Um dos filmes mais impactantes do último Festival de Cannes, inserido na Un Certain Regard, foi “L’Histoire de Souleymane”, um poderoso drama com as vestes de thriller que rendeu ao seu protagonista, Abou Sangare, não só o prémio de melhor ator nessa famosa secção do festival cannoise, mas mais recentemente nos Prémios do Cinema Europeu.
No filme de Boris Lojkine, que abandonou as locações africanas dos seus projetos anteriores (Hope, 2019; Camille, 2021) e situou o seu mais recente filme em Paris, seguimos Souleymane, um imigrante ilegal da Guiné que ganha a vida como estafeta de entregas na capital gaulesa. Com vinte anos, “Souleymane de Paris”, como os colegas lhe chamam, trabalha ilegalmente em plataformas de entrega de refeições, como Uber Eats e outras. De bicicleta, ele pedala pelas ruas da capital para cumprir ordens e prazos implacáveis, enquanto tenta se preparar para uma entrevista que lhe pode fornecer os papéis que precisa para se tornar legal no país. A vida de Souleymane não é fácil e o tempo que ele precisa para se preparar convenientemente para a entrevista escasseia.
Foi em Cannes que nos sentámos à mesa com o realizador Boris Lojkine e falámos da génese e influências deste “L’Histoire de Souleymane”. Aqui fica a nossa conversa:
Existe um realismo cru em “L’Histoire de Souleymane” que me levou até à Nova Vaga do cinema romeno. Esse cinema de alguma forma influenciou este filme?
O cinema romeno inspirou-me muito na escrita do argumento, mas não tanto nas filmagens. Adoro o “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, o qual, para mim, é um filme modelo, ou seja, aborda uma questão social, mas é escrito como um thriller. Nesses filmes temos sempre pequenas histórias tratadas de forma muito direta. Queria que o meu fosse também assim.

E como começou na sua mente este “L’Histoire de Souleymane”?
Queria fazer um filme sobre um estafeta de bicicleta. Cinematograficamente há algo de muito poderoso em seguir alguém numa bicicleta. Existe a energia do percurso e existe uma precariedade e fragilidade na bicicleta e na pessoa que a conduz. Existem muitas vulnerabilidades.
Assim, comecei por tentar entender como é a vida das pessoas que têm esse emprego. Descobri que muitos dos que trabalham nisso são ilegais e, tecnicamente, não teriam o direito a trabalhar. Mas usam os papéis de outras pessoas certificadas para o efeito e que ganham muito dinheiro nesse “trespasse”. Para essas pessoas, a grande questão é a sua legalização; o conseguir os papéis para poderem viver as suas vidas.
A questão dos legais e ilegais cria desigualdades; duas classes sociais, dois mundos diferentes. Na minha investigação conheci muitas histórias de roubos da bicicletas, de recompras e até a existência de um mercado negro. E quem fala das bicicletas, fala dos smartphones. Estes dois objetos são essenciais para a profissão de estafetas “uberizados”. E se estes objetos se podem recomprar, ter os papéis que permitem a permanência num país não são tão fáceis de obter. Quando percebi isso, construí o filme em torno destes dois tópicos: o ser um estafeta ao serviço de uma empresa e o conseguir a legalização da sua condição no país.
A personagem que criou, o Souleymane, é sistematicamente vítima das circunstâncias de não ter os papéis para permanecer no país. Como desenvolveu a sua história?
A partir do momento em que és ilegal, és facilmente explorado por todos os que se cruzam contigo. Na verdade, a ausência dos papéis que conferem a legalidade são O grande problema que cria todos os outros. Se és ilegal, para trabalhares tens de o fazer sob o nome de alguém, que vai cobrar muito por isso. Se quiseres ter uma casa para habitar, tens de subarrendar o espaço a alguém, que vai cobrar mais que o normal. Se queres pedir asilo a um país, tens de pagar a alguém para te explicar o que tens de fazer. Tudo isso encarece e dificulta a vida destas pessoas. No fundo, temos uma questão administrativa que cria um conjunto enorme problemas, gera enormes dependências, humilhações e abre caminho à exploração.
Mas perante todas as adversidades, o Souleymane resiste…
O Souleymane é, acima de tudo, determinado. Uma das razões para o filme acompanha um momento temporal curto é porque estabeleci um objeto imediato concretizável: a entrevista para a legalização no país que ele terá dentro de dois dias. É esta entrevista que vai decidir o resto da sua vida. Com os papéis em ordem, ele pode aceder ao estado social, a um alojamento decente, a um emprego a tempo inteiro. Essa entrevista funciona como algo que torna tudo possível, mas até lá tudo é complicado. O stress dessa entrevista duplica o stress do seu dia a dia no trabalho.
Como foi trabalhar com o Abou Sangaré, alguém que na sua vida quotidiana passou por muitos dos problemas da personagem que interpreta?
Trabalhámos na forma de um contrato, não em termos legais, mas morais. Criámos confiança. Eu e a Aline Dalbis, que fez o casting comigo, tínhamos ciente que queríamos contar uma história com dignidade. O Abou queria ser ator. Adoro trabalhar com não profissionais. Na verdade, não acredito na palavra “não ator”, pois se entras num filme és ator.
O engraçado é que quando, no nosso processo de trabalho, começámos a fazer repetições,o Abou ficava aterrorizado. Ele não entendia que quando se enganava, era isso que eu gostava. Queria alguém que, naquelas circunstâncias, hesitasse, cometesse erros.
Além disso, há muito do próprio Abou na sua personagem. Existe muito da sua história pessoal, o que traz ao espectador um conjunto de emoções verdadeiras que fogem de tudo o que é artificial. Foi difícil para ele falar das suas coisas e foi preciso muita confiança. Essas cenas em que ele expõe a sua própria história só filmámos no fim. Por exemplo, falar da mãe foi muito complicado. Ele não é alguém que se abra facilmente ao mundo. Existe um pudor, uma desconfiança natural, fruto de muitas coisas traumatizantes porque passou. Passámos muito tempo juntos. Falámos muito. Trabalhámos bastante em conjunto. Aos poucos, ele foi-se abrindo. Ajudou muito o facto de toda a minha equipa ser constituída por pessoas engajadas em conseguir o melhor para o filme, sempre na base da confiança.
Nessa colaboração com não-atores, os seus guiões são muito precisos e rigorosos ou existe espaço para mudanças?
Escrevo guiões muito precisos, mas a verdade é que nunca seguimos esse guião (risos). Uma das coisas curiosas é que, depois de escolhermos todos os atores, numa fase avançada do casting, ensaiamos através de um processo de repetição das cenas escritas. Quando ensaiamos essas cenas, vejo como os atores funcionam. Mais que direcioná-los, nesta fase, observo, dou-lhes atenção, e depois reescrevo inteiramente o guião, sem afetar a chave da dramaturgia. Adapto assim muitas coisas à forma dessas pessoas agirem e comunicarem. Assim, nas filmagens, consigo cenas que, de forma mais justa possível, replicam a forma como vivem. Tudo isto pode dar a ideia de estarmos perante uma abordagem documental, mas é uma ilusão. “L’Histoire de Souleymane” é uma ficção nos limites do real.

Abou Sangare
Chegando à França em 2018, aos 17 anos, Abou Sangare obteve um bacharelado profissional em mecânica de veículos pesados e a promessa de emprego numa empresa local. Apesar disso, ele viu seu pedido de regularização recusado três vezes e só há poucos dias, 7 anos depois, viu a sua situação em França regularizada.






