É dia de o público do Festival do Rio descobrir “A Paixão Segundo GH”, a nova longa-metragem de Luiz Fernando Carvalho: há uma sessão às 19h no Kinoplex São Luiz. É o regresso do mais ousado realizador de TV do Brasil ao cinema, 22 anos depois de “Lavoura Arcaica” (2001). Numa atuação radical, porém afetiva, Maria Fernanda Cândido brinda o cinema nacional com talento e carisma numa atuação em que reage, com uma suavidade de gestos, ao texto de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em 1964. A trama esbanja existencialismo: Depois de despedir a empregada, G.H. inicia a limpeza no quarto de serviço e vê uma barata. Enojada do inseto, ela decide esmagá-lo. Nesse gesto, diante da massa pastosa e branca da barata morta, ela embarca num processo de desmontagem da sua condição humana.

Quando filmou “Lavoura Arcaica“, você dizia que o livro de Raduan Nassar te encontrou. Como foi o encontro com Clarice Lispector e o GH?
Esse encontro se deu na montagem de “Lavoura Arcaica“. A personagem Ana, naquela longa-metragem, não tem palavra, não tem diálogos. Eu abria o livro da Clarice sobre a mesa de montagem. Acho que se a Ana não tivesse sido sacrificada no livro do Raduan, o discurso dela seria o de GH. Tempos depois, assim que voltei de um debate sobre cinema e literatura, o meu telefone tocou. Era o filho da Clarice a dizer: “Luiz, o ‘GH’é seu”.
Qual é a relação que se trava entre imagem e palavra nesses dois filmes baseados em autores tão potentes?
Em Raduan, palavra é oratória, é reza. É algo mítico. Para Clarice, a palavra é o profano. Por GH passam o horror, o drama, a autobiogafia. Há muitas mulheres, muitas miríades de mulher.
O seu cinema tem uma conexão radical com as artes visuais, o que dá a seu recorte afetivo de “A Paixão Segundo GH” um aspecto de moldura, qual um quadro. Que moldura é essa?
Essa ideia de moldura já começa quando assumo uma janela 4×3 para a projeção, que se difere, geometricamente, da abordagem retangular da tela para assumir um formato que parece um livro. Esse formato cria uma relação de distância que evoca a proximidade da mão do leitor ao livro. Não se lê um livro em cinemascope, mas, sim, página após página, à altura do olhar. Para fazer isso, criei uma lente específica, que chamo de Lente GH, que cria uma tensão ótica entre a grande angular e uma teleobjetiva.
Qual é a trajetória que o filme percorreu a partir da pandemia, num hiato de quase três anos entre a feitura e a exibição no Festival do Rio?
Do ponto de vista espiritual, “GH” guarda consigo tudo o que ficou para trás: o vivido e o não vivido, e fecha, de certa forma, uma trilogia do meu cinema com a prosa literária, que começou com o curta “A Espera“, sobre Roland Barthes, e seguiu no “Lavoura Arcaica“.

