Marianna Brennand: “Manas nasce do desejo de fazer um documentário de denúncia”

(Fotos: Divulgação)

Agraciada com a distinção da Giornate degli Autori de Veneza aquando da sua primeira projecção mundial, em setembro de 2024, Marianna Brennand chega ao cinema de ficção vinda do universo dos documentários. A sua trajetória começou com O Coco, a Roda, o Pneu e o Farol (2007), um olhar sensível sobre as tradições musicais populares do Nordeste brasileiro. Posteriormente, realizou Francisco Brennand (2012), um retrato íntimo do seu tio-avô, o renomado escultor e artista plástico pernambucano. Como produtora, esteve envolvida no premiado Danado de Bom, eleito Melhor Filme no Cine PE em 2016.

Manas, a sua estreia na ficção, já percorreu diversos festivais internacionais. Após a sua estreia em Veneza, o filme passou pelo Festival de Mannheim-Heidelberg, na Alemanha, onde conquistou o Prémio de Cineasta Emergente do júri oficial e a láurea do Júri de Estudantes. Em outubro de 2024, foi distinguido com o Prémio Especial do Júri no Festival do Rio, atribuído à sua atriz principal, Jamilli Correa, e arrecadou ainda o Prémio da Crítica na Mostra de São Paulo. No início deste ano, esteve em competição no Fest, em Espinho, reforçando a sua presença no circuito festivalero.

O argumento de Manas, escrito por Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Antonia Pellegrino, Camila Agustini, Carolina Benevides e pela própria Marianna, nasceu vencedor do Sam Spiegel International Film Lab. A trama acompanha o processo de amadurecimento de Marcielle, ou Tielle (interpretada por Jamilli Correa), uma jovem de 13 anos, num ambiente marcado pela violência contra as mulheres na Região Norte do Brasil, onde a paisagem fluvial molda tanto a vida como as tensões sociais.

O Manas nasce do desejo de fazer um documentário de denúncia“, confessou Marianna Brennand ao C7nema, revelando a intenção política e emocional por trás da sua primeira longa-metragem de ficção.

Quando descobriu casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes na Ilha do Marajó, a cineasta Marianna Brennand ficou profundamente chocada com a realidade que se revelava. Movida por um imperativo ético, idealizou um documentário para dar visibilidade a essa situação. No entanto, logo no início da pesquisa, percebeu que, além da exploração sexual infantil, a região enfrentava também um elevado índice de violência doméstica. Surgiu então um impasse moral:

Era inaceitável para mim colocar diante da câmara crianças e mulheres que tinham passado por situações dilacerantes de abuso. Fazê-lo seria cometer mais uma violência contra elas”, conta Marianna, explicando como a ficção acabou por surgir como um recurso essencial no seu percurso, ao navegar as águas da Ilha do Marajó, no Pará (PA).

É nesse território ribeirinho que vive Tielle (Jamilli Correa), ao lado da mãe, Danielle (Fátima Macedo), do pai, Marcílio (Rômulo Braga), e de três irmãos. Ela idealiza Claudinha, a irmã mais velha, que terá partido para longe após encontrar “um homem bom” nas balsas que cruzam os rios. À medida que Tielle amadurece, as suas idealizações vão-se desmoronando. Na entrevista ao C7nema, Marianna detalha essas ruínas.

Desde a sua estreia em Veneza, Manas tem gerado um intenso debate sobre a violência sexual contra menores. O argumento, profundamente assente em pesquisa e fidelidade ao real, reflete a trajetória anterior de Marianna no documentário. Como realizadora e produtora, já tinha explorado histórias reais com sensibilidade e rigor. O que este mergulho na ficção trouxe de transformador?

Todas as formas de expressão artística podem ser ferramentas poderosíssimas de transformação. Faço cinema porque acredito no seu poder de envolver, emocionar, sensibilizar e impulsionar mudanças sociais e políticas. Ninguém sai de uma sala de cinema exatamente como entrou — mesmo que a transformação permaneça no inconsciente, ela acontece. Sempre acordamos para algo novo. Espero que Manas ajude a quebrar o tabu em torno da violência contra as mulheres e a silenciar os silêncios. Toda a construção da linguagem do filme — a fotografia, o som, os diálogos, as atuações, a ausência de banda sonora — foi pensada para não estetizar nem embelezar a violência retratada. Queria que o espetador sentisse a realidade desenrolar-se diante dos seus olhos e se conectasse com Marcielle até ao ponto de esquecer que estava a ver um filme.

Manteve ferramentas da sua experiência documental?

Nunca deixámos de pesquisar, de verificar factos, de dialogar com especialistas — nem durante as filmagens. Foram muitas viagens ao Marajó, inúmeras conversas com consultores, múltiplas versões do argumento. O objetivo era ser o mais fiel e responsável possível ao retratar esta realidade, criando personagens complexas e humanas.”

Como as águas, na geografia retratada no ecrã, demarcam os fluxos afetivos da personagem central?

No início do filme, quando Tielle ainda vive a transição entre a infância e a adolescência — brincando com a irmã, catando açaí, indo à escola — a maré está cheia, viva e intensa. À medida que as violências vão acontecendo, a maré vai baixando, secando. Os galhos submersos começam a aparecer, retorcidos, como se representassem o interior da personagem e as diferentes mortes pelas quais a sua alma vai passando.

Passou seis meses a fazer testes até encontrar Jamilli Correa, a protagonista. Como foi prepará-la para as cenas?

Fizemos uma preparação longa e cuidada, para que ela pudesse encarnar com autenticidade uma menina ribeirinha. Jamilli fez aulas de natação, aprendeu a remar, catou açaí — fruta típica da região —, fez trilhas na mata e viveu experiências com os outros atores para construir o núcleo familiar. Ela mergulhou com enorme dedicação em tudo; foi emocionante testemunhar a sua transformação.

Filmaram-se as cenas o mais possível em ordem cronológica, para ajudar Jamilli a navegar naturalmente nas emoções à medida que a dramaticidade aumentava. “Ela surpreendia-me todos os dias no set, ao mostrar o seu amadurecimento. A minha maior preocupação era com a sua saúde mental, em preservar o seu bem-estar emocional.

O elenco infantojuvenil nunca leu o argumento completo. “Nós líamos as cenas com eles, conversávamos sobre o que estava em jogo, ensaiávamos brevemente antes das filmagens. Foi um processo de preparação muito cuidado e respeitoso.

O resultado superou todas as expectativas. A Jamilli revelou-se uma grande atriz. Tem uma inteligência emocional e cénica rara, uma presença forte que domina o ecrã. E tem uma capacidade única de preencher os silêncios com uma densidade dramática profunda — algo extremamente raro. É impressionante, especialmente vindo de alguém que nunca tinha atuado nem pisado num set de cinema. Ela é uma força da natureza. A intensidade emocional do filme deve-se, em grande parte, a ela. Foi uma alegria e um privilégio este encontro.

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