Cinco anos depois de exibir em Cannes a curta-metragem “La Siesta”, o jovem realizador argentino Federico Luis apresenta a sua nova e primeira longa-metragem, “Simón de la montaña“, na seleção da Semana da Crítica 2024, secção paralela do Festival de Cannes que celebra as primeiras e segunda obras de um cineasta.
Apresentado em estreia mundial, “Simón de la montaña” conta a vida de Simon (Lorenzo Ferro), de 21 anos, que no meio da Cordilheira dos Andes junta-se a um grupo de adolescentes e jovens neurodivergentes abandonados à própria sorte. Aqui começa um jogo de pistas e aparências que derradeiramente vão questionar a noção de normalidade na nossa sociedade.
Foi em Cannes que nos sentámos à mesa com Federico Luis e falámos sobre o grande vencedor da da Semana da Crítica.
A montanha que vemos no filme funciona como uma personagem. Qual a sua importância no seu filme?
A montanha é um lugar que me faz entrar num estado de meditação e reflexão profunda. É um espaço enorme que obriga a percorrer distâncias e faz-me voltar à escala que tenho como humano. Por isso interessava-me situar esta história neste local. Fazer as personagens retornarem à sua escala.
O quanto foi buscar a estética do documentário para o seu filme?
Apesar do filme e das personagens terem uma dimensão mais documental existiu sempre uma intenção de situá-lo no mundo da ficção. A personagem do Simon é fantástica e reúne uma quantidade enorme de perguntas sobre os temas que a película aborda. Queria através da ficção afastar um pouco da sensação documental. Não queria dar a ideia que estou a documentar um grupo de pessoas, mas criar um mundo imaginário onde elas se inserem.

O quanto de si existe no Simón ?
A personagem do Simón parece um pouco comigo, como acontece com muitos realizadores nas suas primeiras obras. Estava muito interessado em fazer a viagem que o Simon faz, ou seja, sair da lógica que muitas vezes nos prende no mundo atual, que é relacionarmo-nos com as pessoas que são parecidas conosco. Isto faz com que, sem darmos conta, entremos numa espécie de fascismo moderno, não violenta do ponto de vista físico. De forma geral, as pessoas não têm muitos amigos distintos de si próprios. Creio que é um problema da atualidade e ainda mais inflacionado pelas redes sociais. Os nossos amigos são os mais parecidos conosco e não diferentes. Esta personagem é como criar um ponto de vista, como se fosse uma viagem à lua, dadas as condições físicas e psicológicas das pessoas de quem ele se aproxima.
De certa maneira, a posição da mãe do Simón é um reflexo da sociedade…
A mãe, quem sabe, tem um ponto de vista mais parecido ao da sociedade em geral no que toca às convenções e ao afastamento do que é estranho e diverso. Talvez seja alguém que é assim porque vive muito próxima do filho e tem uma espécie de obrigação de o entender. Mas nem ele se entende, por isso a tarefa é complicada. Ela tenta forçar esse entendimento, quando o que o Simon quer fazer é sair das lógicas comuns de entender o ser humano.
Mas o Simón tem os seus problemas…
A meu ver o problema do Simon é um problema conceptual com a humanidade. Está em desconformidade com aquilo que o mundo espera dele. Ele encontra nestas pessoas um mundo de liberdade onde não tem a obrigação de cumprir com uma série de obrigações e papéis nos quais tem de forçosamente encaixar. De uma forma intuitiva e não tão pensada, ele tenta escapar a isso, sendo particularmente interessante o caminho que percorre para chegar ao seu destino.
Comparaste-te ao Simon. Tendo em conta que estás a entrar no mundo do cinema, que tem as suas expetativas, papéis e lugares comuns do que é expetável de ti, como pensas escapar a isso?
Não tenho a mínima ideia de como o fazer, tal como o Simon. Creio que esta película é uma forma de escapar desse mundo do cinema. Dentro do cinema argentino, este é um filme que lutei muito para que pudesse existir, pois tive de enfrentar sistematicamente pessoas que consideravam o filme uma ofensa ou um pouco atrativo do ponto de vista da produção. O grande trabalho que tivemos neste filme não foram as rodagens ou a realização, mas principalmente o facto do filme existir. Tento fazer um filme que dialoga com o cinema. E procuro comunicar-me com o resto do mundo, tentando ocupar o lugar de filmes mais convencionais.
E como o Simon, está à procura da tua identidade como cineasta?
Sim e ainda recentemente comecei a usar um novo nome, que é uma abreviação daquele que tenho no cartão de identidade. É um gesto pequeno, mas que me faz sentir mais livre e independente.

