Vicky Krieps fala de maternidade e liberdade em “Love Me Tender”

(Fotos: Divulgação)

Poucas atrizes podem reivindicar, em 2025, uma presença tão constante e intensa nos grandes festivais de cinema como Vicky Krieps. A atriz luxemburguesa, lançada para a fama em Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, começou o ano na Berlinale a apresentar Hot Milk. Depois disso, chegou a Cannes com Love Me Tender, passou por Tribeca com Re-Creation, fez escala em Locarno com Yakushima’s Illusion e completou o trajeto em Veneza com Father Mother Sister Brother, vencedor do Leão de Ouro. E não vamos esquecer ainda a distinção que recebeu em Karlovy Vary, onde foi agraciada com o Festival President’s Award, em reconhecimento pela carreira.

Apresentado igualmente em Karlovy Vary, Love Me Tender atravessa agora fronteiras para se revelar ao público português na Festa do Cinema Francês. A estreia nas salas comerciais está confirmada para uma data posterior.

Vicky Krieps em Karlovy Vary

Inspirado no livro autobiográfico de Constance Debré, Love Me Tender tem Vicky Krieps no papel de Clémence, uma mulher que, depois de se separar, decide viver de forma honesta consigo mesma e revelar ao ex-marido o seu interesse em mulheres. Apesar de no frente a frente não haver qualquer indicio de mal estar entre o antigo casal, os eventos que se seguem mostram outra realidade. O antigo companheiro tenta tirar-lhe a custódia do filho. A partir daí, o filme acompanha a luta de Clémence para continuar a ser mãe sem abdicar da sua liberdade, refletindo sobre normas sociais, preconceitos de género e sexualidade, bem como os desafios institucionais da justiça no que toca à maternidade e ao direito à parentalidade.

Como artista e como mãe, senti logo ao ler a primeira linha do guião algo que ressoava profundamente, mesmo antes de o compreender”, explicou Vicky Krieps na República Checa. “Tocava numa verdade universal, dita de uma forma que nunca tinha visto antes. O tema é um pouco tabu, mas fala-me de forma muito íntima enquanto mãe. Foi como se alguém tivesse ido ao fundo da minha cabeça e retirado algo que eu não conseguia exprimir há anos.”

Referindo que o livro e o filme não falam apenas de amor entre mulheres, mas da liberdade de ser quem se quer, Krieps descreve Love Me Tender como “um conto de fadas sobre a liberdade — sobre alguém que ousa sair do sítio onde a sociedade a colocou”.

Nesse sentido, ela evoca a sua própria experiência de maternidade e o julgamento social de que foi alvo. “Quando me separei do pai dos meus filhos, fui muito julgada — por ele e por toda a gente à volta. Até as professoras dos meus filhos me criticavam. Diziam coisas como: ‘Porque não faz filmes em Berlim para estar mais perto deles?’ Nunca diriam isso a um médico, por exemplo. Mas às mulheres dizem.”

A atriz falou ainda da dificuldade em encontrar financiamento para filmes que abordam temas tabus, revelando que contar histórias sobre personagens femininas com as quais o público possa não sentir empatia continua a ser um problema: “Continua a ser difícil fazer filmes destes. Quando fiz Corsage, ouvi várias vezes: ‘Não podemos financiar isto, porque a personagem feminina não é simpática.’”

E deixou uma provocação: “E o Taxi Driver? Alguém perguntou porque é que o protagonista é mau? Não. É um filme sobre um homem mau. Mas se for uma mulher, temos de justificar, explicar. A mulher e as suas ações têm de ser compreendidas.

A Festa do Cinema Francês prossegue até ao final do mês, com exibições em várias cidades do país.


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