“A Argentina vive um momento de incerteza”, diz o realizador de ‘Simón de la Montaña’

(Fotos: Divulgação)

Um clima generalizado de “apagar as luzes” na indústria audiovisual argentina, provocado pela chegada de Javier Milei, e sua governança de extrema direita, à liderança daquele país fez com que festivais do mundo todo se interessassem em apoiar as lutas culturais do único país sul-americano a ter conquistado dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro (com “O Segredo de Seus Olhose A História Oficial). Em fevereiro, a Berlinale, na Alemanha, deu o Urso de Ouro de melhor curta a Un Movimiento Extraño, de Francisco Lezama, vindo de Buenos Aires.

Em agosto, “El Jockey”, de Luis Ortega, encantou Veneza, na briga pelo Leão de Ouro, e abocanhou o prêmio Horizontes Latinos de San Sebastián. Com a 48ª Mostra de São Paulo, a situação é a mesma: a cidade enche de elogios o portenho Simón de la Montaña, de Federico Luis. A narrativa chega às telas brasileiras endossada pela conquista do Grand Prix da Semana da Crítica, seção paralela do Festival de Cannes, na França, que celebra cineastas em início de carreira. Ele também brilhou em Donostia, onde conversou (novamente) com o C7nema. “Estamos num momento de incerteza, entre reticências criativas”, disse o realizador.

Construído numa ténue fronteira entre ficção e realismo documental, Simón de la Montaña narra o processo de amadurecimento de um jovem de 21 anos (vivido por Lorenzo Ferro), que, no coração da Cordilheira dos Andes, junta-se a um grupo de adolescentes neurodivergentes abandonados à própria sorte. 

Na entrevista a seguir, Federico implode uma série de signos que cercam a construção das expressões fílmicas da sua pátria.

Que simbolismo político teve a vitória de “Simón de la Montaña” em Cannes e na sua passagem gloriosa por San Sebastián, no meio ao estabelecimento das políticas de Javier Milei?

Não sabemos ainda o que vai nos acontecer daqui para diante em função das incertezas em relação às políticas públicas. Simón de la Montañaforma com outros dois filmes finalizados há pouco a última leva de produções concluídas antes da mudança de governo no meu país. É um trio de títulos que teve a sua aprovação como financiamento realizada antes da eleição de Milei. A nossa inclusãoem festivais internacionais é um marco histórico de uma etapa que acaba e de outra, mais solitária para os artistas, que começa, sem qualquer segurança.

Existe alguma analogia entre o que se passa com o cinema argentino e a realidade retratada no seu filme?

Total. A semelhança acontece pelo absoluto estado de insegurança em relação ao futuro. No meu argumento, Simón encontra-se diante do desafio de escolher que decisões vai tomar para o seu futuro. Nós, que fazemos cinema na Argentina, estamos na mesma situação. Só não temos uma direção para onde ir agora.

Que metáfora está por trás da geografia de pedras em que “Simón de la Montaña” se passa?

As montanhas simbolizam isolamento e lonjura. Escalar as pedras é desafiar distâncias, é explorar terrenos inóspitos. Naquela força natural, Simón e companheiros têm vivências de comédia, de drama, de ação, de vários registos de género, e saem dessa mescla de sensação transformados. É um ritual de descobertas e, com elas, vem um ritual de amadurecimento.

Cannes encantou-se pela sua habilidade de mesclar elementos documentais e ficcionais na construção das suas personagens. Como foi a preparação de atores não profissionais?

Reconheço no filme uma conexão com o mito bíblico de Simão do Deserto que passa pelo enfrentamento do desejo. O meu empenho com o elenco era ir além desses simbolismos. Não me guiei por improvisos. Houve muito ensaio, muita conversa.

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