Zorro regressa à TV com as marcas da modernidade

É já esta quarta-feira, 19 de fevereiro, às 22h10, que Zorro, a personagem de ficção, criada em 1919 pelo escritor pulp norte-americano Johnston McCulley, regressa, desta vez no pequeno ecrã, em exclusivo no TVCine Edition e no TVCine+.

Já interpretada por nomes do cinema como Douglas Fairbanks, Tyrone Power, Guy Williams, Frank Langella, Alain Delon, George Hamilton, Duncan Regehr e, no mesmo filme, Anthony Hopkins e Antonio Banderas, Zorro é agora assumido por Jean Dujardin, numa versão mais velha da personagem e com um grande sentido de modernidade, não fosse o protagonismo da história dividido entre o ator de “O Artista” e a atriz Audrey Dana, no papel de Gabriella de la Vega.

Foi muito inesperado ver uma personagem feminina como esta no Zorro. Normalmente as mulheres são destratadas ou não existem neste tipo de histórias. Não esperava que a série fosse tão moderna como o é”, explicou-nos Audrey Dana em Paris, durante o mês de janeiro. “Há muitas referências ao que está a acontecer hoje em dia. Além disso, falamos como colonizaram a região e pagaram o trabalho com álcool. É a história real, aquela que não ensinamos aos miúdos na escola.”

Assumindo que gosta da nova dinâmica que a sua personagem trouxe para uma história onde as mulheres ou estavam omissas ou eram relegadas para um papel muito secundário, Audrey diz que Gabriella é “muito destemida, tem um grande sentido de justiça e é difícil de corromper”. “É alguém com um desejo de mostrar o seu lado físico, não anseia ter um filho, mas sim aventuras.  (…) Se olharmos para os escritores do passado, de William Shakespeare a Jean Racine, eles abordam sempre a corrupção moral e real de um mundo que, como sabemos, era gerido por homens. São sempre histórias de poder, amor e traição. Mas o mais moderno neste Zorro é o lugar que destinaram às mulheres e o assumir da colonização, a expropriação de terras e a escravatura paga com álcool. Sempre pensei: porque não pedimos desculpa aos indígenas? Vejamos a bandeira americana. As pessoas têm orgulho nela, mas ela foi construída com base no roubo de terras, abuso, escravatura e violação de mulheres. Há alguns filmes a mostrarem isso como um pedido de desculpas, como o “Killers of the Flower Moon”. Este Zorro é super moderno, pois não tem medo de gozar conosco e dizer que somos monstros”.

Admitindo que quem esperar uma obra como as que chegaram ao cinema e televisão no passado vai se surpreender com o que vai encontrar, Dana acredita que podemos gostar das diversas versões. E quando lhe perguntamos se não tem receio que a série seja chamada de objeto Woke, de forma leviana, a sua resposta foi clara: “Não me interessa o ódio. Não tenho Twitter (X), sei porque a série foi feita e como foi feita. Há respeito para com as audiências. Não entendo o ódio nem vou perder tempo com isso.

Filmado em Melilla e Toledo, em Espanha, Zorro e os seus 8 episódios foram filmados em 5 meses muito exigentes fisicamente. “Foram cinco meses de filmagens, como cavalgadas e lutas de espadas. Estive de estar em muito boa forma. Tive um treino muito intenso, vários dias por semana. E ainda bem que treinei, porque os cavalos endoideceram às vezes e quase caía. Tinha medo de me aleijar e prejudicar o projeto, pois era a protagonista”.

Humor e contemporaneidade 

O  humor é sempre uma porta que ajuda a iniciar a passagem de temas importantes. O riso ajuda muito.

Zorro no feminino

Foi o meu primeiro herói e estar nos sets foi como voltar aos tempos de criança que via as séries em torno do Zorro. Quando era pequena, quis mascarar-me de Zorro, mas era uma menina e não podia. Se estiverem à espera que o velho Zorro regresse, vão ficar desapontados. Já encontrei pessoas que ficaram desapontadas e outras que gostaram.

O futuro

Com a certeza que Zorro não terá continuidade além destes 8 episódios, pois foi sempre pensada como série limitada, Audrey Dana – que também é realizadora – prepara já um novo filme: “Fiz um filme há dez anos com 10 atrizes famosas francesas, o “Sous les jupes des filles“. Era um retrato sobre mulheres e queria mostrar que éramos capazes de fazer comédias. As comédias francesas sempre foram feitas pelos homens e nós éramos sempre as namoradas, irmãs ou a mãe.  Essa foi a primeira vez que os homens foram secundários numa comédia e nós as protagonistas. Foi um sucesso estrondoso em França.  Agora vou pegar outra vez no tema e falar do mesmo no pós metoo. O mundo mudou e eu também. Estou a escrever. Muita coisa mudou, mas, por exemplo, continuamos a vender a imagem bonita das revistas para mulheres. O problema da beleza nas mulheres de meia idade é enorme e isso traz uma solidão. É uma questão das expectativas.  É suposto sermos de uma forma, mas somos mais complexas que isso.Vou falar de intimidade e vulnerabilidade”.

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