Anunciado há 12 anos numa conversa de jornal que envolvia estrelas da produção na América do Sul (os irmãos Gullane e Walter Salles), “Arca de Noé” vai enfim ganhar os mares cinéfilos, com a promessa de mudar os rumos comerciais da animação brasileira, a começar por uma projeção na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Neste domingo, a Cinemateca Espaço Petrobras exibe a primeira experiência animada do cineasta baiano Sérgio Machado (de “O Rio do Desejo”), rodada em dupla com Alois Di Leo, para uma plateia de miúdos. A aventura é inspirada nos poemas infantojuvenis de Vinícius de Moraes (1913-1980) e conta com um elenco estelar de vozes (Seu Jorge, Alice Braga, Lázaro Ramos e mais..) para narrar a saga de dois ratinhos, Tom e Vini (interpretados na voz por Rodrigo Santoro e Marcelo Adnet), no meio ao Dilúvio.
Paralelamente, Machado atacou em outras frentes, uma delas a do streaming: ele teve a liderança na confecção de argumentos na série “Cidade de Deus, A Luta Não Para” (derivada do thriller social homónimo de Fernando Meirelles), que está na plataforma MAX. Finalizou ainda um outro filme, que lhe valeu o troféu Redentor de Melhor Documentário no Festival do Rio: “3 Obás de Xangó”. Nessa produção, ele retrata a amizade entre três orixás da cultura do Brasil: o compositor Dorival Caymmi (1914-2008), o artista plástico Carybé (1911-1997) e o escritor Jorge Amado (1912-2001). A narrativa reafirma a Bahia como território abençoado por ancestralidades africanas, nas rezas do candomblé.
Na entrevista a seguir, Machado fala ao C7nema sobre a linha criativa que orienta seu olhar.

O documentário que te consagrou no último Festival do Rio traz um recorte da Bahia, o teu estado natal, a partir de três pilares da cultura. Retrataste o mesmo território em “Cidade Baixa”, que te levou a Cannes, em 2005. De que maneira a questão da lealdade, tão recorrente no teu cinema, manifesta-se nessa incursão documental pela ancestralidade baiana?
O filme “3 Obás de Xangô” gira em torno da amizade e do carinho que eles têm uns pelos outros e pelas pessoas que os cercam. Num momento em que os confrontos e as polarizações estão de tal modo exacerbadas, esses três obás ensinam que é preciso desarmar para compreender o outro. Acho que essa ode à tolerância e à amizade tocou o público e deu para sentir isso nas duas sessões no Festival do Rio quando, no final, o filme foi aplaudido em ritmo de samba de roda. Como diz Jorge Amado: “A amizade é o sal da vida, e sem amor não vale a pena viver”.
Quanto o princípio da amizade, assunto central da sua obra desde “Cidade Baixa“, marca presença em “Arca de Noé”?
Acho que “Cidade Baixa”, “Arca de Noé” e “3 Obás de Xangô” são aparentemente diferentes, mas tratam fundamentalmente dos mesmos temas. Tudo gira em torno da amizade, do amor e do afeto como a possibilidade única de redenção. Sinto que em todos eles, os mais fracos procuram aliados para poder enfrentar as dificuldades da vida e encontrar o seu lugar ao sol. Quase sempre nos meus filmes, as personagens masculinas giram em torno de mulheres fortes, que indicam para eles um caminho que, às vezes, eles não conseguem compreender. Na “Arca de Noé”, Vini (na voz de Rodrigo Santoro) e Tom (Marcelo Adnet), os ratos protagonistas, lutam pelo amor de Nina (Alice Braga), assim como Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) brigam por Karinna (também Alice), bem como Dalmo (Rômulo Braga), Dalberto (Daniel de Oliveira) e Armando (Gabriel Leoni), os três irmãos de “O Rio do Desejo”, não conseguem lidar com o amor que sentem por Anaíra (Sophie Charlote). Na série “Irmãos Freitas”, Popó (Daniel Oliveira) e Luís (Rômulo Braga) disputam o amor da mãe. Acho que essa admiração pela força do feminino e a dificuldade que os homens têm de lidar com isso é algo que, de certa forma, está um pouco em tudo que eu fiz. Imagino que isso esteja muito fundamentado na minha infância, relacionado com o convívio com minha mãe e as mulheres fortes do candomblé.
A sua agenda este ano – e acredito que para 2025 – está muito movimentadas, pois além da série “Cidade de Deus” e do par de filmes da Mostra, tens outro documentário a caminho (“Bahia Me Fez Assim”) e uma série sobre o banditismo social, para a Disney + (“Maria e o Cangaço”). O que alinha todas essas narrativas numa linha autoral?
As cinco obras que vou lançar nos próximos seis meses e os filmes que estou a preparar para o ano que vem têm formatos diferentes: longas-metragens de ficção, séries, documentários e até uma animação. Mas acredito que todas elas partem de um mesmo desejo de entender melhor esse país incoerente, violento e caótico que é o Brasil e da admiração que tenho pelo seu povo. Mergulhar na vida e na obra de gente como Maria Bonita, Chico Mendes, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Dorival Caymmi, João Gilberto, Mãe Aninha e Mãe Senhora do Axé Opó Afonjá, Carybé, Novos Baianos, Raul Seixas e Assis Valente de algum modo pode nos dar algumas pistas de como nós podemos avançar nessa encruzilhada onde estamos.

Exibições na Mostra

