O “Horizonte” de César Augusto Acevedo amplia a voz autoral da Colômbia

(Fotos: Divulgação)

Depois de alimentar um debate geopolítico nas plateias canadianas do Festival de Toronto, o TIFF, ao escancarar as veias há muito abertas da América Latina, sob a perspectiva colombiana, “Horizonte” faz a sua estreia no continente onde nasceu nas salas da Mostra de São Paulo. Com projeção na noite desta segunda, na Cinemateca Brasileira, a longa-metragem traz a marca autoral de César Augusto Acevedo. Há nove anos, ele arrebatou Cannes com “A Terra e a Sombra” e saiu de lá com a distinção Camèra d’Or de 2015.

Em sua nova trama, dois fantasmas, uma mãe e o filho, procuram pelo pai perdido do menino, em uma jornada tão física quanto espiritual, por um mundo dilacerado pela guerra. Somente com enormes sacrifícios eles podem reparar os frágeis laços que os unem e encontrar a redenção.

Em conversa com o C7nema, numa São Paulo regada pela chuva, César Augusto Acevedo faz um retrato de como anda a saúde da indústria cinematográfica da sua pátria.

A sociologia latina fala em “mátria”, neologismo inspirado em “pátria”, a fim de expor a ausência de figuras paternas nas instituições afetivas. O que essa palavra pode simbolizar se aplicada ao seu filme?

Horizonte” parte de um lugar de mortos para falar dos vivos a partir da luta de figuras femininas que carregam o mundo, sem perder a ternura e a doçura. A personagem central enfrenta o horror da guerra. Começa na incerteza, mas nunca abre mão da esperança.

O seu cinema é muito marcado pela questão do território, quase como se as “arenas” das suas tramas, os espaços, fossem personagens. Que território procura em “Horizonte”?

Na Colômbia, não existe um só território livre de conflitos e de tragédias sociais. Eu parto aqui de uma paisagem espiritual, moral e emocional na qual o tempo é subjetivo, por ser a expressão de memórias, recordações. O que exploro no espaço é a representação da mudança, a ideia de que podemos mudar as coisas.

O quanto a presença de uma estrela latina como a chilena Paulina García ajuda a ampliar o espectro de universalidade da narrativa, de modo a alargar fronteiras?

A Paulina garantiu muita profundidade à personagem, de modo a garantir que uma trama muito colombiana possa ter uma carga universal. O realismo que o filme busca com a sua ajuda é um meio e não o fim.

Como avalia a atual realidade da produção cinematográfica feita na Colômbia?

O cinema cresceu e se democratizou. Há muita gente a fazer filmes e as abordagens são diversas e plurais. Há algumas contradições práticas que permanecem: em 2023, nós alcançamos um apogeu de lançamentos, com 80 títulos colombianos, mas ainda sofremos com a presença de público. Da pandemia para cá, a plateia diminuiu. É um problema universal do cinema hoje em dia. Nós temos um fundo na Colômbia que aporta cerca de 250 mil dólares para o arranque das produções, mas não é o suficiente para pagar um filme na íntegra. É necessário termos coproduções. Eu tive em “Horizonte”, que custou cerca de 1,5 milhão de euros.

No Brasil, sempre que se pensa na genealogia da produção audiovisual local, citam-se Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. Existe uma referência similar no cinema colombiano?

Lembramos sempre de Victor Gaviria, por “A Vendedora de Rosas”. Há também Marta Rodríguez e Luis Ospina, que vêm de Cali, como eu. Sobre o Brasil, vi “Cidade de Deus”, que é uma referência corrente, mas tive a chance de ver “Deus e o Diabo na Terra do Sol” faz pouco e vejo ali uma voz autêntica na obra de Glauber, que se conecta com os conflitos do seu país no seu tempo.

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