Walter Salles e “Ainda Estou Aqui”: “Uma ditadura afeta tudo, inclusive a linguagem”

Vencedor no último domingo com o Prémio Fipresci no Palm Springs International Film Festival, Ainda Estou Aqui chega às salas portuguesas este fim de semana com o status de blockbuster, depois de ter vendido 3,3 milhões de ingressos no Brasil, em dois meses em cartaz. A conquista do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama, dado à sua estrela, Fernanda Torres, no dia 5 de janeiro, ampliou o prestígio internacional da adaptação do romance homónimo de Marcelo Rubens Paiva, respeitado na literatura desde a publicação de “Feliz Ano Velho”, em 1982.

É Walter Salles quem assina a realização, num regresso às narrativas de ficção depois de um hiato de doze anos, iniciado após a passagem de On The Road” (“Na Estrada”), pelo Festival de Cannes. No decorrer desse período, ele lançou o documentário “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” (2014), na Berlinale, e filmou curtas-metragens (“Quando a Terra Treme”).

Voltou a arrebatar holofotes com a passagem de Ainda Estou Aqui” pelo Festival de Veneza, na luta pelo Leão de Ouro, em setembro passado, quando o argumento de Heitor Lorega e Murilo Hauser foi premiado pelo júri presidido por Isabelle Huppert. Depois disso, a longa-metragem produzida por Maria Carlota Bruno e Rodrigo Teixeira ganhou ovações em projeções em San Sebastián, Nova Iorque, Toronto, Marraquexe e São Paulo, onde ganhou o Prémio do Júri Popular. No dia 4 de janeiro, a Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ) elegeu a narrativa de Salles para o pódio do Top Ten de 2024, elegendo-o como o Filme do Ano.

Fernanda Torres recebe o Globo de Ouro de Melhor Atriz (Drama)

Nascido no Rio de Janeiro a 12 de abril de 1956, Salles (atualmente com 68 anos) filmou com Fernanda Torres antes duas vezes, ambas em parceria com a realizadora Daniela Thomas: “Terra Estrangeira” (1995, hoje na Netflix)e “O Primeiro Dia”, que concorreu ao Leopardo de Ouro de Locarno em 1998. Filmou também com a mãe da atriz, Fernanda Montenegro, uma diva dos palcos sul-americanos, que protagonizou Central do Brasil, drama com o qual o realizador conquistou o Urso de Ouro de Berlim, em 1998. Ele rodou ainda produções em outras línguas (espanhol e Inglês): em 2004, concorreu à Palma de Ouro com “Diarios de Motocicleta”, que é chamado em Portugal de “Diários de Che Guevara”, e, em 2005, lançou “Dark Water”. Esteve ainda na Croisette com “Linha de Passe” (2008) e com a curta “A 8.944KM de Cannes” (2007).

As duas Fernandas, Torres e Montenegro, dividem a mesma personagem em “Ainda Estou Aqui”: a advogada e ativista Eunice Paiva (1932-2018). Durante a ditadura, no início dos anos 1970, Eunice teve o marido, o engenheiro Rubens Paiva (papel de Selton Mello), levado para depor, mas ele nunca regressou. Dali para diante, ela se empenha em dissipar névoas da tortura e das práticas de desaparecimento dos ditos “subversivos”, numa trajetória heroica. A montagem espartana de Affonso Gonçalves narra essa luta em saltos no tempo (de 1971 a 2014), com direito a uma entrada triunfal de F. Montenegro (como Eunice em fase madura) numa sequência de doer a alma.

Na entrevista a seguir, Waltinho (como Salles é apelidado entre os seus conterrâneos) explica as parcerias estéticas que travou e fala da tapeçaria histórica que pavimenta o seu maior sucesso nos últimos 25 anos.   

Walter Salles na exibição de “Ainda Estou Aqui”em Veneza | Setembro de 2024 -Crédito: Fiorenzo De Luca/ Divulgação


O Brasil em peso olhou para o seu Brasil de “Ainda Estou Aqui” com admiração e curiosidade, totalizando, em cerca de dois meses, 3,2 milhões de ingressos vendidos. Que Brasil é esse que você foi buscar no Marcelo Rubens Paiva e nas suas memórias e saudades?

A minha geração chegou ao cinema de ficção nos anos de transição entre a ditadura militar e a democracia. Teria sido lógico olhar para trás, para melhor entender os traumas vividos durante os anos de chumbo.  Cheguei a desenvolver um roteiro nessa direção, mas o caos do (des)governo Collor criou a necessidade de oferecer reflexos urgentes de um presente distópico. Daí “Terra Estrangeira” e depois o seu contracampo, “Central do Brasil”. Como no título do ótimo documentário de Carol Benjamim, “Fico Te Devendo Uma Carta Sobre O Brasil”, a sensação de não ter oferecido um reflexo daqueles anos não me abandonou. Daí nasce o “Ainda Estou Aqui”, do livro seminal e polissémico do Marcelo Rubens Paiva, mas também da memória que eu tinha da adolescência, vivida em parte na casa dos pais e irmãs do Marcelo.

Como se deram as conversas com o montador Affonso Gonçalves e o que o levou a apostar no montador assinatura de Jim Jarmusch e Todd Haynes para “Ainda Estou Aqui”?

Sou um grande fã de Jarmusch e Todd Haynes, mas o desejo de colaborar com Affonso vem de antes, de “Winter’s Bone” e “Beasts of the Southern Wild”.  Foi Michelle Satter, do Sundance Institute, quem primeiro me falou de Affonso. Desde então, sempre sonhei em trabalhar com ele. Filmes como “Paterson” e “Carol” reforçaram esse desejo. O Affonso foi fundamental para potencializar “Ainda Estou Aqui”. O filme seria outro sem ele, sem o seu profundo entendimento de ritmo e a sua incrível capacidade inventiva, a sua sensibilidade para o humano. Affonso também conhece muito de música – eu também gosto -, e essa troca foi um prazer.

Há 21 anos, sacudiu o mundo com um filme sobre Che Guevara, um militante da liberdade em vestes de guerrilheiro (a longa-metragem “Diários de Motocicleta”). Agora, as estradas do cinema levam-te a Eunice Paiva. Que utopias aproximam esses seus dois heróis?

“Diários” é um filme sobre a descoberta de uma vocação, sobre a margem do rio na qual uma pessoa decide passar o resto da sua vida. Ainda Estou Aqui é um relato sobre uma mulher, Eunice Paiva, que, face à tragédia que se abate sobre a sua família, face à uma terrível violência de estado, é obrigada a encontrar novas formas de resistência. O ponto em comum talvez seja a integridade desses gestos.

Como foi o trabalho com Adrian Teijido na criação da luz que orienta a fotografia do filme?

(O diretor de fotografia)Adrian Teijido abraçou o filme poucas semanas antes do início, e foi vital para torná-lo possível. Quando ele chegou, já havia um pensamento sobre o que o filme deveria ser, tanto imageticamente quanto na parte sonora, algo que procuro arquitetar a cada projeto. Essa definição conceitual é essencial para poder vetorizar um filme. Com a sua sensibilidade aguda, o Adrian ajudou-me a refiná-la, a torná-la ainda mais específica a esse filme, com a ajuda do excelente operador de câmara e também fotógrafo que tivemos, Lula Cerri, e do gaffer extraordinário que é Ulysses Malta, com quem colaboro desde “Terra Estrangeira”. Qual era o raciocínio? “Ainda Estou Aqui” pode ser visto como a história de uma família que, em um momento trágico da nossa história, foi roubada de um futuro possível, da mesma forma como o país foi roubado de um futuro possível. Essa oposição entre a luminosidade inicial do filme e o chiaroscuro que acontece depois do desaparecimento de Rubens Paiva está na base desse relato, assim como da gramática cinematográfica que escolhemos para narrar essa história.  O estar no mundo da família Paiva no início do filme é pleno de possibilidades. Na casa alugada do Leblon, havia o encontro de pessoas de gerações diferentes, discutindo política, ouvindo música… daí a câmara fluída é orgânica aos corpos, daí o super-8 do início do filme, revelando com urgência a geografia humana, mas também a geografia física do Rio de Janeiro. Tanto a imagem quanto o som transmitem uma sensação de intimidade e imediatez, mostrando que, mesmo sob aquela ditadura militar, podia ainda pulsar o desejo de um outro país. A partir do momento em que a casa é invadida e o Rubens é levado abruptamente por policiais militares, o filme como um todo é sujeito à subtração de elementos, tanto visuais quantos sonoros. As cortinas são fechadas, eliminando a luz natural. Os sons exteriores são abafados, a música cessa. Uma ditadura afeta tudo, inclusive a linguagem. A palavra não pode ser mais usada livremente dentro da própria casa, agora ocupada. A narrativa se torna subjetiva, uma personagem tenta entender o que o outro sente sem palavras. Os não ditos passam a reger as cenas. A câmara deixa de ser fluida, há um alongamento de cada plano e também uma outra compreensão do espaço. As lentes se tornam mais abertas, os planos mais estáticos. Os quadros do pintor dinamarquês Vilhelm Hammershoi, que retratou à exaustão as questões da falta e da ausência, ajudaram-nos a pensar essa parte do filme. Na conversa com Adrian Tejido e com Lula Cerri, as pinturas de Hammershoi foram um ponto de partida.

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