Jim Jarmusch decepcionado e preocupado com ligações da Mubi com Israel: “Quase todo o dinheiro corporativo é “dinheiro sujo”

(Fotos: Divulgação)

Embora a maioria das perguntas dos jornalistas durante a habitual conferência de imprensa no festival tenha tido uma ligação direta ao filme e aos atores envolvidos, a relação da plataforma de streaming com startups militares ligadas a Israel também foi abordada. O realizador norte-americano mostrou-se “dececionado e preocupado” com a situação: “Falei com a Mubi, especialmente com o Jason Rappel, que me ligou de imediato. A minha relação com eles começou muito antes disto tudo. Claro que fiquei dececionado e preocupado. Mas sou um cineasta independente: ao longo da carreira, aceitei dinheiro de várias origens. E praticamente todo o dinheiro corporativo é ‘dinheiro sujo’. Se analisarmos em profundidade as estruturas de financiamento destas empresas, acabamos sempre por encontrar coisas desagradáveis.”

O tema foi ainda desenvolvido pela atriz Indya Moore, que integra o elenco do filme, reforçando que todos os artistas estão a aprender a fazer uma due diligence ética — um processo que nunca antes tinham sido obrigados a enfrentar, ou seja, investigar quem está por trás dos projetos que lhes chegam às mãos. “Muitas vezes não sabemos o que há por trás de tudo. Mas é essencial que a pressão vá para quem realmente financia os sistemas de violência, e não para os artistas.”

Father Mother Sister Brother

Tríptico que explora as relações complexas entre adultos e os seus progenitores, com cada segmento ambientado num país diferente, Father Mother Sister Brother conta no elenco com nomes como Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Luka Sabbat e Françoise Lebrun.

“Não sei muito bem de onde veio a ideia”, confessou Jarmusch aos jornalistas. “Normalmente ando com ideias na cabeça durante um ano ou mais — às vezes muitos anos — até que, de repente, escrevo muito depressa, em poucas semanas. Este escrevi-o em três semanas. Sempre gostei da forma em capítulos nos filmes, algo que não é novidade nem na literatura nem no cinema.”

Afirmando que este filme foi construído com grande cuidado, o realizador explicou que escreve pensando em atores e em pessoas que imagina: “Neste caso, o filme ficou muito próximo do que tinha imaginado”, confessou, acrescentando que se aproximou bastante da sua visão original graças aos atores, à direção de fotografia e à montagem.

“Só faço filmes nos quais tenho controlo artístico total. E isso implica escolher todos os meus colaboradores. Tive a sorte de trabalhar com pessoas brilhantes. A fotografia, a montagem, a direção artística — são todos com quem já trabalhei antes. Há uma confiança, uma fluidez, quase uma linguagem secreta. Isso é que torna tudo possível.”

“Quando escrevo a pensar em atores, o melhor diálogo surge quando simplesmente transcrevo o que ouço na minha cabeça. Eles falam dentro de mim. Não sei de onde vem, nem o que significa. Mas é como se as personagens assumissem o controlo da minha imaginação.”

Reconhecendo que as cidades são essenciais para si e para o seu cinema — cada uma com um carácter distinto que o leva a apaixonar-se por elas —, Jarmusch explicou as escolhas para este filme: “Nova Jérsia foi escolhida por uma questão sindical: tinha de filmar a menos de 30 milhas de Nova Iorque, caso contrário o orçamento explodia. Encontrámos um local a 29,5 milhas. Já Dublin escolhi porque a personagem da Charlotte Rampling é escritora, e a Irlanda celebra os escritores. Não pagam impostos, são acarinhados. Adoro a Irlanda e tive uma equipa fantástica lá. Quanto a Paris, é como uma segunda casa para mim. Estou até a tratar do meu visto de artista francês para poder filmar novamente em França. E também queria que os jovens americanos do filme tivessem Paris como uma referência importante.”

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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