Iris Kaltenbàck e a solidão de “Le Ravissement”

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Prémio do Júri no Festival de Turim (Torino Film Festival), a estreia de Iris Kaltenbàck na realização de longas-metragens, “Le Ravissement”, já tinha deixado a sua marca no último Festival de Cannes.

Inspirada num fait divers, sobre uma jovem que pediu emprestado o filho da melhor amiga e fez um homem acreditar que era a mãe da criança, Iris Kaltenbàck entregou o protagonismo à atriz Hafsia Herzi, extraindo dela uma das suas melhores atuações. 

Para levar ao cinema esta obra, Iris explicou ao C7nema que a produção combinou duas vontades: a política e a pessoal.” Li no jornal uma pequena notícia sobre uma mulher que carregava o filho de uma amiga, encontra um homem com que teve um caso e diz-lhe que o filho é dela. Sempre achei que as histórias reais, mesmo as mais íntimas, contam muito sobre a sociedade. Mas aqui também existe uma história de amizade, que é muito importante para mim, pois reflete um pouco de mim e a relação que tive com a minha melhor amiga quando ela se tornou mãe. E como a maternidade mudou a relação. Muitas vezes falamos como os filhos mudam os casais, mas raramente das implicações que eles têm numa amizade. Essa complexidade e uma relação que nasce a partir de uma mentira motivaram-me muito”.

Para a cineasta gaulesa, o seu maior desafio nesta “empreitada” – que “tem muito de si, mas em nada é autobiográfico” – foi gerir o tempo, devido ao baixo-orçamento que possuía: Tínhamos um orçamento reduzido e uma janela pequena para filmar. Tínhamos de ser rápidos, mantendo o nível de exigência”. 

Definindo a sua obra, acima de tudo, como um objeto sobre a solidão – já que os três protagonistas lidam com o mesmo problema de forma diferente-, Íris não tem dúvidas que a pandemia contribuiu para tornar esse tema ainda mais presente. “É um filme muito contemporâneo e era importante para mim mostrar como a solidao toca as pessoas na cidade. Muitas vezes as pessoas estão sempre rodeadas de gente, mas isso torna as ainda mais solitárias2.

Influências

Iris Kaltenbàck

Além de o romance  “Le Ravissement de Lol V. Stein” de Marguerite Duras, Íris acrescenta uma série de filmes que a inspiraram na construção de “Le Ravissement”. A começar pelos filmes americanos dos anos 70, de ‘Taxi Driver’ a ‘The Panic in Needle Park’: “São ficções à americana, mas tocam na mouche dos problemas da realidade. Mostram a cidade, as pessoas reais. Queria misturar este toque quase documental com uma forma novelesca de contar uma história”. 

Outra influência foram os filmes chineses e de Taiwan dos anos 2000, como ‘Yi Yi’ de Edward Young e o cinema de Hou Hsiao-hsien. “Sinto que fazem filmes sobre a solidão”, confessa.

Finalmente, e quanto à forma como contar a experiência feminina no grande ecrã, a cineasta acrescenta inspirações mais gerais, que contribuíram para avançar para uma carreira na 7ª arte: Kelly Reinhart e Lucrecia Martel, pela “forma como contam histórias femininas de maneira inovadora”.

O Festival de Turim terminou hoje, 2 de dezembro.

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