Chega finalmente a Portugal “Memoir of a Snail” (“Memórias de um Caracol”), sob o endosso de uma nomeação ao Oscar de Melhor Animação e a consagração do filme com o Cristal de Annecy, o maior festival do mundo para quem vive do stop-motion, desenho, rotoscopia, computação gráfica em 2D ou 3D e técnicas afins de moldar o mundo a partir de uma ruptura com a live-action. Adam Elliot, o realizador, é o expoente maior da Austrália na arte de animar objetos delineados com massa de modelar. Há 21 anos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deu-lhe uma estatueta de Melhor Curta-metragem Animada por “Harvie Krumpet”. Mais conhecido por “Mary e Max – Uma Amizade Diferente” (2009), o realizador de 52 anos regressa aos holofotes para narrar as penúrias de uma jovem órfã, Grace, uma colecionadora de moluscos, separada do convívio do seu amado irmão gémeo. O seu contato com uma senhora, Pinky, fã de charutos cubanos, vai atenuar as suas angústias.
Nesta entrevista via Zoom, organizada pela Golden Globe Foundation, Elliot dimensiona o lugar do trágico no seu cinema e explica como a sua pátria anima o audiovisual.

O que o stop-motion representa, para além da técnica, como um campo dramatúrgico?
Tenho massa de modelar na minha mesa e lido com ela como se fosse a base para um processo artístico mais primevo, alheio à tecnologia da imagem, próximo da escultura, num modelo de trabalho em que eu possa desenvolver um mundo inteiro a partir de uma base plástica, táctil. É uma técnica de manipulação de material que me remete a pesquisas sensoriais típicas da infância, quando descobrimos a realidade pelo toque. A presença cada vez mais forte da inteligência artificial torna a stop-motion ainda mais necessária como alternativa analógica. O facto de artistas com grande prestígio como Guillermo Del Toro e Wes Anderson investirem nela como um veio de potência narrativa, endossa o que se conta com a animação de objetos.
Podemos falar de um boom desse formato na animação, sobretudo após a sua consagração recente em Annecy e a nomeação ao Oscar?
Não falaria numa onda de stop-motion, mas vejo uma fase de forte receção para os trabalhos nesse campo animado que carregam identidade. Numa certa medida, os filmes que faço conseguem ser finalizados com mais rapidez do que os filmes em computação gráfica. Uso ferramentas digitais para procurar soluções técnicas na concepção da linguagem e elas me habilitaram para que tivesse mais flexibilidade na construção da narrativa. O maior desafio está na dramaturgia em si, na busca para harmonizar um humor visual e uma linha trágica no desenho da psique das personagens. “Memórias de um Caracol” foi estruturado como uma montanha-russa de emoções, na qual tento esfalfar a plateia com uma série de viradas bruscas, e agoniantes, no dia a dia de Grace, antes de apresentar uma alternativa de alívio.
O que justifica essa montanha-russa emocional?
O facto de que nenhuma vida soar crível sem situações de conflito, de dor.
O que o caracol representa como metáfora de Grace?
Cresci num lugar onde havia a pesca de camarões. O camarão é um animal que parece um ser estranho, assim como outras criaturas marinhas exóticas. Posso dizer o mesmo do caracol, para além da arquitetura singular da concha. Ele não parece fofo como, sei lá, uma joaninha. É um ser que se retrai quando tocamos nas suas antenas. É um símbolo do que se passa com Grace, retraída na sua dor.
Como funciona o seu trabalho com o elenco?
Não junto os atores. Trabalho com eles individualmente, a fim de me concentrar na descoberta do que cada personagem tem em si. Sarah Snook e Kodi Smit-McPhee, que interpretam os irmãos, não estiveram juntos durante o processo, até pelo facto de ser um filme sobre a memória, sobre os resquícios que as pessoas deixaram no imaginário de Grace. Embora eu delineie um perfil de cada figura na génese da dramaturgia, gravo as vozes antes de começar a animar, para assegurar a personalidade de cada ator.
O que a Austrália te assegura como um polo de produção para filmes animados?
O meu país gerou cineastas como George Miller e produziu filmes como “Malcolm”, escrito por David Parker e realizado por Nadia Tass nos anos 1980, provando que nossa ficção live-action é forte. A nossa animação é um trabalho de garagem, ou seja, trabalhamos no quintal das nossas casas, confeccionando os filmes sozinhos com apoio do governo. Sem os fundos públicos, não existiríamos. Imagine o que é procurar financiamento para uma história que fala de suicídio, cura gay e masturbação, sendo uma animação para adultos. Depois de prontos, os meus filmes vendem-se facilmente aos distribuidores.






