Cinco anos depois de “Gaza Non Amour”, os irmãos palestinos Tarzan e Arab Nasser regressam a Cannes (Un Certain Regard) com mais uma história sobre um território com 365 km2 em permanente estado de confinamento: Gaza. “É uma enorme prisão e uma prova do Apartheid que Israel impõe”, disse Tarzan Nasser ao C7nema, numa entrevista no Palais des Festivals. “O que falamos neste filme é sobre a vida de 2 milhões de pessoas encarceradas e agora entregues a um genocídio. Nascer dentro de uma prisão condiciona qualquer tipo de sonho que eles tenham.”

A ideia para “Era Uma Vez em Gaza”, que aborda a história de um vendedor de falafel que depois de testemunhar um crime é escolhido como ator para protagonizar um filme de propaganda, nasceu há 10 anos, tempo no qual a dupla de cineastas procurou o ângulo certo e a forma correta de levar a sua história ao cinema. “Queríamos fazer um western, pois somos fãs de Sergio Leone, John Ford e outros cineastas”, diz-nos Tarzan, que tem o seu nome devido ao facto do pai ser fã da personagem criada pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs. “A escolha do enredo começar em 2007 tem a ver com o facto dessa data ser essencial na história de Gaza. Não falamos de toda a longa história da Palestina, mas 2007 é fulcral pois foi aí que Israel declarou Gaza como uma entidade inimiga e iniciou o processo de a tomar para sim. Foi aí que começaram a construir o muro, que tanto os orgulha. Desde essa data, houve 7 ataques violentos contra o território. E cada um desses grandes ataques fazem parte do genocídio. E o mundo nunca disse nada de relevante sobre o assunto. Estamos a falar de 2 milhões de pessoas detidas onde Israel decide tudo por elas, como cortar a água, eletricidade e internet. Estamos a falar de todo um povo que vive em condições subumanas e muito violentas. Toda a sua vida escolhas é condicionada em torno disto“.
Tal como em “Eagles of the Republic“, de Tarik Saleh, exibido em competição no mesmo dia, em “Era uma vez em Gaza” assistimos à rodagem de um filme de propaganda, o “primeiro filme de ação produzido na Faixa de Gaza“, financiado pelo Ministério da Cultura para a glória da resistência contra o inimigo sionista. As filmagens desse filme vão-se revelar uma armadilha para o protagonista, que vai de caras com o homem que assassinou o seu parceiro de negócios. “Gaza é uma prisão e todos já vimos filmes dentro de prisões em que há tráfico de drogas”, explicou o cineasta. “Mas a questão da droga não é a mais importante. O que é importante é entender que as pessoas são forçadas a se adaptar perante tudo o que lhes é imposto. Se virmos, o nosso protagonista num ponto era apenas um estudante, mas Israel proibiu-o de sair de Gaza para preparar o seu futuro. O que esperam que estas pessoas se transformem? As pessoas de Gaza estão-se a adaptar às circunstâncias para sobreviver, dentro de muito poucas opções.”
Coproduzido com Portugal, através da Ukbar filmes, “Era uma vez em Gaza” ainda não tem data de estreia no nosso país.
O Festival de Cannes termina a 24 de maio.

