Quase dois anos depois de sua consagrada passagem por Annecy, de onde saiu com o Prémio do Júri, “My Sunny Maad” (originalmente “Moje slunce Mad”) chega só agora ao Brasil, num abrir de portas (e de salas) para a cineasta Michaela Pavlátová. Seria um “reabrir” na prática, uma vez que ela esteve em terras brasileiras nos anos 2000, durante o hoje silenciado festival Anima Mundi, com as suas curtas-metragens, entre elas a que lhe rendeu o Urso de Ouro do formato, na Berlinale de 1995: “Repete”. É a vez de sua longa-metragem de estreia ser projetada no país da América do Sul, com sessão no Festival do Rio nesta terça-feira, às 14h45 (19h45 de Lisboa), no Estação NET Gávea.
“O Anima Mundi foi um espaço de troca e de formação muito importante, pelo qual o mundo todo passava”, disse a cineasta ao C7nema, via Zoom, ao comentar uma narrativa baseada no livro “Freshta”, um romance da jornalista Petra Procházková, inspirado por vivências da autora. “Sentia-me uma rainha na minha passagem pelo Brasil. Havia uma troca calorosa e curiosidade sobre uma possível mirada feminista que não era consciente para mim. Eu trabalhava também em live action e minha forma de dirigir mulheres, mas também os homens, contagiava a minha forma de mais intensidade às personagens”.

Cabul é a arena do seu filme, traduzido como “Meu Pequeno Maad” no Brasil, e também chamado “Ma Famille Afghane” em França. A sua primeira longa animada acompanha a imersão de Herra, uma jovem checa, no Afeganistão após o seu casamento com Nazir, apaixonado por ela, mas devoto às tradições do seu país. Após o casamento, Herra vai morar com a família dele, assumindo a burca sobre as suas madeixas louras, submetendo-se a regras que, pouco a pouco, vão minando a sua felicidade e a aposta na harmonia da vida a dois. As tentativas frustrantes de Herra em engravidar, dão ainda mais peso naquele relacionamento, pautado por códigos sexistas de opressão.
“Não encaro este filme como um exercício de reflexão política, mas, sim, como um olhar afetivo humanista sobre a tolerância, que é o tema central do meu trabalho. O meu interesse são relações afetivas e laços de família, seja num contexto de crise ou não. Sei que é impossível não ter uma abordagem politizada ao falar sobre o Afeganistão, mas minha questão essencial aqui são os laços familiares e a alteridade”, explica a cineasta. “Fugi do virtuosismo para valorizar a reflexão. Não é um filme de excessos gráficos, que torna tudo um desenho animado de TV, um cartoon. É uma conversação. É a vida. É um mundo hostil. Ele demanda calma, pensamento”.
Há uma sessão extra de “Meu Pequeno Maad” no sábado, dia 14, às 21h45, no Estação NET Rio.

