalmente torna-se mais fácil depois trabalhar com toda a equipa já presente.
O filme lida com muitas emoções que nas mãos erradas podiam transformar esta história numa telenovela melodramática. Porém, conseguiu balancear muito bem os elementos…
Obrigado…
Nas situações mais trágicas, houve cenas difíceis de filmar?
Umas sim, outras não. Muitas vezes uma cena era profundamente emocional pelo que representava, por exemplo, o funeral, ou uma música triste. Essas foram realmente cenas bastante emocionais, mas não necessariamente difíceis de filmar. Outras foram muito difíceis porque era necessária muita energia e concentração para irmos até onde queríamos, especialmente nas cenas no quarto da filha, onde eles começam a discutir e a culpar-se um ao outro. Na verdade, eles querem-se ajudar mutuamente mas começam a culpar-se da situação em vez disso. No guião, a cena era ainda mais longa, por isso foi muito difícil filmá-la. Também é verdade que as cenas mais complicadas de filmar acabam por ser as mais recompensadoras e são essas que mostram porque queres trabalhar nisto, quer sejas realizador ou ator. Tu queres ter o controle sobre este tipo de emoções, queres tocar nelas, usá-las. É tudo muito difícil, mas o retorno é fantástico.
Também lida com a questão ciência/fé
Não. Bem, talvez sim. Acho que uso o tema como toda a gente. Eu estou algures no meio. Para mim não existe Deus, mas…. (longa pausa)…. em tempos difíceis é complicado mantermo-nos no lado racional das coisas. Eu já passei por isso e não consegues durante um período assumir facilmente que alguém desapareceu para sempre. É impossível. É demasiado difícil. Por isso dizes coisas a ti mesmo, enganas-te a ti próprio, falas com essa pessoa ou até vês sinais dela.. É algo muito humano. Claro que na tua cabeça sabes que estás a enganar-te. Eu nunca perdi um filho ou uma esposa, mas creio que quando isso acontece é inevitável entrares nesse campo.
O que o Johan fala na sua peça é mesmo sobre essa dualidade. No ser humano, mais conhecimento não significa maiores facilidades na vida nem respostas mais concretas a estas questões. Por vezes tens de regressar à base para entender e essa é a beleza das coisas. Na peça do Johan, e espero que também no filme, nota-se que a certo ponto ele escolhe os dois lados, pois assim demonstra que ainda estão ligados de alguma maneira
Porque optou por uma estrutura não linear da narrativa?
A peça de teatro inspirou-me a isso, pois desde o inicio – na encenação – sabíamos que estávamos perante um casal que tinha passado por uma tragédia. Isso funcionou muito bem. O filme é diferente da peça, mas eles também, e à sua maneira, iam à frente e atrás na história, mostrando os tempos de felicidade e os momentos da doença da criança. Isso transformou a experiência em algo muito belo, poderoso e repleto de todo o tipo de emoções.
O filme também teria de ser assim e posso dizer que foi um processo muito longo até chegarmos ao que puderam ver. O argumento já estava assim delineado, mas mesmo assim durante a montagem mudámos tudo. Não mudámos a identidade, mas sim toda a estrutura de cenas. Para mim era a única maneira de contar a história.

Felix Van Groeningen
Aposto que agora é um perito no género musical Bluegrass
Para ser honesto nem por isso. Quer dizer, durante dois ou três anos eu ouvi este género musical. Eu sou um pouco obsessivo e tento concentrar-me naquilo que preciso. Eu tentei saber o máximo que podia, mas há demasiada coisa para se saber sobre o género. Eu sou uma pessoa que consegue saber apenas pequenas coisas durante pouco tempo. Sim, eu ouvi Bluegrass durante dois anos, dois anos e meio, mas existe ainda muita coisa que não sei do género…
O Johan sim, ele é um verdadeiro expert em Bluegrass. Ele é o tipo de pessoa que sabe de tudo sobre tudo.
O filme tem ganho inúmeros prémios, até em Portugal, no Festroia. Está nomeado aos Prémios do Cinema Europeu e ao Prémio Lux. Esperava este tipo de recepção? Como se sente com tanto reconhecimento a nível mundial?
Eu estou muito muito feliz. Estou mais do que feliz. Estou extasiado. Não foi um filme fácil de fazer, quer dizer, foi óptimo, mas também muito complicado em certos momentos. Quando terminei o filme, este reconhecimento não foi imediato, levou algum tempo até um grande festival pegar nele. No início não parecia que ia ser tão sucedido e inicialmente até me sentia um pouco frustrado pois pensava, “como posso estar tão enganado?” Quando terminei o filme estava profundamente satisfeito com o que tinha feito, mas levou tempo até que as pessoas o vissem e entrassem nele. Por isso, quando as coisas começaram a ganhar dimensão foi um alivio, pois afinal eu não estava errado. Há algo de especial nesta obra. Por isso, sim. As coisas correram melhor do que alguma vez imaginei e estou muito agradecido por isso.
Consigo ver o The Broken Circle Breakdown na corrida ao Oscar. Que expetativas tem em relação a estes prémios?
É muito difícil responder. Estou actualmente em Los Angeles a mostrar o filme e realmente está a criar um grande burburinho. As pessoas estão a adorá-lo, a falar dele, está a ter uma grande recepção. Aqui entre nós, tudo isto é uma loucura, estes prémios, nomeações, escolhas. Nunca se sabe, ninguém sabe. A competição é forte. Estamos a competir com o mundo inteiro. Filmes que mereciam ser também premiados por outras razões, por isso vai ser difícil, mas estou ansioso para ver se vai funcionar. Se não funcionar eu não vou ficar triste, pois sei que tentámos e que talvez isso não estivesse destinado a acontecer. Bem, afinal sou religioso (risos) …
A verdade é que estou a divertir-me aqui, pois as pessoas estão a gostar. E é giro. Um ator de aqui disse-me que eu tinha de levar as coisas muito a sério se tudo correr bem, e não podia levar nada a sério se as coisas não funcionarem (risos). É isso que vou fazer…
Vamos imaginar um cenário. Um produtor americano quer fazer um remake do The Broken Circle Breakdown. Ele pede para você voltar a realizar o filme. Aceita?
Isto é muito simples. Primeiro, eu nunca farei um remake de um filme meu; Segundo, penso que nunca ninguém vai fazer um remake deste filme. Sim, as pessoas gostam do filme mas não é o tipo de obra em que alguém vai investir dinheiro na expetativa de vir a ser um sucesso de bilheteira. As pessoas só fazem remakes de coisas que podem fazer dinheiro. Não acredito que The Broken Circle Breakdown alguma vez pudesse ser transformado num filme de estúdio.
Está a trabalhar num novo filme?
Estou a trabalhar em dois filmes. Um é a adaptação de um livro da literatura norte americana. O outro é sobre a vida noturna na Bélgica, seguindo dois irmãos.

