Nascido em Parma, há 81 anos, e consagrado tanto na Europa, com westerns spaghetti como “Django“(1966), quanto nos EUA, com “Camelot” (1967), o ator Franco Nero recusou os códigos de conduta da correção política ao escolher Kevin Spacey no elenco de seu mais recente trabalho como realizador. “The Man Who Drew God” ofereceu um papel de destaque a Spacey sem medo de ser “cancelado”. No Brasil para participar do 25. Festival do Rio com o doce “Giorni Felici“, Nero não perde tempo em respostas sobre essa ou outras escolhas. “Nunca fui movido por dinheiro, por cachês, mas pela diversão de filmar. Se um projeto for bom e me pagarem, faço. Se não pagarem, faço assim mesmo. Sempre quis realizar. Fiz curtas-metragens na minha juventude, num quinteto de que fiz parte, ao lado do (fotógrafo) Vittorio Storaro, mas as pessoas sempre queriam que estivesse diante das câmaras“, disse Nero ao C7nema, na Glória, na sede do Festival. “Continuo a tentar realizar, mas não vou mais atuar no que filmar“.
Há dez anos, Nero esteve em cartaz num filme brasileiro: “A Memória Que Me Contam“, de Lucia Murat. “Já filmei em todo o lado, da Croácia à Irlanda, onde fiz ‘The Pope’s Exorcist‘, que foi um sucesso por todo lado. Sei que foi ‘Django‘ que me deu a fama da juventude, mas já fiz uns 230 filmes. São muitas personagens. Cada uma tem sua relevância“, diz Nero, que já filmou com Quentin Tarantino e sempre esteve na mira de cineastas de autor. “A minha carreira alternava trocas com mestres como Fassbinder, Chabrol e Elio Petri com produções comerciais. Já disse não a Los Angeles para fazer filmes europeus que tinham um guião fascinante. Deixei de fazer ‘The Equalizer 3’ com Denzel Washington para filmar histórias na Itália que me instigavam. Renunciei ao chamado do dinheiro muitas vezes em nome da arte“, diz o eterno pistoleiro Django, que arrastava um caixão pelo Oeste sob a régia de Sergio Corbucci. “Tinha um bom humor único e que nunca acabava. Era capaz de ser alegre até no trabalho, ao rodar 20 sequências num dia“.

Em “Giorni Felice“, Nero encara a velhice. Na trama, Margherita (vivida por Anna Galiena) é uma atriz de renome internacional com uma carreira repleta de sucessos e distinções. Mora em Roma e, às vésperas de uma viagem para Los Angeles, é atingida por problemas físicos e diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica. Antonio, o seu ex-companheiro, vivido por Nero, prontifica-se a ajudá-la e os dois, separados há muitos anos, reconstroem a sua relação através do sofrimento.
“Tenho visto muitos filmes em que homens jovens namoram mulheres idosas e filmes sobre mulheres jovens com homens velhos. O olhar sobre um romance maduro, entre idosos, só vi em ‘Amour’, de Michael Haneke. Chamou a minha atenção ainda nesse guião o facto de eu ter pouco texto. Existem muitos silêncios”, diz Nero, explicando ao C7 sua recente incursão na prosa. “Estou a lançar um livro em Itália, ‘Django e Gli Altri‘, no qual narro o que vivi no cinema. Tem muitas histórias divertidas”.
O Festival do Rio termina no domingo

