Foi entre o fascínio e o repúdio pelo universo dos reality shows e mundo dos influencers que a realizadora Agathe Riedinger apresentou a sua primeira longa-metragem na competição à Palma de Ouro do último Festival de Cannes. “Diamant Bruit” (Diamante Bruto) leva-nos até Fréjus, no Sul de França, onde Liane (Malou Khebizi, em potente atuação), de 19 anos, vive com a mãe e a irmã mais nova. Obcecada pela beleza e pela necessidade de se tornar alguém, ela vê nos reality shows a possibilidade de ser desejada e amada. E o destino parece finalmente sorrir-lhe quando faz audições para o programa “L’Ile des Secrets“.
Foi em Paris, em janeiro passado, que nos sentámos à mesa com a jovem cineasta que nos falou um pouco mais sobre esta primeira incursão na realização de longas-metragens, que chega aos cinemas nacionais a 27 de março. Uma conversa onde nos falou dos paradoxos que a moveram perante o fenómeno dos reality shows e a levaram a criar a história de “Diamant Bruit” (Diamante Bruto).
O que a levou a escolher o tema das influencers e da reality TV para o seu filme? É algo que segue no seu dia a dia?
Interessei-me pelo tema das influencers e pela personagem da Liane porque sempre fui consumidora de reality tv e sempre fiquei siderada com a violência com que esses programas são fabricados. Uma violência onde se ressalva a diferença de classes, a cultura da violação e a hipersexualização das mulheres. Uma violência que se prolonga nas redes sociais e que é muito ignorada. Por isso, fiz algo com um olhar muito crítico sobre essa fabricação dos reality shows. Sempre olhei com fascinação e admiração pelas candidatas a esses programas e a sua feminilidade exacerbada, que para mim funciona como um grito para serem vistas. Isso fez-me sempre questionar se os seus corpos eram livres e emancipados ou apenas submissos a uma exigência feroz do patriarcado neste meio e em toda a sociedade. Estes paradoxos atraíram a minha atenção e quis também homenagear estas candidatas que sistematicamente são denegridas durante a participação nestes programas.
Na investigação para o filme, chegou a falar com candidatas a esses reality shows?
Durante a escrita falei com algumas candidatas, mas como estas pessoas normalmente são denegridas, mal julgadas e criticadas pela sua presença nesses programas, senti uma grande desconfiança por parte delas quanto às minhas intenções. É compreensível, pois muitas vezes são vistas como idiotas. Elas não queriam que essa imagem chegasse ao cinema e que o grande ecrã fosse mais uma plataforma para gozar com elas. Depois do filme estar pronto e começarem as exibições, fizemos algumas sessões onde foram convidadas essas mulheres. Elas sentiram que o filme lhes dava a palavra, trazia dignidade e as respeitava.

O fenómeno da reality tv já existia antes das redes sociais. Porém, com o surgimento destas, grande parte dos candidatos a esses programas passaram a ser também influencers. Como viu essa evolução?
De certa maneira, para mim os reality shows e as redes sociais acabam por dar no mesmo, com os primeiros a serem censurados/moderados por uma montagem em que os candidatos não têm poder sobre o que é exibido. Porém, a reality tv era capaz de produzir vedetas que ganhavam algum poder de influenciar, atraindo algumas marcas. Agora é o inverso. Cria-se um produto nas redes sociais e os reality shows são espaços para esse produto expandir-se em visibilidade. Houve uma evolução orgânica entre plataformas.
Como foi o diálogo com o diretor de fotografia para levar esta história ao cinema?
Desde a escrita que tinha uma imagem definida na cabeça do que queria e preparei para o Noé Bach um quadro de referências que incluia vídeos do Tik Tok, Instagram e Snapchat. Mas também tinha pinturas do Renascimento, pinturas religiosas, fotografias de moda e filmes. Todo um painel de imagens de ícones representativos. Havia também um pensamento sobre a cor, o brilho e a luz que pretendia. O diretor de fotografia compreendeu o que eu queria: misturar a arte e a cultura popular com a clássica. Todo um conjunto de coisas onde julgamos o que é de mau gosto e celebramos a perfeição. Compreendemos bem no que concernia à necessidade de dar nobreza ao sonho da Liane e jogar com os códigos do classicismo e da cultura popular para chegar a isso.
Falou da hipersexualização das candidatas e vemos os castings pelos quais elas passam. Mas existe nelas uma alienação em relação aos códigos de beleza que são impostos?
Sim, mas a Liana sente-se em casa nessa cultura. Não são os códigos dos reality shows ou das redes sociais que a afetam, mas os globais. Uma coisa que ouvimos muito ser descrita nesses programas é o termo “verdadeira mulher” ou “verdadeiro homem”. E nesse conceito está implícito que a mulher que é forte é a que é desejada. E o “verdadeiro homem” é o que assume o leme das operações, que vai seduzir. São arquétipos reacionários e arcaicos. Paralelamente, existe na boca destas mulheres sempre uma forma feminista de ser que também é legitima de aceitar. A Liane aceita estes códigos pela sua admiração e adoração aos ícones, como a Kim Kardashian – que no seu jeito é quase como um ícone religioso. Reparo muito na hipersexualização destas jovens pela sua exposição nas redes sociais e sinto que isso é perigoso.
Qual é a sua relação com as redes sociais? Hoje em dia há muitos atores que já são escolhidos para os papéis pelos seguidores que têm e não pela qualidade de atuação…
Gosto de navegar pelas redes sociais, às vezes num ato de puro voyeurismo, mas também como fonte de inspiração. Do ponto de vista artístico e inspiracional, vejo-as como um mini-museu. Mas sou incapaz de me expor nas redes sociais. Até sobre o filme tinha dificuldade em fazê-lo. Há algo de violento nessa exposição.
E como trabalhou com a Liane para que ela vestisse a pele daquela personagem que procura ser desejada?
Falamos muito sobre a psicologia da personagem e o que representava cada ação que ela fazia, muitas vezes como desafio. Cada detalhe da sua aparência, a forma como fala, havia sempre uma intenção por trás. Procurámos sempre uma autenticidade e fragilidade na sua busca em ser desejada e amada, sem que exista um ato explícito de sedução. Ela não quer, nem sabe como seduzir. E não se deixa seduzir. Mas quer ser desejada. Temos alguém que quer ser a boneca perfeita, mas que age de forma antagónica. É uma personagem cheia de paradoxos. A Malou Khebizi compreendeu muito bem isso e trabalhámos todos os pequenos gestos que nos façam entrar no reino do criar esse desejo. Trabalhámos também muito o seu andar, a ideia de uma guerreira que vai para um combate animal muito determinada, quebrando os códigos. Criámos uma personagem que quer convocar o desejo, mas que não seduz e tem uma brutalidade nela.
Como encontrou a Malou para este papel? Procurou nas redes sociais por uma influencer?
A Malou não era de todo uma influencer. Pretendia uma atriz não-profissional para a personagem da Liane, alguém que não fosse conhecida. A geografia da história impunha alguém do sul de França, por isso fizemos um casting selvagem bastante longo. Ela respondeu bastante tarde ao nosso anúncio e trabalhava como empregada de um restaurante. Não sabia se queria ser atriz, mas já tinha feito algum trabalho de improvisação. Quis encontrar-me com ela muitas vezes para ver se ela tinha alguma distância emocional e intelectual perante a história. Tinha de me assegurar que ela não era a Liane e estivesse a entrar – com no filme – num caminho violento em busca de ser um ícone.
A Malou é de uma grande inteligência humana, emocional, intelectual. Além disso, na sua vida normal é alguém fisicamente muito diferente da Liane e não partilha de todo os seus códigos de belezaa. Mas era alguém que tinha presença nas redes sociais e sabia caminhar pelos códigos impostos por estas, com as suas visões perante a beleza muito particulares.
Os temas que aborda no “Diamante Bruto” são temas que vão prosseguir no seu cinema?
Se pensar bem, nos filmes que podia ter feito antes deste filme, iam sempre no mesmo sentido: a exploração dos corpos femininos e a noção de beleza na nossa sociedade. Por isso acho que são temas que, mesmo que não queira seguir, vão sempre me encontrar nos próximos trabalhos.






