João Canijo pede a palavra ao Festival do Rio

(Fotos: Divulgação)

Chegou enfim ao Brasil o arrebatador drama que pode levar Portugal ao Oscar, “Mal Viver”, que saiu da Berlinale, em fevereiro com um Urso de Prata (no caso, Prémio do Júri. João Canijo, o realizador, veio ao Festival do Rio para a sua exibição. Em terras e telas alemãs ele esteve acompanhado por um irmão gémeo, “Viver Mal”, que brilhou na seção competitiva Encontros. No Rio de Janeiro, ele também vai ser exibido. Trata-se de um díptico em torno da rotina de um hotel luso. Um elenco de atrizes em estado de graça, ao lado de um inspiradíssimo Nuno Lopes, feroz em cena, servem de combustível para o projeto – uma experiência das mais vigorosas.

Em “Mal Viver”, a tal hospedaria que serve de arena para mil conflitos é apresentada sob a perspetiva das suas donas e funcionárias, com destaque para a atuação de Rita Blanco e Anabela Moreira. Já no filme da Encounters, Canijo olha aquele mundo sob a ótica de hóspedes, na triagem das depressões das mais variadas, incluindo um casal de namoradas que lida com uma sogra infeliz. É um dos filmes mais maduros do cinema português na cena dos festivais europeus, elogiado pela direção de fotografia de Leonor Teles.

Mal Viver” foi no sábado, no Estação NET Gávea. Já “Viver Mal” tem projeção neste domingo, às 14h45, na Gávea.

O quanto da angústia que rondam as personagens dos dois filmes reflete Portugal? De que forma o díptico pode representar um teatro da vida portuguesa?
A ideia de que um filme seja “teatral” é uma visão pobre. A nossa ideia básica foi não ilustrar, nem jamais explicar os sentimentos das personagens, mantendo uma certa distância e um certo voyeurismo. Sinto que este é, provavelmente, o mais pessoal, mas o menos português dos meus filmes. Eu matei essa parte da portugalidade com o filme “Fátima“.

Dramaturgicamente, que papel a palavra exerce no seu cinema?
Não escrevo os diálogos. Eles são escritos durante os ensaios. Tudo o que se passa nos ensaios é filmado e depois transcrito. Só depois é que faço a manipulação do material que foi produzido e parto para a escolha do que fica e do que sai. Depois de ter um roteiro completo, nós improvisamos as cenas todas e é dessa improvisação que saem os diálogos finais.

Desde sempre eram dois filmes – um díptico – ou em algum momento soubessem fazer apenas um?
Havia uma dificuldade, que era eu não saber se íamos ter dinheiro suficiente para o hotel ter clientes, para ter as personagens dos hóspedes. Desde que os clientes se tornaram algo de concreto, passaram a ser dois filmes.

Em Berlim, era uma unanimidade a qualidade da fotografia do filme, feita pela cineasta Leonor Teles. Cientes da presença dela, nasce a hipótese de termos uma conversação mediada pela lente, pela câmara, de dois autores, o senhor e ela. Como funcionou essa complementaridade de olhar entre vocês?
Funcionou bem porque havia discussão, no bom sentido. Houve uma coincidência muito grande, porque as nossas referências cinéfilas são as mesmas, embora ela tenha a idade do meu filho. Ela teve liberdade criatividade na escolha da luz.

De que maneira a escolha de “Mal Viver” para ser o representante lusitano no Oscar muda a carreira do filme?
Uma campanha para o Oscar custa uma fortuna incalculável. Só para te dar um númerozinho, a longa-metragem portuguesa que esteve mais perto de concorrer – fora a animação “Ice Merchants” – foi “Vale Abraão“, de Manoel de Oliveira, em 1973. O produtor gastou o equivalente a 250 mil euros e não conseguiu nada. Naquela época, esse valor era ainda mais significativo do que é hoje.

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