Desde Displaced (2017), onde observava vidas marcadas pelo desenraizamento e pela sensação de não pertencer plenamente a lado nenhum, passando por All-In (2021), centrado num resort all-inclusive atravessado pela invisibilidade do trabalho, o belga de ascendência turca Volkan Üce tem vindo a construir um Cinema documental atento ao sentimento de deslocação e às questões identitárias que atravessam grande parte da comunidade turca espalhada pela Europa. Preferindo o humor seco onde seria fácil cair no dramatismo, Üce transporta agora essas mesmas preocupações para 2m², documentário estreado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, onde acompanha Tayfun, agente funerário da comunidade belga-turca em Genk.
O trabalho deste empreendedor consiste em ajudar famílias a decidir onde devem ser enterrados os seus mortos: no país onde vivem atualmente ou naquele onde residem as suas raízes. A esta questão identitária fundamental somam-se outras, ligadas à burocracia, aos afetos contraditórios e à negociação permanente entre duas pertenças que nunca se anulam mutuamente.
Foi a propósito da estreia do filme em Roterdão que conversámos com Volkan Üce sobre o fio condutor que atravessa todo o seu Cinema e sobre as dificuldades — muitas delas de natureza ética — de filmar 2m².

Nos seus filmes anteriores, como Displaced, já abordava um sentimento de deslocação e de identidade. Agora volta a essa questão. Quão importante é a identidade no seu trabalho cinematográfico?
Acho que é uma linha vermelha no meu trabalho até agora. Não penso em linhas vermelhas, porque não quero limitar-me enquanto criador. Mas, olhando para trás, para os três filmes que já realizei, percebo que todos falam de identidade. All-In também é muito sobre identidade, porque fala de trabalho barato num resort. Essas pessoas são tornadas anónimas. Têm de usar as t-shirts do hotel e tornam-se quase invisíveis para os turistas. E eu mostro-as como seres humanos. Mostro a sua identidade.
É como uma teoria humana da persona. Enquanto seres humanos, temos várias personas: és filho, pai, parceiro, cineasta. E o que acontece quando a tua persona é reduzida a mão-de-obra barata? Ou quando é reduzida a “migrante” ou “homem turco na Europa”, quando és muito mais do que isso?
É frustrante ser limitado enquanto representante masculino de uma minoria turca na Europa. Acredito que sou muito mais do que isso. Portanto, sim, os meus filmes falam de identidade. E, ao fazê-los, a empatia é muito importante. Quero que os meus filmes sejam uma festa de reconhecimento para filhos e netos das migrações.
Dou-te um exemplo: o meu escritor favorito é o francês Michel Houellebecq. Quando o leio e vejo como está desiludido com a humanidade e com a sociedade, rio-me, sorrio, fico feliz, porque me reconheço. Isso faz-me sentir bem.
Quando estes filmes são mostrados à minha gente, é impressionante ver como os amam, como se envolvem emocionalmente. Eu queria que os meus filmes fossem parte de um festival de reconhecimento para eles. Ao mesmo tempo, tento que sejam universais. Ontem tivemos a estreia mundial. Estavam cerca de 500 pessoas. Talvez 10 ou 20 tivessem origens migrantes. Eram quase todos holandeses. E adorei a forma como riram e se ligaram ao filme. Portanto, sim, é sobre identidade, mas não quero ficar encostado ao canto dos “filmes de migrantes”.
Quero ainda acrescentar que sou muito sensível ao olhar colonial. Para mim é essencial que as personagens não sejam vítimas. Têm de ser personagens fortes.
Falando de personagens, Tayfun é claramente a alma do filme. Como chegou até ele? Como nasceu este projecto?
A ideia da pergunta “onde ser enterrado” enquanto neto da migração acompanhou-me durante muito tempo. Os migrantes vieram para a Europa Ocidental há 60 anos. Morriam e eram enterrados na Turquia. Mas agora são os filhos que estão a morrer. E 95% continuam a ser enterrados na Turquia. Isso sempre me pareceu estranho.
Não gosto de filmes tristes, por isso não fiz logo um filme sobre este tema. Os meus filmes anteriores, sobretudo All-In, são bastante engraçados. Gosto de humor. Esta ideia estava comigo, mas não encontrava humor nela até ver o Tayfun na televisão durante a COVID.
Na televisão belga falava-se muito de como as pessoas enterravam os mortos durante a pandemia. Fizeram uma reportagem com vários agentes funerários. Vi cinco ou seis agentes belgas, de quinta ou sexta geração, com espaços muito sofisticados. Depois apareceu este novo agente funerário turco. Fiquei imediatamente intrigado. Parecia desajeitado, engraçado. Enviei-lhe um email. Encontrámo-nos, gostei dele, ele gostou de mim, e propus-lhe o documentário. No início, não acreditou muito.
Ontem, na estreia mundial em Roterdão, esteve em palco comigo e disse: “Volkan, há quatro anos achei que eras um bocado doido.” E agora estávamos ali, juntos, naquele palco.

Quando percebeu que tinha mesmo um filme?
Foi a 1 de Novembro, num cemitério na Bélgica. Estávamos com o Tayfun quando vimos uma senhora idosa sentada diante da campa da filha. Ele disse: “Fui eu que enterrei a filha dela, vou dizer-lhe olá.” Ficaram a falar durante cerca de uma hora. Filmámos tudo. Enquanto filmava, soube que tinha algo especial. E necessário.
A morte é um tema complexo. Foi fácil convencer as outras pessoas a participar?
Não foi nada fácil. Segundo a tradição islâmica, o enterro deve acontecer em 24 horas. As pessoas estão em choque, devastadas. Muitas vezes nem ousávamos perguntar. Parecia errado.
Houve também problemas logísticos. Às vezes o Tayfun ligava-me a meio da noite a dizer que havia autorização para filmar. Tínhamos de arranjar equipa à pressa. Outras vezes surgia agressividade. Mesmo com autorização de alguns familiares, bastava alguém sentir que era demais. Nessas situações, parávamos. A tristeza manifesta-se de muitas formas.
Isso levantou questões éticas?
Muitas. Não gosto de pathos. Nunca filmámos lágrimas nem choro. Foi uma regra absoluta. Filmei os corpos de forma subtil: mãos, pés, cabelos. Nunca rostos. Quis respeito.
Na montagem, tudo é tentativa e erro. Às vezes está demasiado engraçado, outras demasiado emocional. O equilíbrio foi o maior trabalho.
Qual foi o maior desafio?
Conseguir autorização para filmar. Sem dúvida. Mas também o próprio Tayfun. Ele é teatral, muito expressivo. No início achei que exagerava. Depois percebi que ele é mesmo assim. Aceitei-o como é. Isto é um documentário.
Para mim, pessoalmente, o mais difícil foi estar tão perto da morte. Tenho medo da morte. Uma missão secreta deste filme foi enfrentar esse medo.
Sou daquelas pessoas que atravessa a rua ao ver um pombo morto. Uma vez tive de enterrar o cão da minha irmã. Demorei horas. Foi horrível.
E depois destes três filmes, já pensa no próximo?
Sim, mas não gosto muito de falar deles para não dar azar. Estou a desenvolver um novo documentário, novamente sobre jovens homens e identidade. Quero falar do patriarcado e do peso que também impõe aos homens.
As maiores vítimas do patriarcado são as mulheres — isso é óbvio. Mas também há homens esmagados por esse sistema. Quero explorar esse impacto.
Tenho também apoios para avançar para a ficção, com as mesmas produtoras. Gostava muito de dar esse passo.

