Andrea Segre: «Uma política contrária à imigração traz sempre muitos votos»

(Fotos: Divulgação)

A imigração é um dos temas centrais de toda a carreira do realizadeor italiano Andrea Segre, cujo primeiro filme de ficção, o belíssimo Shun Li e o Poeta (Io Sono Li), estreou esta semana (19/09) nas salas portuguesas. Nele assiste-se à inesperada amizade entre uma oprimida empregada de bar, Shun Li (Zhao Tao), que venceu um Donatello, o Oscar italiano, pela sua performance), e um velho pescador (o ator sérvio Rade Serbedzija) de uma aldeia nas proximidades de Veneza.

Autor de vários documentários e com o seu segundo filme, La Prima Neve, estreado recentemente no Festival de Veneza, Segre esteve em Lisboa para o lançamento de seu primeiro trabalho, onde conversou com o C7nema sobre as mudanças ocorridas nos últimos anos em Itália em relação aos estrangeiros, sobre a política de imigração e sobre o seu novo trabalho de ficção.

Como é que tomou contato com a realidade que retrata no filme? Como foram as pesquisas relacionadas ao tema?

Eu comecei estudando sociologia e não cinema. Cheguei ao tema da imigração através desta disciplina e não o contrário. Depois abordei isso no cinema, fiz muitos documentários sobre a imigração da Europa de Leste e depois de África. Não é só uma questão de estudos, mas de experiência de vida, porque eu cresci numa Itália que não conheceu os estrangeiros. Depois houve uma enorme mudança e a minha vida esteve muito em contato com essa nova realidade. É uma forma de abordar o facto de a Itália ter passado nos últimos anos a ser um país multicultural.

Mas também não era contar só a história de uma pessoa que emigra mas também abordar o ser humano num momento de crise. Fazer isso é compreender melhor a própria natureza humana. Quanto à imigração chinesa, eu vivo num bairro em Roma, o Torpignattara, que contém muitos chineses, mas não só – também bengaleses e outros povos africanos. O meu primeiro contato com eles foi mesmo dentro do meu bairro.

Mas a comunidade chinesa costuma ser fechada…

Isso é o que se diz sempre da comunidade chinesa, mas isso mudou muito nos últimos cinco, seis anos. Na verdade ela costumava ser fechada por dois motivos. Em primeiro lugar, porque não dispunham de uma língua de origem colonial para se comunicar, como os povos africanos que assimilaram os idiomas dos colonizadores europeus. A outra razão é de ordem económica, uma vez que a comunidade chinesa está comercialmente muito ligada ao ramo da importação-exportação com a sua mãe pátria. Assim, não havia muita integração com os italianos.

Isso foi há alguns anos. Agora, há uma segunda geração de chineses que falam muitíssimo bem italiano – ate falam dialetos… E, claro, também ocorreram mudanças na economia mundial. Agora são os italianos que esperam trabalhar com os chineses. Mesma a história de Io Sono Li hoje não aconteceria da mesma forma, pois nos últimos dois ou três anos as coisas têm mudado. Eu escrevi o filme há quatro anos. Porém, na época em que fiz isto, um bar tradicional numa pequena vila de pescadores a ser gerido por chineses era uma revolução, uma coisa nova. Hoje até acontece um bar de chineses empregar italianos… São mudanças muito rápidas.

Todos os seus documentários tratam do tema da imigração. Acha que o problema tende a agravar-se com a crise económica na Europa?

Desde sempre houve imigrantes, as pessoas sempre vão atrás do trabalho onde ele existe. Mas em Itália, como no resto do sul da Europa, há cada vez menos imigrantes em função da crise. Os que hoje vão para Itália são os refugiados das guerras nos seus países. No último ano esse foi um problema importante no país por causa dos conflitos no norte de África, especialmente em países como Líbia, Egipto, Tunísia. A questão é que antigamente nós não quisemos construir instituições para acolhermos essas pessoas e, neste momento, a economia não nos permite fazer isso.

Por que acha que os governos europeus tomam medidas como as que denuncia em Mare Chiuso (*) e nada fazem para resolver situações como a que demonstra no filme?

Eles não tomam medidas porque não querem! (risos). O que se vê em Mare Chiuso é uma política securitária, de contenção da imigração. A ideia foi mesmo criar uma política de contraste em vez de uma de acolhimento. Isso ocorre porque ter uma postura hostil diante dos estrangeiros dá mais poder e mais votos.

Berlusconi é o melhor exemplo…

Sim, sem dúvida. O pior é que depois acabam por gastar imenso dinheiro para levar adiante políticas de repressão, para construir locais de detenções, prisões etc. E vão gastar o dinheiro que deveria ser utilizado para financiar uma política de acolhimento. Isso da parte do governo. Mas entre a sociedade civil italiana existe uma capacidade de integração, há uma interligação de fundo económica, as crianças chinesas, como eu disse, já falam italiano. A sociedade italiana é um bocado esquizofrénica! (risos).

Se você perguntar a um italiano o que acho de um estrangeiro, a resposta é sempre: os “estrangeiros só fazem confusão, mas aqueles que trabalham comigo não, eles são bons”. É uma contradição muito grande.

Io Sono Li não trata só sobre a questão social, mas também sobre identidade e individualidade, como o próprio nome indica…

Uma parte fundamental do filme é uma descoberta de si próprio a partir de coisas que estão escondidas em nós próprios até o surgimento de um outro. É aquilo que acontece ao Bepi, que descobre ser um poeta. Ele era chamado assim, mas nunca tinha escrito uma poesia nem nunca pensou que poderia, de facto, ser um poeta. A primeira que escreveu foi aquela que ele dá a Shun Li. Foi por causa dela que ele descobre que, no facto de ser chamado poeta, existia algo de verdadeiro, algo sobre si próprio. É sempre mais fácil ser superficial…

Mas ela era impedida de fazer esse processo de autoconhecimento…

Ela vive numa situação muito difícil, para de além de ser muito controlada. Para ela é muito mais complicado, ela tem de ter cuidado mesmo com as relações de amizade que desenvolve. Mesmo assim, conhecer-lhe permitiu a ela, para além da possibilidade de descobrir lugares novos, experimentar uma espécie de libertação, ao menos psicológica, e ter mais coragem para sair daquela situação.

La Prima Neve, o seu segundo trabalho de ficção, estreou recentemente no Festival de Veneza. O que pode adiantar sobre ele?

Tem algumas semelhanças com Io Sono Li porque parte de um encontro entre duas pessoas de origens diversas. É a história de um menino italiano que vive nas proximidades de uma montanha e é órfão de pai. Por vários motivos conhece um rapaz africano, que já é pai de uma menina que não tem a mãe, ao mesmo tempo que não consegue ser pai dela. A história desse “pai que não pode ser pai” complementa-se com a deste “filho que não pode ser filho“. É um filme sobre a importância da paternidade. A diferença de Io Sono Li é que aqui não há o tema de aceitar ou não o estrangeiro. Esse africano é aceite na família. Não há conflito, este é de outra dimensão – tem a ver com a paternidade. E é numa zona de montanha e não na praia! (risos).

(*) Documentário lançado por Andrea Segre em 2012 e que trata de um acordo feito em 2009 por Silvio Berlusconi com o ex-presidente da Líbia, Muammar al-Gaddafi, e que previa que todo o líbio capturado no mar fosse imediatamente enviado de volta para o seu país, onde era vítima dos abusos das autoridades locais.

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