Realizador de filmes como “Os Bravos Não Têm Descanso” (2003), “O Rei da Evasão” (2009), “O Desconhecido do Lago” (2013) e “Na Vertical” (2016), Alain Guiraudie regressa às nossas salas com “Misericórdia”, projeto estreado no Festival de Cannes e que esta semana, no dia 27 de março, chega às salas de cinema nacionais.
Começando com um funeral e terminando num cemitério, “Misericórdia” segue Jérémie, que retorna a Saint-Martial para o funeral de um antigo chefe. Ele fica alojado com Martine, a viúva, por alguns dias, mas entre um desaparecimento misterioso, um vizinho ameaçador e um abade com intenções estranhas, a sua curta estadia na vila toma um rumo inesperado. “Os meus filmes são sempre povoados por eventos improváveis, num cinema que faço também improvável”, disse o cineasta ao C7nema, em janeiro, numa entrevista por ocasião do Rendez-vous d’Unifrance à Paris. “Se contar a alguém a história do meu filme sem que o vejam, as pessoas vão desconfiar. Mas procuro sempre neles uma fidelidade ao real. O filme tem que ter a sua própria coerência. (…) As personagens vêm diretamente da minha experiência juvenil no interior rural francês, mas são de alguma forma intemporais.”

Assumindo a importância de Pedro Almodóvar em toda a sua carreira, mas apontando “o vaudeville, Hitchcock e Fritz Lang” como as principais referências para este “Misericórdia”, Guiraudie relembra que “morte e desejo são elementos que funcionam bem no cinema” e que o grande motor do seu filme é o mistério. “E dois dos grandes mistérios da vida são a morte e o desejo”, dispara, afastando a ideia de alguns críticos e espectadores que evocaram Pasolini e “Teorema” (1968) como inspiração para “Misericórdia”: “Não é uma referência e quando fiz o filme não pensei no “Teorema”, que por acaso nem é o que mais aprecio dos seus filmes”, explica o cineasta. “Depois de lançar o filme e de me falarem da obra do Pasolini, fiz o exercício de procurar no “Misericórdia” o “Teorema“, chegando à conclusão que é exatamente o contrário dele. O protagonista não dorme com ninguém, enquanto o de Teorema dorme com todos; não temos uma família burguesa, nem tão pouco proletária, mas no campo popular; o jogo do desejo no filme do Pasolini é colocado numa forma teórica que implodirá com a família burguesa, no meu temos um arranjo familiar mais bizarro. Até mesmo o final do meu filme é o contrário do do Pasolini. Na verdade, esse filme funciona como uma contrarreferência”.

Félix Kysyl (Le Redoutable, Des hommes e Le Consentement), que o cineasta descobriu há 10 anos através do casting de um filme que não fez, assumiu em “Misericórdia” o seu primeiro papel como protagonista, sendo acompanhado no elenco por Catherine Frot, que o cineasta pensou imediatamente quando estava a escrever o guião: “Habitualmente vemo-la em comédias descaradas, mas, para mim, é uma das raras estrelas francesas, uma diva, que consegue com autenticidade passar por a trabalhadora de uma padaria numa pequena vila. Não conseguiria pôr a Catherine Deneuve ou a Isabelle Huppert nesse papel, pois transmitem uma ideia mais burguesa. Por causa disso pensei muito rapidamente na Catherine Frot, por este seu lado popular. E isso dá também credibilidade ao filme. Tenho sempre medo das escolhas pois penso sempre se os atores escolhidos funcionam naquele papel e são credíveis. Foi muito agradável trabalhar com ela e acho que ela assumiu muito bem a personagem, que às vezes pisa o terreno do maligno, mas também da sinceridade e frontalidade.”






