Eram cinco da manhã quando Nadav Lapid chegou ao Brasil com Yes na bagagem, para uma sessão de gala no Cine Odeon, promovida pelo Festival do Rio, sob forte entusiasmo após a sua passagem pela Quinzena de Cineastas de Cannes, em maio.
“Este é um dia muito especial por conta do anúncio do cessar-fogo no Médio Oriente. É parte da condição humana ser otimista, e eu tenho o meu otimismo”, disse o realizador israelita de 50 anos em resposta à pergunta do C7nema sobre o que espera para o futuro das tensões entre o seu país e a Palestina. “A doença que consome a minha nação é profunda.”
Há mais duas projeções de Yes agendadas para o Festival do Rio: sábado, às 19h30, no Cinesystem Belas Artes 6, e domingo, às 18h15, no Reserva Cultural Niterói. A troca com a América do Sul entusiasma o realizador que, em 2019, ganhou o Urso de Ouro da Berlinale com Sinónimos, hoje alvo de culto.
“Alguns dos melhores filmes feitos nos últimos 20 anos no mundo são falados em português. Sou amigo de Miguel Gomes e de Pedro Costa e tenho muito apreço por Kleber Mendonça Filho”, diz Nadav, referindo-se ao realizador pernambucano que integrou o júri de Cannes que premiou o seu O Joelho de Ahed, em 2021. “Tenho a sensação de que o público sul-americano entende melhor o humor que existe no meu cinema, pois ele constrói-se a partir do que há de mais concreto na rotina diária da nossa sociedade. A minha filmografia traz uma tensão permanente entre o naturalismo e um tipo de surrealismo que não é o de Roy Andersson, mas sim o do espetáculo da vida, ao normalizar loucuras que são eternas.”
Na trama de Yes, Nadav segue os passos de Y. e Yasmin — respetivamente um pianista e uma dançarina — que sobrevivem como animadores de festas para a elite. Aceitam trabalhos degradantes, dizendo sempre “sim” para sobreviver financeiramente, mesmo quando discordam das visões políticas dos contratantes. O enredo adensa-se quando Y. é encarregado de compor a melodia do novo hino nacional, cujas letras preveem a devastação de Gaza. A poesia por trás da música inflama ânimos por onde a longa é exibida.
“Godard defende uma ideia linda ao dizer: ‘a questão não é fazer filmes políticos, mas fazer filmes politicamente’. Muito do que se define como político não passa de uma mise-en-scène de artigos jornalísticos. O que me interessa não é isso, mas sim falar de humanos. E as pessoas são compostas de amor, de sexo, de ritmo, de insanidade. Quanto mais íntimo for um olhar artístico, mais político ele será. Há uma lógica semelhante para o uso da palavra num filme: se ela vier com uma overdose de significado, perde a força política”, afirmou Nadav. “O que existe de heroico nas minhas personagens é o facto de tentarem preservar a beleza que há nos gestos mais simples.”

